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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

o sentido de um fim

"O sentido de um fim" é um livro curioso. Ao mesmo tempo que conta uma história interessante, que oferece ao leitor material suficiente para boas reflexões sobre memória, culpa, filosofia, história, conflitos entre gerações e até teoria da literatura, o livro irrita ao leitor, ao expor tão insistentemente seus truques e malabarismos (a concisão forçada, a economia, a ambiguidade, simples artificios, mas que acabam por dar sentido formal ao livro). Autor experiente (e premiado) Julian Barnes domina completamente o processo. Já conhecemos sua versatilidade desde seu primeiro livro, o exuberante "O papagaio de Flaubert". "O sentido de um fim" é  um livro curto, onde se narra os desdobramentos de uns poucos fatos realmente importantes. Claro, para cada indivíduo, cada protagonista, mesmo o menor dos gestos pode vir a ser capital, mas para a humanidade, para a história (e para o leitor), tudo é irrelevante. A graça do livro está em uma questão sobre a qual não é possível comentar detalhadamente sem ser tendencioso, e como isso contaminar a apreciação futura de quem vier a se interessar em lê-lo. O livro é dividido em duas partes. Na primeira conhecemos o narrador (Anthony) e seus amigos mais próximos (Colin, Alex e Adrian - que não é inglês, mas sim americano), estudantes na Londres suburbana do início dos anos 1960 que terminam o nível médio e entram na universidade. Adrian é o mais inteligente do grupo e chama a atenção pela abordagem filosófica com a qual experiencia a vida. Nesta parte o narrador descreve o suicídio de um rapaz da escola (não exatamente de seu círculo de amizades), fato que é discutido em sala de aula e também entre Anthony e seus colegas; seu relacionamento com uma garota (Veronica) - que é de uma classe social um tanto maior que a sua (na Inglaterra essas questões sempre são importantes); uma viagem para os Estados Unidos e um outro suicidio, agora sim de um de seus amigos. Na segunda parte há um deslocamento temporal de mais de quarenta anos. O narrador já casou-se, separou-se, viu crescerem filha e netos, aposentou-se (aparentemente teve uma vida anódina). Em determinado momento ele recebe uma correspondência oficial dando conta de seu direito, por herança, do diário daquele amigo seu que havia cometido suicidio, há quarenta anos. A partir daí Barnes faz com que o narrador se comporte como um detetive (ou romancista policial) que investiga questões de seu próprio passado, tateando entre a realidade factual (a historiografia possível deste passado) e os destroços de sua memória. O livro ganhou o "Man Booker Prize" de 2011, e aparentemente vendeu bem mundo afora, mas o resultado me parece ruim, por mais suspense que seja criado, ou por mais maestria com que Barnes leve seu livro ao final. Tanto a culpa de Anthony, quanto a irracionalidade de Veronica são artificiais demais para meu gosto. Os outros personagens são rasos demais para que inspirem alguma simpatia ou admiração. Mas nunca podemos confiar nos narradores (qualquer leitor aprende isso cedo ou tarde), assim como não podemos confiar na realidade de nossas memórias. Talvez seja essa a mensagem que Barnes queira uma vez mais nos transmitir. A realidade sempre é mais surpreendente e insana que qualquer ficção, qualquer texto ou cousa imaginada pelos homens.
[início 09/09/2012 - fim 10/09/2012]
"O sentido de um fim", Julian Barnes, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 159 pág. ISBN: 978-85-325-2755-4 [edição original: The sense of an ending (Londres: Jonathan Cape) 2011]

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

um pedante na cozinha

Gosto de cozinhar e de ler livros sobre culinária. Meu amigo Guga Pimenta diz vez ou outra que tenho mais livros de culinária que ele de qualquer outra coisa. Eu fico envaidecido e encabulado ao mesmo tempo e aí lembro da meia dúzia de livros de culinária que o Koji tem na sua cozinha. Ele sim é um cozinheiro de mão cheia, pleno de truques e habilidades, e que cultivou nos filhos e nos amigos o hábito prazeroso de ter nas refeições uma festa para os sentidos. Mas chega de reminiscências. “O pedante na cozinha”de Julian Barnes não é exatamente um livro de culinária, mas sim um razoável livro escrito por um bom autor. Um de meus livros favoritos é “O papagaio de Flaubert”, do mesmo Julian Barnes que assina este. Ele sabe contar uma história e há um sarcasco sutil em tudo o que escreve. Talvez estes textos tenham sido escritos antes para um jornal, vai saber, ou talvez ele tenha dado literariamente exatamente esta impressão de propósito, pois de fato é um escritor muito experimental. Mas eu disse que o livro é razoável, vejamos porquê: ele elenca questões importantes relacionadas aos livros de culinária: a falsa dificuldade ou simplicidade sempre alegadas de antemão pelos autores; a pretensão encarnada em todo autor e cozinheiro (a maioria já virou “chef” faz tempo); a ilusão das fotos e das cores; a criptografia das receitas mal formuladas; a ausência de tempos, quantidades e descrições corretas das especiarias e temperos, o fato dos utensílios e aparatos serem sempre distintos dos nossos; as obviedades e as extravagâncias que todo aprendiz de cozinheiro deve internalizar e/ou evitar. Seu livro fala basicamente de livros de autores ingleses, desconhecidos para este contumaz resenhador: Richard Olney, Nigel Slater, Marcella Hazan, Jane Grigson, Elizabeth David. Who? Esta última me soa familiar, mas eu não tenho nada dela em casa. Fazer o quê? Onde estão afinal os rodados Nigella Lawson, Jaime Oliver e Gordon Ramsay por exemplo? Contemporâneos demais, moderninhos demais parece dizer-me Barnes, caçoando. O livro de Barnes mostra o caminho: não ser escravo de um livro só, não ter medo de anotar as tuas próprias receitas, seguir seu instinto (o melhor seria dizer criar seu instinto culinário), não se prender a convenções tolas, tentar extrair prazer do processo e da companhia (sem isto não há jantar que resista). Para quem não tem medo de um forno e fogão vale uma folheada.
"O pedante na cozinha”, Julian Barnes, tradução de Jussara Simões, editora Rocco, 1a. edição (2008), brochura 14x19cm, 142 págs. ISBN: 978-85-325-2344-0