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quinta-feira, 23 de maio de 2019

esta bruma insensata

Em "Esta bruma insensata", seu romance mais recente, Enrique Vila-Matas oferece uma vez mais uma narrativa onde importam antes as ideias, a discussão sobre o ofício da invenção literária, intertextualidade, metalinguagem ou o mundo diáfano dos livros e não necessariamente a trama, a história, os sucessos e aborrecimentos de personagens que, sabemos todos, só existem na imaginação de escritores e leitores. No livro acompanhamos três dias da vida de Simon Schneider, um sujeito algo misantropo, que vive isolado num casarão em ruínas de Cap de Creus, no ponto mais oriental da Península Ibérica, próximo à badalada Cadaqués, na Catalunya. Simon vive de traduções e também do curioso ofício que é compilar aforismos e frases feitas. Nos últimos vinte anos ele vendeu suas frases compiladas e aforismos sobretudo para um irmão mais novo, Rainer Schneider Reus, sujeito que era um medíocre escritor quando morava na Catalunha, mas que emigrou para os Estados Unidos e tornou-se um escritor respeitado, tanto por seus truques metaliterários quanto por sua reclusão, sua aversão a exposição pública, ao estilo de Thomas Pynchon ou J. D. Salinger. Simon entende que a força e o sucesso dos livros de Rainer deve muito a seu trabalho, às frases feitas que envia ao irmão. Ao mesmo tempo tem consciência do fracasso, sabe que a matéria prima da literatura sempre é algo que já foi contado e recontado infinitas vezes, que a originalidade é uma quimera, um sonho, esquecido entre "brumas insensatas", para aproveitar o título do livro. Vila-Matas situa temporalmente seu livro no final de outubro de 2017, nos dias em que massivas manifestações públicas aconteceram em Barcelona em função da declaração unilateral de independência anunciada pela Generalitat de Catalunya (e que tantos desdobramentos fez toda España experimentar desde então). Rainer e Simon funcionam como  Doppelgänger um do outro, são duplos, faces opostas e complementares, um do outro. A bem da verdade, entendi o relacionamento deles dois algo parecido com o de James Joyce e seu irmão Stanislaus, sempre tratado como um escravo particular, desde os tempos em que viviam em Trieste até o final da vida de Joyce, já em Zürich. Há momentos em que Simon e Rainer confessam fé cega na literatura, no poder das palavras, ja noutras, com sarcasmo, renunciam a ela, por sua natural impostura. O livro oscila entre estas duas ambições, louvar a literatura e renegá-la. Vila-Matas povoa seu livro com citações interessantes (de Elias Canetti, Raymond Queneau, Anthony Burgess, Ortega y Gasset, Winston Churchill e tantos outros). Ele faz seu personagem principal, Simon, deambular de Cap de Creus a Cadaqués, dali a Barcelona, justamente nos dias das manifestações contra ou a favor da independência da Catalunya, para encontrar, mas isso só nos últimos capítulos do livro, com seu famoso e dissimulado irmão. Esse encontro, em um hotel do Eixample barcelonês, funciona como um momento de auto-análise, uma sessão de psicanálise, uma interpretação do valor das palavras trocadas entre eles. Com bem diz um deles nestas seções finais do livro, "a paranóia é como o alho, deve ser usada com parcimônia". O livro termina enigmático, com uma palavra dita por Rainer para Simon, que lembra o final do "Cidadão Kane", de Orson Welles, e também termina com Simon perseguindo, pelas ruas coloridas de amarelo da Catalunha, uma esquiva Dorothy, que talvez fosse a mulher de Rainer, ou talvez não, vai saber. Vivemos todos sob um nevoeiro sem sentido. A literatura de ficção, Vila-Matas faz Simon enunciar: "gosta do passado e por isso corre o risco de não ser outra coisa que algo do passado". Sempre provocante, esse curioso e prolífico catalão. Vale! 
Registro #1403 (romance #356) 
[início: 11/05/2019 - fim: 22/05/2019]
"Esta bruma insensata", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 311 págs., ISBN: 978-84-322-3489-7

sábado, 14 de julho de 2018

mac y su contratiempo

Noutro dia falávamos, Marcio Renato dos Santos e eu, sobre Enrique Vila-Matas. Ele dizia que há leitores que o cultuam e há os que o detestam. Disse também que ele havia emprestado vários volumes de Vila-Matas para um jovem amigo que tinha ambição literária, mas que a abandonou (junto com os livros do Marcio, acontece). Já eu disse a ele que havia lido um livro de Vila-Matas ainda em dezembro e não sabia como registrá-lo aqui. Ainda acho que é o tipo de livro que nos encanta porém  também nos rechaça. Preferimos ficar com nossos entendimentos e incertezas mais que as compartilhar com os amigos ou demais leitores. Semana passada, lendo um conto de McEwan, que já registrei aqui, veio-me uma chave desse possível registro. Vila-Matas trata em "Mac y su contratiempo" da vaidade e da inveja, irmãs siamesas da literatura e dos escritores (esse era justamente o tema do conto de McEwan). Vila-Matas advoga também em seu livro que escrever ficção e inventar mundos é um método particular de loucura. Se para James Joyce seu leitor ideal era um insone que dedicasse toda sua vida a decifrar seus livros, para Enrique Vila-Matas o leitor ideal é um esquizofrênico, um sujeito incapaz de distinguir o quê é ou não real, um sujeito que seja capaz de entender um romance tanto ou mais que os narradores, tanto ou mais que o próprio autor. Parece sim ser esse o ensinamento que "Mac y su contratiempo" nos oferece. O leitor é apresentado a reconstrução de um  conjunto de contos (que são, na verdade, episódios ou fragmentos de histórias do próprio Enrique Vila-Matas publicadas no volume "Una casa para siempre", de 1988). Mac, um neófito barcelonês, senhor aposentado que aparentemente vive do dinheiro de sua mulher, Carmem, resolve reescrever um livro antigo e esquecido de um sujeito famoso de seu bairro, chamado Sánchez, um alter ego de Vila-Matas. Mac se metamorfoseia, deixa de ser apenas mais um louco de bar, aquele tipo de sujeito que gasta sua energia criativa e ideias bebendo em bares, e passa a ser o ativo escritor de um diário que se tornará uma nova versão de um livro já publicado, ou seja, se tornará um plagiador, um falsário, mas continuará anônimo. O livro é dividido em capitulos curtos, numerados, superpostos a dois tipos de inserções, denominadas "Puthoroscopo" e "&", esse último o registro dos sonhos amalucados do narrador, Mac, aquele registros ainda mais amalucados, onde se emula um método de Beckett para entender textos alheios (se é que entendi bem "Whoroscope" é o nome do primeiro livro de poemas de Beckett). Os personagens do livro frequentam os bares do Raval e parecem procurar um autor a disposição de fixá-los em uma ficção. Acompanhamos o transe quase tóxico da vida de Mac e dos demais personagens que, afinal, brotaram de um outro livro, aquele de Vila-Matas de 1988. Na primeira metade do livro o narrador resume o que entendeu de "Una casa para siempre" para a seguir reescrever essas histórias como se fossem suas. Ao final Mac parece esgotado, sonhador, viajando (apenas em sua mente talvez), saindo da mesa de seu bar, saindo de seu bairro, do Raval, e vendo-se em Lisboa, Marrocos, Túnez, oriente médio, como se fosse por fim um personagem dos contos das mil e uma noites. Acostumado ao vórtice de citações de Vila-Matas comecei de brincadeira a anotar os nomes que surgiam, como escolhos num rio. Parei na página 50 (das 300 do livro) quando já listava 25: de Barthes a Bowie, de Zambra a Gogol, de Duchamp a Benjamim, de Kubrick a Cervantes, de Diderot a Mallarmé, de Schweblin a Foster Wallace, de Dinensen a Hemingway, de Walser a Nietzsche, dentre outros tantos. É fácil se afogar no mar de referências cruzadas com que Vila-Matas povoa seus livros. Mas, afinal, do que se trata "Mac y su contratiempo"? Da vaidade? Do abismo que é a folha em branco? Do comprometimento que um sujeito tem que ter com sua vida antes de ter com seus projetos literários? Vai saber! Segue o baile. Vale!
Registro #1289 (romance #340) 
[início: 25/11/2017 - fim: 09/12/2018]
"Mac y su contratiempo", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2017), brochura 13,5x23 cm., 303 págs., ISBN: 978-84-322-2988-6

