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sexta-feira, 1 de abril de 2016

killing and dying

Já registrei aqui pelo menos seis outros livros de Adrian Tomine ("Sleepwalk and Other Stories", "Summer Blonde", "Shortcomings", "32 Stories", "New York Drawings" e "Scenes from an impending marriage"). "Killing and Dying" é seu trabalho mais recente. São seis histórias, muito distintas entre si, cada uma delas muito especial. Li algumas várias vezes, sempre extraindo delas algo novo a cada leitura. Dizer que trata-se de um livro de histórias em quadrinhos (ou em bom português de uma graphic novel) não dá a real dimensão do trabalho de Tomine. Ele sabe contar histórias, descrever sentimentos, fazer com que o leitor se interesse pelo destino de seus personagens, partilhar de suas escolhas. Suas histórias são urbanas, contemporâneas, de um mundo complexo e em constante transformação. Ele foca sempre a condição humana, o impacto de experiências cotidianas, sempre banais e irrelevantes, no destino de cada um. Em quase todas elas se expõe um conflito entre gerações ou, ao menos, entre um grupo social e um outro, imediatamente mais velho ou mais novo. Em todas os protagonistas vivem angustiados e/ou em crise, mas não há exatamente tristeza neles, antes parecem anestesiados da vida, displicentes e conformados. Tomine usa técnicas de ilustração distintas para cada história, contrasta imagens coloridas e em preto e branco, as enquadra e narra de forma diferente, sabe quando o silêncio torna-se mais poderoso que uma enxurrada de frases, nunca esgota o assunto, tornando múltiplas as interpretações. Os temas parecem simples: um sujeito que trabalha com jardinagem decide experimentar o mundo das artes plásticas; uma garota tem seu perfil modificado em uma rede social; um casal descobre só ter em comum a paixão por um time de beisebol; uma mulher escreve para o filho uma história de sua infância; uma garota tímida acredita ser capaz de tornar-se uma comediante profissional; um rapaz tem a compulsão de viver parte da vida de outra pessoa. Olho. Esse é o tipo de sujeito que vale a pena acompanhar. 
[início: 04/03/2016 - fim: 31/03/2016]
"Killing and dying: stories", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 1a. edição (2015), capa-dura 17x24 cm., 124 págs., ISBN: 978-1-77046-209-0

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

scenes from an impending marriage

Ao encomendar "32 stories" (o volume que reúne os primeiros de Adrian Tomine - os  mini-comics da série Optic Nerve) descobri este outro trabalho dele. Trata-se de uma série de histórias autobiográficas (na forma de comics, claro), onde ele descreve os preparativos para seu casamento. Entendi que a idéia original envolvia dar exemplares de um volume destes a cada convidado, como lembrança do casamento, mas o texto de apresentação não deixa claro se isso chegou mesmo a ser feito. Os episódios capturam com o humor característico de Tomine os contratempos típicos de um casamento,  começando com a decisão de se casar (com uma pessoa com quem obviamente já vive maritalmente a tempos) e seguindo pela via-sacra mundana que todos conhecem: a definição da data; lista de convidados de cada família; criação inventiva do convite; definição de um local agradável; escolha das músicas a serem executadas; preparativos com cabeleireiros, maquiagem, floristas e cozinheiros; listas de presentes; aluguel de roupas, limusine e segurança; além de infinitos detalhes que são esquecidas até, por fim, definirem um hotel para a lua de mel e finalmente voltarem a ficar a sós. O tratamento beira o sarcasmo, como sempre observa-se em suas histórias. Ele de fato é um sujeito que sempre usa sua biografia para tentar emular a psique da sociedade em que vive, mas aqui parece haver um tanto mais de vaidade, como se ele precisasse produzir o livro para provar que é um sujeito legal, capaz de demonstrar genuíno carinho por uma pessoa (em contraposição ao típico desnudamento - cruel desnudamento - de seus semelhantes). O livro garante um par de boas risadas, mas não muito mais do que isso. Talvez eu seja um sujeito cético demais em relação ao poder institucional destes ritos de passagem para me comover com a ironia (indulgente ironia desta vez) que Tomine reservou para este livro. Paciência.
[início - fim:  15/10/2013]
"Scenes from an impending marriage: a prenuptial memoir", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 1a. edição (2011), capa-dura 13,5x15,5 cm., 54 págs., ISBN: 978-1-77046-034-8