sábado, 1 de novembro de 2014

el traje de los domingos

São oitenta e dois textos, publicados originalmente em jornais e revistas, entre 1992 e 1995. Apesar desses vinte anos lê-se cada um deles com bastante proveito, pois os ensaios e reflexões literárias de Enrique Vila-Matas são realmente mais robustas que resenhas ligeiras ou meras críticas de encomenda - estou seguro que ele só escreve sobre o que realmente gosta. O ritmo das narrativas é o mesmo que se encontra em dois outros livros dele que já li: "El viajero más lento" (onde ele reuniu toda sua produção ensaística anterior a 1992) e "El viento ligero en Parma" (com textos do início dos anos 2000). Os ensaios que são posteriores a "El traje de los domingos" e anteriores a "El viento ligero en Parma" estão reunidos em "Desde la ciudad nerviosa" (mas esse eu não li ainda). A curiosidade de Vila-Matas parece infinita, ele fala do poder (e da necessidade) da crítica, de suas viagens para participar de encontros literários e reencontrar amigos escritores, dá pistas sobre a gênese de sua ficção. Alguns autores são recorrentemente citados: Gombrowicz, Kafka, Rossell, Benet, Tabuchi, Monterroso, Pessoa, Nabokov, como se formassem um panteão de influências reconhecidas. Há muito humor nas histórias, mas um humor que abre caminho para reflexões sérias, bem argumentadas. Em um artigo ele compartilha a surpresa de ser sempre convidado para emitir opiniões sobre qualquer assunto mundano (política, costumes, economia, cultura) porém muito raramente sobre seu ofício, a literatura e a obra de outros autores. Noutro ele conta divertido como perdeu uma recepção com os reis de Espanha por chegar cedo demais ao palácio e perder-se em uma conversa num bar. Sua descrição de como foi confundido em Paris com o terrorista venezuelano Carlos, o chacal (um dos mais procurados dos anos 1970 e 1980) é hilária (em nossos dias mais tensos ele teria sido morto por engano ao invés de ser apenas imobilizado e preso até ser reconhecido como de fato um escritor catalão expatriado). Além dos 82 ensaios também estão incluídos seis prefácios de livros, textos onde Vila-Matas apresenta livros de Louis-Ferdinand Céine, Robert Louis Stevenson, Antón Castro, Barbey D'Aurevilly, Pedro Domene e Soledad Puértolas. É fato, sempre se lê Vila-Matas com alegria. 
[início: 17/10/2014 - fim: 30/10/2014]
"El traje de los domingos", Enrique Vila-Matas, Madrid: Huerga y Fierro editores (La rama dorada), 2a. edição (2006), brochura 14,5x22,5 cm., 319 págs., ISBN: 84-88564-48-1 [edição original: (Madrid: Huerga y Fierro) 1995]

segunda-feira, 26 de maio de 2014

niña

"Niña", de Enrique Vila-Matas, faz parte de uma coleção de textos da editora Alfaguara dedicada ao público infantil. Nela só encontramos o ouro fino da literatura em español: Mario Vargas Llosa, Eduardo Mendoza, Almudema Grandes, Arturo Pérer-Reverte (que é o coordenador editorial da coleção) e Javier Marías - cuja contribuição, "ven a buscarme", já resenhei aqui. "Niña" conta a história de uma menina de cinco anos que começa a se alfabetizar, que inicia sua jornada no mundo mágico das letras, das palavras e dos livros. A menina se assusta com as primeiras dificuldades de aprender a ler e se surpreende quando descobre que apenas vinte e sete letras podem ser combinadas para produzir quaisquer palavras e idéias. As ilustrações são realmente muito boas, assinadas por Anuska Allepuz, uma jovem artista plástica madrileña atualmente radicada em Londres. Procurarei os outros livros desta coleção, seguro que sim.
[ínicio - fim: 23/05/2014] 
"Niña: Mi primer Enrique Vila-Matas", Enrique Vila-Matas, ilustrações de Anuska Allepuz, Madrid: Alfaguara Infantil (Santillana Ediciones Generales / Grupo Prisa), 1a. edição (2013), capa-dura 25x23 cm., 33 págs., ISBN: 978-84-204-1400-3

quinta-feira, 17 de abril de 2014

fuera de aquí

"Fuera de aquí" é o livro perfeito para aqueles leitores que precisam de ajuda para decifrar cada um dos livros de Enrique Vila-Matas, ou seja, para todos os leitores possíveis e imagináveis de Vila-Matas. Claro, qualquer leitor pode inferir o que quiser de cada leitura que faz, de qualquer livro que lê, mas é bom por vezes ter um guia ou mapa de intenções de um autor para comparar seus projetos literários com as impressões que alcançamos após ler seus livros. O website mantido por ele (www. enriquevilamatas. com) é sempre fundamental para esclarecer um ponto enigmático ou outro de seus livros, mas as entrevistas reunidas neste livro também têm seu valor. André Gabastou, o tradutor de Vila-Matas na França, conduz as entrevistas cronologicamente, percorrendo cada livro publicado e cada experiência memorável e/ou transcendental de seu entrevistado. Os elementos paratextuais do livro fazem a festa do leitor. Encontramos trechos grandes de cada uma das histórias de Vila-Matas publicadas (à exceção de seu último "Kassel no invita a la lógica"). Há também muitas reproduções fotográficas, de pessoas, capas de livro, paisagens e de artes plásticas, distribuídas nas laterais do texto, que acompanham o que está sendo discutido e/ou citado nas entrevistas. Por fim encontramos uma bibliografia e um índice onomástico. Além desse material todo encontramos sete textos inéditos de Vila-Matas no livro. Nesses textos ele discute objetivamente questões formais sobre seu projeto literário, esclarece o leitor sobre a recorrente hibridização de seus textos (que tem sempre componentes inventivas, ficcionais, mescladas a ensaios e a crítica), explica seu conceito de intertextualidade e seu emprego de metaliteratura, ironiza sobre a necessidade de um texto ser absolutamente verdadeiro (ou falso). Vila-Matas sempre é generoso com os amigos, cita repetidas vezes o quanto sua vida social, as conversas com seus amigos e colegas escritores o sensibilizam para temas que depois serão explorados em sua produção literária. Ao mesmo tempo não se cansa de vergastar a crítica literária (e o cenário cultural como um todo) da Espanha. O livro termina com uma "Autobiografia literária", onde cada livro recebe dele mesmo um pequeno resumo que parece responder àquela definição de Vladimir Nabokov: "A melhor parte da biografia de um escritor não é a crônica de suas aventuras, mas sim a história de seu estilo". "Fuera de aquí" certamente conta uma boa história do estilo de Vila-Matas. Em tempo: Se há um sujeito que vai gostar de ler esse livro é o Kelvin Falcão Klein (bom divertimento meu caro).
[início: 25/02/2014 - fim: 14/04/2014]
"Fuera de aquí: Conversasiones con André Gabastou", Enrique Vila-Matas, André Gabastou, Barcelona: Galaxia Gutenberg / Circulo de Lectores, 1a. edição (2013), capa-dura 16x24 cm., 265 págs., ISBN: 978-84-15863-04-5

terça-feira, 8 de abril de 2014

kassel no invita a la lógica

Aos livros de Enrique Vila-Matas sempre dedico uma atenção desconfiada (que é derivada de uma frase de Churchill: "Russia is a riddle, wrapped in a mystery, inside an enigma; but perhaps there is a key". A charada e o mistério e o enigma mais recente de Vila-Matas: "Kassel no invita a la lógica", foi publicado no início deste ano. Trata-se de um romance, uma narrativa ficcional, mas também é um relato de uma experiência e ainda um ensaio sobre arte contemporânea (ou talvez uma outra cousa qualquer que eu, ai de mim, não entendi completamente). Ele foi convidado a participar da Documenta 13 (de Kassel), uma das mais respeitadas exposições de arte moderna e contemporânea. A proposta da diretora artística e da curadora daquela edição (respectivamente Carolyn Christov-Bakargiev e Chus Martínez) era que diversos escritores se instalassem sucessivamente em um restaurante chinês nos arredores de  Kassel durante a Documenta e se dedicassem a escrever em público (além de Vila Matas fizeram parte deste projeto os escritores Etel Adnan, Aaron Peck, Mario Bellatin, Adania Shibli, Holly Pester, Marie Darrieussecq e Alejandro Zambra). Vila-Matas, confessadamente neófito em artes plásticas, aceita o inusitado convite e no verão europeu de 2012, na última semana da exposição, experimenta uma espécie de imersão estética no mundo da arte contemporânea de vanguarda. Sua ambição foi a de utilizar essa experiência com artes plásticas para verificar como sua produção literária poderia "localizar e efetuar uma reanimação dos elementos mágicos e humanos" nestes tempos sombrios e estúpidos em que vivemos. Segundo ele "Kassel no invita a la lógica" é um convite otimista aos leitores para que encontrem alegria na vida e na arte. Se é que eu entendi bem (não da proposta, que pode ser encontrada em suas entrevistas publicadas em jornais ou em seu sempre ótimo website), mas do que eu entendi do resultado dessa proposta, seu livro "Kassel no invita a la lógica" é uma tentativa de discutir com o leitor os dias que correm, uma tentativa de definir o que de fato pode ser considerado contemporâneo, importante, válido, relevante (ou antes, como um homo sapiens sapiens nos dias que correm pode viver e refletir plenamente seu tempo, não apenas reproduzindo idéias e chavões de terceiros, verdadeiros escravos mentais que somos quase todos). Terminamos o livro e entendemos que ao menos ele, entusiasmou-se tanto com a Documenta 13, incorporou em si tanto do que viu nas instalações expostas lá, que viu-se novamente como em seus anos iniciais de artista, como escritor; recuperou de alguma forma o que ele considerou sempre sagrado, seu pertencimento ao vanguardismo total (ou seja, se é que entendi bem, ele testou até que ponto sua arte, sua ficção literária, após quarenta anos de prática, de fato poderia ser considerada de vanguarda). O resultado é interessante, mas não arrebatador. Talvez, assim como nas jornadas místicas, experiências deste tipo não possam de fato serem compartilhadas; talvez a única coisa realmente válida seja o convite para que antes de criticarmos indolentemente a arte contemporânea (ou a defendermos bovinamente) cada um de nós devesse utilizá-la como um antídoto contra a estupidez reinante, cada um de nós fizesse uso dela como uma forma de entendermos melhor nossa própria vida, entendermos melhor a geografia, a política, a cultura e a história do lugar onde vivemos. Nas palavras de Chuz Martínez, transcritas no livro: "... a arte não é nem uma questão estética nem uma questão de gosto, mas de conhecimento." Louvo o otimismo de Vila-Matas, mas acho que continuarei algo cético com o poder da arte - e de resto da ciência, da educação e de qualquer outra forma de conhecimento - ,ao menos neste lugar triste e desgraçado que chamamos de Brasil. Talvez seja o caso de incluir aqui uns links: (i) a lista completa dos artistas que participaram da Documenta 13; (ii) um tour fotográfico com as obras lá exibidas; (iii) a lista com os livros/cadernos de leitura produzidos por 100 artistas/escritores durante o evento; (iv) a página eletrônica de Vila-Matas dedicada a esse livro; (v) a página eletrônica da próxima Documenta, que acontecerá no verão europeu de 2017. Já me escalei mentalmente para lá estar em 2017, mas haverá em 2017 um Brasil de onde poderemos sair para visitar uma exposição de arte contemporânea desse porte? Haverá em 2017 um país chamado Brasil? Haverá alguma vida inteligente (e arte) em 2017? Logo veremos.
[início: 30/03/2014 - 05/04/2014]
"Kassel no invita a la lógica", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 300 págs., ISBN: 978-84-322-2113-2

segunda-feira, 24 de março de 2014

el viento ligero en parma

Publicado originalmente em 2004, em "El viento ligero em Parma" estão reunidos 30 artigos e/ou ensaios literários de Enrique Vila-Matas. A maioria são bastante curtos (3 ou 4 laudas), mas há ao menos dois textos relativamente longos. Os artigos pertencem a três categorias: biografias literárias ligeiras (de Grombrowicz, Bolaño, Stendhal, Ionesco, Sterne, Barthes, Walser, Conrad, Beckett, Coetzee, Pitol, Nabokov), reflexões sobre experiências literárias e viagens (que parecem ser antes memórias inventadas, algo muito típico de Vila-Matas, sempre um ilusionista) e a transcrição de discursos e/ou conferências proferidas quando do recebimento de prêmios (por exemplo, "Discurso de Caracas" é relativo ao premio Rómulo Gallegos). Os textos falam sobretudo de particularidades de sua obra de ficção, seus livros; fazem um registro de suas atividades, projetos, idéias, viagens. Várias vezes ele explicita críticas à cena literária espanhola (sobretudo a mediocridade da crítica literária praticada lá). Noutras ele dá pistas sobre sua prática, seu método de escrever, sempre sobrepondo ao planejamento e disciplina as repetições e os desvios erráticos, intuitivos. Enrique Vila-Matas sempre é pretensioso (como quando diz que seus artigos tentam "fundamentalmente cargar de sentido al absurdo y considerar que lo esencial de la realidad se encuentra en los libros"). Ele mantém a página eletrônica mais organizada que já vi um autor de ficção manter. Ele é mesmo muito reflexivo sobre sua produção literária e parece querer compilar todas as fontes, blogs, resenhas e citações que brotam a partir da publicação de seus livros. Trata-se de uma coisa boa, mas de certa forma sua organização denuncia um tanto o que há de artificial em suas invenções, como se ele retirasse dos textos originais alguma parte de seu poder. Já li vários livros dele, mas o último, descobri agora, foi há mais de um ano. É difícil ler muita coisa nesta vida, mesmo dos autores que nos são caros. Que cousa.
[início: 18/03/2014 - fim: 22/03/2014]
"El viento ligero em Parma", Enrique Vila-Matas, Madrid: Editorial Sexto Piso España, 1a. edição (2008), brochura 15,5x23 cm., 215 págs., ISBN: 978-84-935204-5-8 [edição original: México: Editorial Sexto Piso, 2004]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