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

32 stories

Adrian Tomine nasceu em 1974 em Sacramento, California. No início dos anos 1990 mudou-se para Nova Iorque e entre 1991 e 1994, ou seja, entre os 17 e os 20 anos, produziu, editou e distribuiu os sete primeiros volumes de "Optic Nerve", mini-comics de tiragem limitada que tiveram grande repercussão, tanto de público quanto de crítica. Eram trabalhos quase artesanais, fanzines feitos a caneta e reproduzidos com xerox. Em 1995 ele passou a produzir seus trabalhos para a editora canadense de comics do circuito alternativo Drawn and Quarterly Publications. Posteriormente passou também a contribuir regularmente para jornais e revistas americanos, como a The New Yorker. Já tive chance de comentar aqui tanto os números de "Optic Nerve" produzidos para a Drawn and Quarterly ("Sleepwalk and Other Stories", que reúne os volumes 1 a 4; "Summer Blonde", volumes 5 a 8, e "Shortcomings", volumes 9 a 11) quanto os trabalhos produzidos para a The New Yorker ("New York Drawings"). Em "32 Stories" estão reunidos seus primeiros trabalhos. São histórias de iniciação, quase toscas muitas delas, onde vê-se claramente que trata-se de um autor que busca sua forma de expressão. A técnica vai se aprimorando, alguns temas são retomados, questões polêmicas são abandonadas. Em qualquer cidade centenas de garotos devem produzir todos os anos histórias assim. De alguma forma os trabalhos de Tomine se destacaram e ele conseguiu passar a ser editado regularmente. Em seus trabalhos iniciais nota-se algo da tensão entre aqueles que são mais fortes e ainda hoje interessantes (aqueles onde é feita apenas uma descrição da realidade, sem julgamentos de valor, exposição de teses sociológicas ou tentativas de antropologia selvagem) e aqueles que já restam rotulados (por estarem presos a alguma agenda política e/ou econômica da época). Apenas vinte anos se passaram desde a publicação original, mas o mundo parece ter sido varrido por transformações. A euforia dos anos que seguiram a queda do muro de Berlin e da redemocratização do Leste Europeu logo se esgotou. O controle tecnológico que experimentamos todos é pleno e poderoso, a espetacularização das vidas e da cultura é hoje completa e os problemas mais importantes continuam sendo os mesmos de sempre: a aparente inadequação do homem moderno para a vida em sociedade, a impossibilidade de compreendermos (ou aceitarmos) completamente os outros, a solidão, a dificuldade (ou antes a incapacidade) de amar. Tomine não me parece pretensioso a ponto de querer esgotar os temas, pontificar suas verdades como únicas. Há um humor discreto em seus trabalhos, por vezes os personagens parecem piscar para o leitor, algo cúmplices. Sujeito divertido esse Tomine.
[início: 04/10/2013 - fim: 06/10/2013]
"32 Stories: The Complete "Optic Nerve" mini-comics", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 3a. edição (1997), brochura 14x21,5 cm., 98 págs., ISBN: 978-1-896597-00-9

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

new york drawings

Em "New York drawings" Adrian Tomine apresenta trabalhos que produziu durante uma década de colaboração com a revista "The New Yorker". São ilustrações que produziu para capas da revista, cartuns, histórias em quadrinhos, rascunhos, propostas (inclusive as recusadas) e até rabiscos esparsos (dos quais nenhum ilustrador e/ou designer jamais se separa). A falta de uma narrativa que exatamente enfeixe todos os trabalhos não é um problema. Claro, os comic books de Tomine que já li (Shortcomings, Summer Blonde e Sleepwalk and Other stories) são densos, muito organizados, poderosos pelas boas reflexões sobre o mundo contemporâneo (ok, não exatamente do mundo contemporâneo, ao menos sobre o microcosmos americano, nova-iorquino). Em "New York drawings" encontramos uma versão resumida daqueles bons trabalhos. As ilustrações de Tomine são muito expressivas. O olho do leitor percorre as imagens e frequentemente é capturado por detalhes, onde encontramos ora um humor discreto, ora algo depressivo, tenso, ora algo lírico e tocante (mas nunca piegas). Bom livro. Cabe o registro que foi o Paulo Chagas, também ele um bom ilustrador e/ou designer, quem me falou deste livro, num dia festivo e gastronômico que compartilhamos. Valeu amigo!
[início: 22/07/2013 - fim: 26/08/2013]
"New York drawings: A decade of covers, comics, illustrations, and sketches from the pages of The New Yorker and beyond", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 1a. edição (2012), capa-dura 21x29 cm., 176 págs., ISBN: 978-1-77046-087-4

domingo, 26 de setembro de 2010

shortcomings

Shortcomings é uma graphic novel de Adrian Tomine publicada no início dos anos 2000. Não é o melhor trabalho dele que já li, mas tem lá seu valor. Trata-se de uma história curiosa, em que se discute sobre o amor, sobre o preconceito de gênero e sobre o preconceito racial. O personagem principal é um descendente de japoneses radicado na California. Ele tem uma relação afetiva tensa com uma jovem cineasta também de ascendencia japonesa e tem uma jovem lésbica de ascendencia coreana como sua melhor amiga. Este sujeito tem dificuldades de entender relacionamentos interaciais, e é algo obcecado com as garotas caucasianas com quem se relaciona. Sua namorada resolve passar uma temporada em Nova Iorque para finalizar um projeto audiovisual e a separação deles o leva crises de ciúme e de auto-estima. A dificuldade dele em ter sentimentos honestos, consigo mesmo e com os demais a seu redor, sua fragilidade emocional inata, sua agressividade verbal e tentativas de se corrigir, são registrados vivamente no traço de Tomine. Claro, gostei mais das outras histórias dele que já li: Sleepwalk e Summer Blond, mas este Shortcomings tem o poder de enfeitiçar de alguma forma o leitor e fazê-lo refletir sobre sua capacidade de amar verdadeiramente. Consegui recentemente dois outros textos dele que irei resenhar em breve. [início 10/09/2010 - fim 25/09/2010]
"Shortcomings", Adrian Tomine, Draw & Quarterly Publisher, 1a. edição (2007), capa-dura 17,5x24,5 cm, 108 págs. ISBN: 978-1-897299-16-6