aire de dylan

Em "Aire de Dylan" Enrique Vila-Matas conta uma história especialmente cara a todos que já vagaram com calma pelas ruas simétricas do Eixample, em Barcelona. Boa parte do que é narrado no livro acontece pelos carrers e nas pequenas lojas, cafés, hotéis, livrarias, bares e restaurantes daquele bairro. O leitor encontra nestas páginas até a Filmoteca de la Generalitat, que fica na Avinguda Sarriá, um lugar maravilhoso. "Aire de Dylan" funciona como uma espécie de volta à Ítaca, ou seja, uma volta racional para casa (para o bairro barcelonês), após os sucessos nos labirintos de Dublin em seu livro anterior, o divertido "Dublinesca", no qual um editor, Samuel Riba, organiza um funeral para a "Era de Gutenberg". O narrador de "Aire de Dylan" não é nominado e em muito pode ser obviamente identificado com o Vila-Matas real, se é que isto ajuda em alguma coisa (afinal, de que adianta seu personagem estar em São Paulo nas mesmas datas que Vila-Matas visitou-a?). Após uma longa carreira literária ele decide não mais escrever livros. Decide isso logo após ser convidado para participar de um congresso literário sobre o fracasso (o início de todos os livros dele que já li sempre são absurdamente inventivos e mesmo as coisas mais amalucadas acabam funcionando). Lá ele conhece um jovem compatriota seu (dono de um improvável nome, Vilnius) que apresenta um relato sobre o fracasso no lugar de seu pai, um escritor barcelonês morto recentemente, que havia sido convidado para o congresso. O inusitado relato biográfico de Vilnius aproxima-o do veterano escritor/narrador. A partir daí Vila-Matas alterna sketches dramáticos, onde Vilnius continua a descrever o tenso relacionamento que mantinha com seu pai, com as reflexões do narrador sobre o comportamento de seu jovem amigo. Há um paralelismo óbvio com o Hamlet de Shakespeare, principalmente na dificuldade de Vilnus em tomar uma decisão quando fica sabendo que a morte de seu pai não foi acidental. Ao mesmo tempo o livro descreve com sarcasmo como editores, escritores e leitores compartilham versões de um projeto editorial. Vila-Matas parece apresentar ao leitor um contraste entre o poder de síntese narrativa de um velho escritor e o uso algo artificial de técnicas metalinguísticas na construção das histórias do jovem. Enquanto um parece cansado e entediado das repetições do mundo literário (mas não obstante continua a escrever, prova é o livro que o leitor tem nas mãos), o outro se recusa a agir, a produzir ele mesmo um relato biográfico válido das aventuras de seu pai (apenas as narra, em seus blocos teatrais, delegando a tarefa de grafar ao velho narrador). Enquanto um personagem é disciplinado (e escreve o livro que lemos) o outro opta voluntariamente por deixar o tempo passar (Vila-Matas afirma que pessoas assim são discípulos de Oblomov, um personagem do escritor russo Ivan Goncharov). A ironia de Vila-Matas é mesmo poderosa. Ele parece alertar o leitor para a facilidade aparente que um texto pode ter (coisa muito corrente nestes dias, onde os manuais de lixeratura e cursos rápidos de escrita criativa dão a entender que qualquer sujeito pode se transformar em um escritor num passe de mágica). Há muito mais referentes neste livro: a obsessão cinematográfica de Vilnius com um filme obscuro cujo roteirista foi Scott Fitzgerald; o flerte de Vila-Matas com a literatura policial descompromissada, como nos romances de Agatha Christie; a vida como sonho - como aquele imaginado por Calderón de la Barca; as delícias do dolce far niente invocados por uma música de um filme de 007 (o satânico Dr. No); um fim de mundo antecipado por Bob Dylan durante o festival de Newport; a versão de james Joyce para o dilema de Hamlet; uma eventual inspiração em um livro de Nabokov (aprendi isso no bom blog El lamento de Portnoy). Quem gosta dos jogos metaliterários de Vila-Matas se diverte um bocado. Por fim, dentre os livros de Vila-Matas que já li, este é dos que mais me agradou. [início 28/03/2012 - fim 10/04/2012] 

"Aire de Dylan", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral (Biblioteca Breve), 1a. edição (2012), brochura 13,5x23 cm, 327 págs. ISBN: 978-84-322-0964-2

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ella era hemingway. no soy auster.

São duas argumentações, duas idéias, bem curtas e auto-referentes, que Enrique Vila-Matas decidiu por alguma razão publicar na forma de uma pequena plaquete (chamar de livro seria um abuso, claro) e não incluir em uma coletânia de ensaios e crônicas. Na primeira, "Ella era Hemingway", o narrador - do que pode ser um curto ensaio, uma crônica ou um conto - descreve seu assombro com sua própria incapacidade de entender um conto de Hemingway (e entender, sobretudo, porque este afirmava ser "Cat in the rain" o melhor conto já escrito). Na segunda argumentação, "No soy Auster", o narrador (que talvez seja o Vila-Matas real) fala sobre o que o aproxima e o que o distingue de Paul Auster, escritor americano que certamente o Vila-Matas real admira (há um vídeo muito bom no YouTube onde ambos são entrevistados, onde aprendemos que ambos compartilham muitas obsessões e vivências). Não há o que acrescentar. As duas histórias apresentam ao leitor como Vila-Matas opera: tudo pode ser ficcionalizado, tudo pode alcançar ter valor literário, tudo pode ser discutido e argumentado. Vamos em frente. [início/fim: 06/12/2011]
"Ella era Hemingway. No soy Auster", Enrique Vila-Matas, Barcelona: ediciones Alfabia, 3a. edição (2011), brochura 10x14 cm, 32 págs. ISBN: 978-84-612-4973-2 [edição original: Alfabia (Barcelona) 2008]

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

perder teorías

Esse pequeno livro nasceu da mesma idéia que criou "Dublinesca", mas tem um outro fôlego, outra abordagem, outra proposta. Em "Dublinesca" acompanhamos os sucessos de um editor em crise, Samuel Riba, que reflete sobre o fim do mundo dos livros como conhecemos e organiza uma espécie de funeral da "era de Gutenberg", escolhendo o Bloomsday (a gloriosa festa literária dedicada ao Ulysses de James Joyce), na brumosa Dublín, para marcar o réquíem dos livros e da literatura. É um romance muito irônico e muito divertido, onde tanto os leitores contumazes de Joyce, quanto os entusiastas da prosa rascante de Vila-Matas, encontram genuíno prazer. "Perder Teorías" funciona como uma espécie de adestramento à ele. O narrador deve ser o mesmo Samuel Riba (inominado, claro), mas se nos breves capítulos de "Perder teorías" ele engendra a idéia de escrever uma teoria sistematizada do romance moderno (para logo abandoná-la, renegá-la, antecipando sua futilidade e inoperância), será em "Dublinesca" que ela é posta em prática, tranformando-se em um romance. Vila-Matas inclui um prólogo laudatório e cifrado, assinado por Liz Themerson, uma pretensa hispanista americana. Mas se é que eu entendi bem esse prólogo deve ser mais uma daquelas "trampas" vila-matianas, engendradas para confundir e brincar com o leitor, pois não existe uma Liz Themerson real. "Perder teorías" funciona como um apêndice do que se discute em "Dublinesca" e como um exercício estilístico do que encontramos sempre nos livros de Vila-Matas. Divertido, mas nada transcendental. Vamos em frente. [início 04/11/2011 - fim 14/11/2011]
"Perder teorías", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editora Seix Barral (coleção Únicos), 1a. edição (2010), capa-dura 12x19 cm, 80 págs. ISBN: 978-84-322-4324-0

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

el viajero más lento

A edição original de "El viajero más lento" é de 1992. Quase vinte anos depois Enrique Vila-Matas o republica em uma edição muito bem cuidada da Seix Barral. O curioso da globalização é ter em mãos um livro que tem como data final, incluída no novo epílogo, o início de maio desse 2011. Das gráficas de Barcelona a Santa Maria quase sem escalas (devo incluir nesta conta, talvez por se tratar mesmo de "El viajero más lento", o bom par de meses que o livro descansou em minha biblioteca). São trinta e cinco textos, se incluirmos o prólogo e os dois novos epílogos (preparados especialmente para essa reedição). Os textos originais, publicados em jornais e revistas antes que em livro, pertencem a um período longo de tempo, o mais antigo de 1968, boa parte deles, do final dos anos 1980. São ensaios literários, reflexões sobre literatura, autores. Não li nem metade de tudo o que Vila-Matas já publicou, mas nesse livro reconheço vários dos temas caros à ele: o jogo da citação literária, dos pastiches, o jogo das influências, das opiniões sobre a história da literatura contemporânea, o censo dos habitantes do mundo maravilhoso dos livros, a invenção amalucada de conexões entre temas aparentemente díspares. O próprio Vila-Matas apresenta cada um dos textos e indica ao leitor quais narrativas longas brotaram das idéias originais publicadas no livro. Ele fala também de seu método de invenção (se é que isso é possível) e da escolha de leituras e temas. Gostei muito de ler a entrevista com Marlon Brando que ele fingiu traduzir em 1980 (cabe lembrar que nele nenhuma informação pode ser trivialmente aceita como verdadeira). A entrevista (verdadeira?) com Salvador Dali também está incluída na compilação. A história do exílio de don Pio Baroja (El acero del dolor) é particularmente tocante. Nela encontramos a associação entre o ofício do escritor e o ato de cruzar fronteiras, uma coisa boa de se pensar. É um livro para se disfrutar, com calma e prazer, mas tendo em conta, como Vila-Matas mesmo diz: "Ya hace años que no soy nada amigo de las afirmaciones categóricas. Salbo que sean dichas en tono irónico." Sejamos irônicos pois. [início 24/10/2011 - fim 13/11/2011]
"El viajero más lento: El arte de no terminar nada", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editora Seix Barral, 1a. edição (2011), brochura 13,5x23 cm, 222 págs. ISBN: 978-84-322-0943-7 [edição original: Barcelona: Anagrama, 1992]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

hijos sin hijos

Esse pequeno livro de contos de Enrique Vila-Matas não é exatamente arrebatador. Claro, as histórias são inventivas, cheias de malabarismos mentais e funcionam como provocação intelectual e entreterimento rápido, mas não pertencem ao melhor que li dele até aqui. O que encontramos em "Hijos sin hijos" são treze contos amalucados. Dez deles são curtos, cinco curtíssimos e um relativamente longo. A maioria envolve o universo dos sonhos, das metamorfoses, das reflexões rápidas anotadas em uma espécie de diário. Por vezes os narradores das histórias, frente a perplexidade com a vida, flertam com perversões, amoralidades, logro e mentira. Noutras parecem se esforçar para esconder ou cifrar coisas, mas sem a enxurrada de citações  que tipicamente são utilizadas por Vila-Matas. Cada uma das histórias é localizada espacial e temporalmente, como se o autor pretendesse apresentar um painel da geografia e da história de seu país através de relatos que são cotidianos, personalizados, antes confissões. pessoais que digressões de terceiros. O padrão para se entender as histórias é oferecido pelo próprio autor (em sua generosa e completíssima webpage), quando afirma que os heróis dessas histórias são pessoas que ao decidirem não deixar descendência somente sobrevivem naquilo que produzem e dizem, naquilo que contam e registram. Não farei um censo das histórias aqui, mas gostei de uma em que após o marido perder o emprego sua mulher decide também ficar desempregada (Mandando todo al diablo); do thriller pseudo-religioso de La familia suspendida; do tom folhetinesco e labiríntico de El hijo del columpio; da história onde uma garota conta sucessos de amor e morte em uma relação incestuosa (Mirando al mar y otros temas); da história onde um garoto mudo aterroriza seus pais (Te manda saludos Dante). Haverá algum outro Vila-Matas por aqui em breve. [início 13/10/2011 - fim 23/10/2011]
"Hijos sin hijos", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (compactos), 2a. edição (2007), brochura 13,5x20,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-339-6687-2 [edição original: Barcelona (editorial Anagrama) 1993]

quinta-feira, 26 de maio de 2011

impostura

Esta curta novela de Enrique Vila-Matas é um tanto diferente das outras coisas que li dele. Trata-se de uma narrativa quase linear, que acompanhamos com interesse, mas sem as surpresas advindas daqueles malabarismos mentais que encontramos, por exemplo, no "La asesina ilustrada", "Una casa para siempre" ou "Paris no se acaba nunca". "Impostura" é de 1984, publicado imediatamente antes do "História abreviada da literatura portátil", outro de seus livros bem inventivos e que lhe grangeou respeito e admiração. Aparentemente a história é baseada em um caso real acontecido na Itália, ainda no inìcio do século passado. Na versão de Vila-Matas um sujeito desmemoriado, preso em um manicômio barcelonês, consegue se passar por um escritor desaparecido, sendo inclusive reconhecido pela sua, até então, viúva. Ele teria sido morto nas estepes russas, membro que era da fascista divisão azul do ditador Franco. Posteriormente uma outra mulher o identifica como um tipógrafo trambiqueiro, pai de seu filho. O tema do livro é portanto a questão do duplo, a busca pela verdadeira identidade pessoal de cada um de nós (que podemos sim nos tornar escravos das leituras que os outros fazem de nós). Além do sujeito desmemoriado há dois personagens curiosos no livro, o diretor do manicômio e seu secretário Barnaola, que funcionam como um divertido par Don Quixote e Sancho Panza. O poder do intelecto, exposto na capacidade do desmoriado de aprender completamente a vida do escritor dado por morto, chama a atenção. Acredito que este livro é como um Coronel Chabert às avessas, já que é o desmemoriado que domina as ações dos demais, o contrário do que acontece com o livro de Balzac. A loucura, como algo postiço e quase contagioso, também é discutida no livro. Divertido e realmente fácil de ler (isto é um tanto inusual na obra que conheço dele, repito). Antes de ler as coisas mais recentes de Vila-Matas que tenho nos meus guardados pretendo enfrentar as duas novelas anteriores à este "Impostura": "Al sur de los párpados" e "Nunca voy al cine". Vamos a ver. [início 19/05/2011 - fim 21/05/2011]
"Impostura", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (narrativas hispánicas 7), 3a. edição (2003), brochura 14x22 cm, 118 págs. ISBN: 84-339-1707-2 [edição original: Anagrama (Barcelona) 1984]