quarta-feira, 18 de junho de 2008

rubia de verano

Quando eu vi a imagem ao lado em um bloco de cartões postais anos atrás fiquei maravilhado de pronto. Um sujeito que consegue captar esta sensação forte que é ter o vislumbre dos pés de uma moça ao caminhar deve mesmo ter algo a dizer. Muito apropriado e delicado. Mas eu tive de esperar um bom tempo para achar os livros da coleção "Optic Nerve" que Tomine publica desde 1991. Abaixo eu já resenhei "Sonámbulo" e suas 19 histórias curtas. Aqui em "Rubia de Verano" temos apenas 4 histórias mais longas, que valem por novelas curtas eu diria, em contraposição aos contos anteriores. Gosto mesmo do traço utilizado por Tomine. Somos apresentados aqui, de forma ainda mais contundente, ao mundo das pessoas que ficam a margem dos acontecimentos, mesmo que este afastamento seja por vontade própria ou ainda por curtos períodos. Em uma das histórias temos um escritor sem assunto, perdido após a publicação de seu primeiro livro; no segundo vê-se um sujeito atraído por uma mulher que ele sabe infiel a um conhecido seu, mas que tem escrúpulos demais para admitir os dois sentimentos; na terceira história uma moça se divide entre manter sua extrema independência e a necessidade ocasional de conversas e relacionamentos; e na última um rapaz se aproxima por vias tortas de uma garota cujos aborrecimentos na escola secundária superam em muito os seus. São enredos simples, mas que permitem leituras bastante ricas e variadas. Vou ficar a espreita de algum outro livreto deste sujeito, bom observador da vida e dos sucessos dos homens e das mulheres.
"Rubia de Verano", Adrian Tomine, tradução de Alejo Garcia Valearana, ediciones La Cúpula, 2a. edição (2006) brochura 16.5x24cm, 128 pág. ISBN:978-84-7833-622-7

domingo, 18 de maio de 2008

sonámbulo y otras historias

Este comics (em português do Brasil, hehehehehe), mangá, ou enfim novela gráfica, como se registra na Espanha, é de um americano de seus trinta e poucos anos chamado Adrian Tomine. Ele publica uma série de histórias, chamada sempre de "Optic Nerve", em jornais e em revistas americanas como "The New Yorker", "Time" e "Rolling Stone". Em livro, ou melhor dizendo, neste formato de livro, algumas das muitas histórias de "Optic Nerve" foram compiladas já várias vezes, o que acabou por grangear muito sucesso e respeito para seu autor. Eu conhecia o traço marcante dele por conta de um conjunto de cartões postais que comprei anos atrás. Não havia muita informação no cartão, mas as imagens como se defendiam sozinhas da minha curiosidade. Mandei vários destes cartões para os amigos, sempre que um sentimento ou outro se aproximava da minha leitura da ilustração. Passeando por uma loja de comics em Madrid com dueña Nana enquanto dueña Helga se divertia na calcografia nacional achei dois volumes (este Sonánbulo resenho agora, mas meu favorito, Rubia de Verano, vou resenhar apenas mais tarde, pois a caixa onde ele está ainda não chegou dos correios). O que dizer? Sou um entusiasta deste tipo de linguagem. Lembram um tanto os contos curtos de Raymond Carver por exemplo, ou mais precisamente ainda, o filme baseado nestes contos, "Short Cuts", dirigido por Robert Altman. As histórias curtas envolvem pessoas comuns, um tanto marginalizadas socialmente em sua maioria, longe do estereótipo que usualmente atribuímos aos americanos (como sintetizar a psiquê de 300 milhões de indivíduos afinal de contas?). Gosto desta capacidade de registrar uma reflexão social profunda e sutil usando ilustrações (o meu guru nesta assunto é o Angeli, para mim o mais conciso, cortante e fundamental de todos os grandes ilustradores brasileiros). Recomendo este comics para todos aqueles que já tenham passado pelos primeiros aborrecimentos desta vida mas que não perderam a capacidade de se surpreender com tudo o que é humano (as vezes demasiadamente humano, já disse alguém).
"Sonámbulo y otras historias", Adrian Tomine, tradução de Robert Lubarsky, ediciones La Cúpula, 1a. edição (2006) brochura 16.5x24cm, 106 pág. ISBN:84-7833-691-5