terça-feira, 15 de março de 2011

suicídios exemplares

Os livros de Enrique Vila-Matas são garantia de histórias disparatadas e provocações mentais. Ele parece sempre convidar o leitor a entrar em uma espécie de jogo, mas também dá a entender que ele - senhor de seus castelos de ficção - é mesmo um completo trapaceiro. "Suicídios exemplares" foi publicado originalmente em 1991, pouco depois de "Una casa para siempre" e antes de "Hijos sin hijos". São dez contos, enfeixados por um prólogo e um posfácio onde Vila-Matas apresenta e exemplifica seu projeto: proporcionar ao leitor momentos de reflexão sobre a idéia do suicídio (na verdade sobre a miríade de formas pelas quais se pode experimentar coisas parecidas com o suicídio: viver vidas sem sentido, mentir a si mesmo, perder-se por amor, escrever romances de ficção). Nas dez histórias estamos sempre perto do mar, somos apresentados a citações que podem ou não serem corretas, rimos sem pudor do bizarro e da morte. Em um dos contos uma garota faz uma viagem sentimental à cidade onde seu pai radicou-se e descobre que ele ali fundou uma seita de suicídas. Em um outro um sujeito esconde sua condição de estrangeiro em uma ilha por quarenta anos, período em que escreve em segredo romances potencialmente agressivos, denunciadores da vaidade e hipocrisia dos ilhéus. Numa história descreve como um ator deixa-se desgraçar lentamente quando percebe não ter talento algum. Em uma outra história acompanhamos um garoto que descobre o poder das palavras cruéis com as quais pode ferir simultaneamente detratores e colegas. Em todas as histórias há equilíbro entre sarcasmo e humor. Na mais divertida delas, "Pedem que eu diga quem eu sou", Vila-Matas inverte seu nome e torna-se um personagem satânico, terrível, que parece responder não a seu personagem interlocutor, mas a cada um dos eventuais leitores. Ele identifica o ofício de escritor com o de uma deidade poderosa, que cria e destrói sem motivação ou culpa. Ele parece dizer que a idéia e a lembrança do suicídio, ao se manifestar em qualquer escolha ou ato da vida (como amar, viajar, escrever, interagir, relembrar, inventar) é o que nos permite suportar as reiteradas desventuras que experimentamos. São contos realmente muito bons. [início 06/02/2011 - fim 01/03/2011]
"Suicídios exemplares", Enrique Vila-Matas, tradução de Carla Branco, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), brochura 15,5x22,5 cm, 208 págs. ISBN: 978-85-7503-796-6 [edição original: Suicidios ejemplares, Anagrama (Barcelona) 1991]

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

una casa para siempre

Encontramos neste "Una casa para siempre", como sempre nos livros de Enrique Vila-Matas, um território de invenções e meias verdades. Claro, podemos seguir o narrador e confiar em suas descrições, nos diálogos que ele grafa, mas logo começamos a nos perguntar se tudo não é falso, se não nos foi dada alguma chave errada para interpretar o enredo, a história. Há poucas doses de intertextualidade neste pequeno livro, publicado originalmente em 1988. Quer dizer, pouco comparado com o usual em Vila-Matas. É importante registrar isto pois nos outros livros dele que já li o que não falta são citações, paródias, pastiches e outras invenções, para não dizer mentiras pura e simplesmente, que ele inclui sem pudor. Tudo isso enriquece seus livros e cobra do leitor uma agilidade dos diabos. Aqui a busca por uma voz narrativa coerente se dá na própria história e não através de seus truques literários típicos. "Una casa para siempre" é um romance curto feito de fragmentos de uma história de vida, um romance feito com memórias fragmentárias e contraditórias de um sujeito. São doze os fragmentos. Uns curtos, breves, feitos apenas de causos que parecem não se conectar com a história principal. Outros são mais longos e se referem as tais memórias do sujeito, um ventríloquo (uma boa metáfora para aqueles que se dedicam ao ofício de escrever) que primeiro tem dificuldade de multiplicar suas vozes (o ideal seria ter vozes distintas para cada personagem que emula); depois alcança fama e fortuna no domínio de sua arte; até por fim encontrar uma única voz, a sua própria, em um país exótico, onde se torna uma espécie de contador de histórias, um aedo, um bardo. Uma das pistas falsas de Vila-Matas é nos entreter, como em um romance policial, com a possibilidade do ventríloco ter morto ou não o amante de sua mulher. Os conflitos típicos das jornadas de iniciação, das jornadas dos heróis, embora embaralhados como em um puzzle, estão no texto. Perturbador sim, mas essencialmente divertido afinal de contas. Haverá mais Vila-Matas por aqui. [início 15/01/2011 - fim 30/01/2011]
"Una casa para siempre", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (colección compactos), 2a. edição (2008), brochura 13,5x20,5 cm, 141 págs. ISBN: 978-84-339-6712-1 [edição original: Anagrama (narrativas hispánicas), 1988]

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

historia abreviada de la literatura portátil

Os romances de Vila-Matas são essencialmente divertidos e brincam com a vontade do leitor de sempre saber mais, de fazer conexões eruditas, de se deleitar intelectualmente. Não é um exercício exatamente fácil, mas depois que entramos em seu jogo nos divertimos à beça (os leitores vaidosos de sua inteligência e/ou modernidade hão de sentir-se mais gratificados do que aqueles que apenas querem um par de horas de um bom livro). No fundo o que ele nos ensina é que não podemos ter fé cega em tudo o que é escrito, em tudo que é publicado, pois a palavra foi mesmo inventada para esconder o pensamento. O recorte que ele faz no livro, sua "história da literatura", é algo híbrido: um ensaio literário, um manual literário e também uma carta de intenções como autor. Publicado originalmente em 1985 "Historia abreviada de la literatura portátil" foi o livro que lhe trouxe reconhecimento em grande escala, tanto entre os leitores quanto entre a crítica literária. Vila-Matas parte de textos reais de dadaístas, surrealistas e outros escritores dos mais variados estilos, das duas primeiras décadas do século XX, para construir/inventar uma improvável sociedade literária secreta (chamada Shandy, algo emprestado à Lawrence Sterne) que teria existido entre 1924 e 1927 (da qual fariam parte Scott Fitzgerald, Walter Benjamin, Marcel Duchamp, Valery Larbaud, Georgia O´Keefe, Man Ray, Francis Picabia, Aleister Crowley, Blaise Cendrars e muitos outros). O livro é movimentado, leva o leitor de uma cidade européia a outra, de um encontro amalucado entre escritores e intelectuais e outro. É de fato muito instigante. Tudo tem algo de verossímel, mas Vila-Matas deixa toda história em um mar de contradições, que não permitem ao leitor descobrir de imediato o que é factual e o que é invenção. De qualquer forma achei tudo mesmo bem escrito, encontramos nesta "Historia abreviada..." um festival de jogos mentais agradáveis de se ler. Descobri que Vila-Matas mantêm (ou alguém mantêm para ele), um blog inteiramente dedicado a experimentação iniciada com o livro (http://www.enriquevilamatas.com/obra/l_halp.html). Aparentemente este jogo metaliterário continua funcionando bem, mais de vinte e cinco anos após sua publicação inicial. Bueno. Este é o quarto ou quinto Vila-Matas que já li. Comecei com o penúltimo, Dublinesca, que fala de seu Bloomsday particular, mas li também "La asesina ilustrada", seu segundo livro e o movimentado "Paris no se acaba nunca", de 2003. Tenho um bocado de outros livros dele, que vou ler com vagar ao longo deste ano. Ainda vou fazer uma conexão entre ele e o poderoso Javier Marías. Há tempo. [início 01/01/2011 - fim 05/01/2011]
"Historia abrevida de la literatura portátil", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (colección compactos), 5a. edição (2009), brochura 13,5x20,5 cm, 125 págs. ISBN: 978-84-339-6648-3 [edição original: Anagrama (narrativas hispánicas), 1985]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

parís no se acaba nunca

"París no se acaba nunca" é um bom romance, mas não é fácil classificá-lo. O quê Enrique Vila-Matas nos apresenta mesmo? Uma divertida memória de seus anos em Paris, dos tempos em que escrevia sua primeira novela (na verdade segunda, la asesina ilustrada, mas esta é outra história); um ensaio descompromissado sobre o ofìcio de escrever, dos procedimentos técnicos da construção de um romance; um inventivo texto de ficção, onde acompanhamos as obsessões de um sujeito algo arrivista, dono de uma poderosa capacidade de imaginação? Talvez um tanto de cada uma destas coisas. Publicado originalmente em 2003 o livro descreve a París de meados dos anos 1970. Vila-Matas abusa de sua memória literária, recheando o livro com citações, causos, encontros com intelectuais e escritores, reflexões sobre literatura e arte. O livro é escrito como se fosse uma comunicação oral para uma conferência. É também uma homenagem e/ou paródia de Hemingway e seu livro póstumo "Paris é uma festa", publicado exatamente na época em que Vila-Matas vivia em Paris e tentava escrever seu livro. É um livro pequeno, que se deixa ler com prazer, dividido em curtos capítulos (são mais de 100), que podem ser lidos independentemente mas são conectados por uma grande idéia. Vila-Matas fala muito sobre literatura e estruturas narrativas, mas também sobre o mundo do cinema, da política, das teorias sobre a ironia e a mentira, do amor e amizade, da solidão, do auto-exílio. Para um sujeito que gosta de frases como eu o livro é que é uma festa. Sempre me surpreendo com a comunicação entre os livros: três semanas atrás achei por acaso "la asesina ilustrada", uma semana depois outro acaso e resolvo começar este "parís no se acaba nunca", que descreve exatamente a gênese do primeiro. Pura magia. Cousas dos livros. [início 09/11/2010 - fim 13/11/2010]
"París no se acaba nunca", Enrique Vila-Matas, editorial Anagrama (compactos), 3a. edição (2009), brochura 13,5x19,5 cm, 233 págs. ISBN: 978-84-339-7267-5

sábado, 6 de novembro de 2010

la asesina ilustrada

Pois achei este livro no primeiro dia desta última feira do livro de Porto Alegre. Como me pareceu divertido "Dublinesca", achei que um pouco da ironia e erudição de Vila-Matas vinha a calhar com meu humor daqueles dias. Foram mesmo bons dias de leitura. O livro foi publicado originalmente em 1977. Segundo o próprio Vila-Matas afirma em um prefácio "La asesina ilustrada" foi seu segundo livro. Para ele o primeiro, "Mujer en el espejo contemplando el paisaje", é obtuso e irrelevante demais para que mereça ser lembrado (os velhos autores sempre lamentam as tolices de suas jovens encarnações). A edição é muito bem cuidada, com ilustrações de um sujeito chamado Óscar Astromujoff e um curto epílogo de um crítico chamado Jordi Llovet, que descreve uma reflexão pública sobre o livro feita por ele mesmo a uma indignada audiência barcelonesa, trinta anos atrás. O enredo é circular. Acompanhamos como um texto, a curta novela "la asesina ilustrada", passa por várias mãos e sempre alcança o mesmo efeito: provocar a morte do leitor. Vila-Matas adverte no prefácio que o leitor que tem o livro em mãos não corre mesmo este risco. Só um tolo e jovem escritor poderia ter uma idéia deste tipo (nem tão original assim, lembra ele mesmo, já que até Agatha Christie já tinha usado este artifício antes), pois com isto não teria leitores, apenas uma pequena coleção de ex-leitores mortos. Em torno da história assassina (vamos chamar assim) ele inclui relatos de uma jovem escritora, contratada para escrever o prólogo da biografia de uns dos leitores anteriores do texto (e consequentemente, já falecido), além de cartas da autora da historia a outros personagens. É mesmo uma história curta, um curto romance de trama intrincada, mas que se permite deslindar sem grandes esforços. Bueno, acho que vou começar a garimpar mais livros deste curioso e sarcástico catalão. [início 28/10/2010 - fim 03/11/2010]
"La asesina ilustrada", Enrique Vila-Matas, ilustrações de Óscar Astromujoff, ediciones Lumen, 1a. edição (2005), capa-dura 14x21 cm, 137 págs. ISBN: 978-84-264-1517-2

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

la orden del finnegans

No Bloomsday de 2008 seis escritores espanhóis se reuniram em um pub dublinense, visitaram a "Martello Tower de Sandycove", participaram de parte dos festejos do dia e por fim fundaram uma ordem literária dedicada a cultuar o "Ulysses" de James Joyce. É o tipo de coisa que parece óbvia quando se lê, mas é necessário que alguém a faça antes de você para que sua necessidade se torne patente. Bueno, eles decidiram produzir um livro coletivo que marcasse a fundação, um livro que incluisse alguma invenção, crítica literária e relatos breves. Acredito que a idéia original deva ter sido de Enrique Vila-Matas, o mais velho e escritor mais reconhecido dos seis, muito embora Eduardo Lago pareça ser o sujeito familiarizado com o Bloomsday e o Ulysses há mais tempo. Cabe lembrar que Enrique Vila-Matas publicou "Dublinesca" no ano passado, um romance onde a gênese desta curiosa ordem literária também é contada, mas ali estamos falando de ficção e não de crônicas (já resenhei "Dublinesca" neste blog). Já neste pequeno livro cada um dos seis contribuiu com um texto curto, como forma de registrar os sucessos de suas experiências na fundação da tal "Ordem de Finnegans" (cujo lema é um "Qué grandes estamos esta mañana!", delicioso). Vila-Matas apresenta um ensaio de bom tamanho onde contrasta duas formas de narrativas literárias: as mais experimentais, como o Finnegans Wake de Joyce, para ele arte limite, em estado puro, e as mais sintéticas, no sentido em que alcançam uma excelência discursiva, tornando-se fáceis de serem lidas, apesar de serem difíceis de serem escritas, forma exemplificada por um livro de Simenon (Monsieur Hire). Lago apresenta o texto mais radical, um sketch dramático, uma farsa bastante movimentada, onde vários personagens discutem o Finnegans Wake em um legítimo pub irlandês, repleto de citações eruditas bastante divertidas. Jordi Soler brinca com um personagem mitológico irlandês, em uma narrativa bastante pessoal. Antonio Soler, Malcolm Otero e José Vela também escolheram esta via: fazem curtos relatos de suas experiências prévias com o Bloomsday. No conjunto os textos fazem do livro uma obra irregular, pois há muita trucagem, passagens que são cifradas em excesso, que marcam o processo pelo qual a obra de Joyce foi recebida por cada um deles, sem que de fato o leitor possa acompanhar esta trajetória. No texto de Lago há uma passagem que fala de Joseph Campbell que está obviamente errada (as datas não fecham, um problema quando se repete uma piada literária sem checar as fontes). Em ao menos três oportunidades eles citam as traduções espanholas do Ulysses confundindo o primeiro tradutor para o espanhol (o argentino Salas Subirat) com o primeiro editor (o também argentino Santiago Rueda). O programa e o compromisso da ordem de Finnegans me parece irrealizável, pois cada um deles se compromete em participar de todos os Bloomsday futuros em Dublin, mas é de obsessões como esta de que é feita a mítica de Joyce (ele não esperaria compromisso menor). A capa inclui a mesma fotografia que usei neste ano para o cartaz do nosso Bloomsday santa-mariense. Bela coincidência. Talvez nosotros cá de Santa Maria deveríamos ter oficializado algo deste tipo antes, mas agora temos neste "La orden del Finnegans" um bom roteiro, um bom ponto de partida. Ainda é tempo. [início 23/07/2010 - fim 23/09/2010]
"La orden del Finnegans", Antonio Soler, Jordi Soler, Eduardo Lago, Enrique Vila-Matas, José Antonio Garriga Vela, Malcolm Otero, Ediciones Alfabia, 1a. edição (2010), brochura 13x20 cm, 142 págs. ISBN: 978-84-937348-9-3

segunda-feira, 14 de junho de 2010

dublinesca

Soube de "Dublinesca" na revista "Qué Leer", a melhor referência que conheço sobre o mercado de livros publicados na Espanha (um dos maiores mercados editoriais do mundo, nunca é demais lembrar). Quando soube que o livro gravitava em torno de um Bloomsday fiquei entusiasmado e encomendei-o no mesmo dia. O livro chegou rápido e interrompi, claro, tudo o que já havia começado. Li segurando o ritmo, único jeito de aproveitar um tanto mais o bom humor, as boas idéias e o bom texto de Enrique Vila-Matas. Que livro divertido! Um editor quase falido mais que quase aposentado, de seus sessenta anos, deprimido, preso em uma rotina de compromissos e aparências tem uma espécie de epifania. Ele pensa em viajar a Dublin (nas suas palavras terra literária por excelência, cidade que James Joyce retratou no romance-síntese Ulysses e que representaria o melhor que a literatura pode alcançar) para organizar uma espécie de funeral da "era de Gutenberg", réquiem do mundo do livro como conhecemos. Para ele os livros impressos serão definitamente substituídos pelos digitais. O leitor de livros impressos, já vulgarizado pela tirania dos best-sellers e livros de auto-ajuda, será substituído pelo leitor raso e veloz do google e do wikipedia, quedará prisioneiro do vasto depósito de informações e estímulos que nos oferece a internet. O futuro do livro é uma ilusão. Com este mote Vila-Matas constrói um romance que é movimentado, instigante, provocador e que deixa o leitor refletir por si próprio. Há muito material metalinguístico, intertextual, muitas citações eruditas, longos aportes de reflexões sobre pintura, cinema e literatura, muito da cultura pop também, enfim, muitos truques literários mais ou menos conhecidos, mas nada disto torna o texto maçante ou convencional de ler. O editor, Samuel Riba, como o Leopold Bloom do Ulysses, algo judeu e deslocado em seu ambiente catalão, consegue convencer um pequeno bando de amigos a acompanhá-lo em sua peregrinação à Dublin. Estes fiéis pouco sabem das outras obsessões que acompanham o projeto de Riba: o fato dele nunca ter encontrado um escritor genial que pudesse editar; a própria idéia do funeral do livro impresso; de saber se é New York ou Dublin a capital da solidão da velha literatura; do processo de purgar sua ruína como homem das letras. Mas Riba convence estes três amigos escritores a acompanhá-lo. Chegando a Dublin eles reproduzem parte das andanças de Bloom, principalmente aquelas relacionadas ao capítulo seis do Ulysses, onde o personagem atende ao funeral de Paddy Dignam acompanhado também por três sujeitos. Também como Bloom, Riba, antigo bebedor, agora abstêmio, não participa de todas as aventuras literárias e etílicas relacionadas ao Bloomsday. A este grupo fundador outros personagem se juntam, cada um à seu modo correspondente a um dos personagens do romance de Joyce. São passagem memoráveis, tanto pela invenção, quanto pela capacidade de iluminar as passagens originais do livro. Há coisas curiosas no livro que de início incomodam, estranham o leitor familiarizado com o Ulysses, mas que mais tarde se resolvem muito bem. Por exemplo, chove à beça na Barcelona, mas só quando chegamos a cinzenta mas quase primaveril Dublin, entendemos que tudo pode ser fruto da imaginação de um fantasma, de alguém que está já ao caminho do Hades sombrio e que divaga com sua história e seus projetos (quase todos baldados). "Dublinesca" é um livro que permite muitas leituras, que localiza um fim para a alta literatura, mas que aponta para caminhos que os demais escritores (e os demais leitores) possam trilhar. O livro, tripartido, chega a um final que a exemplo do Finnegans Wake, também de Joyce, permite um recomeço, cíclico como Vico já nos ensinou. A boa literatura sempre sobrevive. Por fim, curiosamente soube que de fato Vila-Matas participou de seu primeiro Bloomsday em 2008 com três amigos espanhóis e que lá fundou uma ordem literária, "El ordem del Finnegans", cujos cavaleiros se comprometem a atender todos os Bloomsday futuros com disciplina e vigor. Que grande sacada. Será que este projeto só sobreviverá enquanto for necessário promover "Dublinesca"? Logo veremos... . [início 01/06/2010 - fim 04/06/2010]
"Dublinesca", Enrique Vila-Matas, editora Seix-Barral, 1a. edição (2010), brochura 13,5x23 cm, 328 págs. ISBN: 978-84-322-1278-9