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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

línea de fuego

A Guerra Civil Espanhola durou pouco menos de três anos (de 17/7/1936 a 01/04/1939). Morreram nela aproximadamente 500 mil pessoas (há quem diga que foram apenas 150 mil e há outros que afirmam que o número de mortes alcançou 1 milhão). De qualquer forma foi uma das guerras mais sangrentas do século XX, período não exatamente conhecido por valores humanistas e pacíficos. O custo social foi enorme. A ditadura franquista vencedora, que ficaria no poder por 36 anos, até meados dos anos 1970, ainda provocaria muitas mortes e o exílio de milhares de espanhóis. Arturo Pérez-Reverte, prolífico autor de trinta romances e de vários volumes de crônicas, lançou recentemente um “relato” (em suas palavras) sobre a Guerra Civil dos espanhóis. Suas motivaçôes são explicadas por ele mesmo nesta boa entrevista: Librotea El país. Sua proposta é narrar uma história de ficção, ou seja, não se trata de história, de análise política ou de sociologia. Ele situa esse seu relato em uma das batalhas mais famosas da Guerra Civil, a batalha do Ebro. A batalha real aconteceu entre 25/7/1938 a 16/11/1938 (pouco menos de quatro meses). Morreram nela aproximadamente 80 mil pessoas, em uma região de aproximadamente 800 Km². No recorte ficcional de Pérez-Reverte os sucessos acontecem em uma cidade imaginária que ele chama de Castellets del Segre, na qual, em seus 35 Km² e nos primeiros dez primeiros do conflito, morrem 3.000 pessoas. Ele povoa o romance/relato com personagens icônicos do mosaico de participantes da conflagração real: comunistas, socialistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas, brigadistas internacionais, nacionalistas, legionários, monarquistas, carlistas, fascistas, nazistas, falangistas. O tom não é pedagógico, mas percebe-se que Pérez-Reverte quer oferecer ao leitor a experiência da complexidade da Guerra Civil, que não pode ser resumida em platitudes como “a luta em defesa da civilização cristã contra a barbárie comunista” (dos que se afeiçoam com o discurso nacionalista de Franco, que vencerá o conflito) ou “a luta do bem contra o mal” (na igualmente vazia retórica dos republicanos, o grupo derrotado). De qualquer forma, Pérez-Reverte lamenta, em suas entrevistas, o uso "bastardo", político ou ideológico da Guerra Civil que domina os discursos contemporâneos, eclipsando o lado humano, a realidade da dor e horror, pois aqueles que participaram diretamente já estão hoje, quase todos, mortos. Não me atrevo aqui a fazer uma sinopse das quase 700 páginas do volume. É um livro fácil de ler, pois somos rapidamente capturados pela boa prosa de Pérez-Reverte. Distribuídos em três partes (e em dezenove capítulos e um epílogo), o autor alterna cenas dos dois grupos em guerra. Algumas destas cenas permitem a ele fazer alguma filosofia sobre as motivações de cada um dos envolvidos; outros distendem a tensão e o acúmulo de mortes com tiradas cômicas e jocosas; outros ainda oferecem oportunidade para discussões sobre questões de estratégia, de táticas ou para descrever os armamentos utilizados e a indumentária (nem todos usavam uniformes nesta guerra). Há também personagens femininos e uma criança, personagens que permitem discussão sobre o especial papel das mulheres e dos jovens nas guerras e sobre o impacto da carnificina neles. Pérez-Reverte trabalha muito bem os modos de falar e sotaques dos muitos grupos em luta, inclui canções, bravatas e coplas utilizadas como ferramentas motivacionais nas trincheiras. A melhor dupla de personagens é formada por Ginés Gorguel, um abobado carpinteiro do interior de Albacete, e Selimán al-Barudi, um legionário marroquino, um mouro, que combatem juntos no lado franquista e se tornam improváveis amigos. Também é muito interessante o papel de um jovem alferes, Santiago Pardeiro, que aplica com sabedoria tudo o que aprendeu na escola militar, ganhando respeito de seus comandados, todos legionários já bastante mais velhos e experimentados em batalhas. Outro personagem interessante é Saturiano Bescós, um aragonês, pastor de ovelhas, que garante momentos de descontração na trama com seu sarcasmo, senso de oportunidade e objetividade. Entretanto, é verdade que todos os demais protagonistas cumprem bem seus papéis, neste mosaico de vidas inventadas (Julián Panizo, um dinamitador comunista; Bascuñana, um cético capitão da marinha, perdido nas montanhas e vales do leste espanhol; Pato Monzón, uma disciplinada e idealista especialista em comunicações; Tonet, o garoto de 12 anos, que escolhe ajudar o grupo nacionalista mais por diversão que por ideologia; Vivian Szerman, uma curiosa jornalista americana, que sonha viver aventuras, e as vivedolorosamente; Oriol Les Forques, um catalão “requetés”, para quem a guerra era uma nova cruzada cristã; O’Duffy, um sonhador major irlandês das brigadas internacionais; Phillip Tabb, um fotógrafo destemido; o major Emilio Gamboa, que luta pelos republicanos, mas reluta em aceitar interferência dos comissários políticos russos nas questões militares). O leitor percebe rapidamente que o núcleo das forças militares nacionalistas é mais profissional, enquanto nas tropas republicanas o comando é caótico,  improvisado. Em seu livro não há grandes nomes (acho que ele só grafa “Franco” uma vez). No campo de batalha todos são quase anônimos, confia-se em apenas uns poucos camaradas, em pessoas com quem se partilha o perigo da morte. Os 3.000 mortos inventados por Pérez-Reverte, a grande maioria do lado republicano, são quase todos crianças, de 17 anos, se tanto, recrutados por que alcançaram este número mágico, não  alguma maturidade; ou indivíduos sem instrução militar alguma, capturados em cidadezinhas e forçados a lutar; ou sonhadores estrangeiros, que imaginavam lutar contra o fascismo, o mal encarnado, mas eram apenas carne barata à serviço dos planos estratégicos maiores de Stálin; ou ainda militares patriotas, cuja expertise sempre morria no fogo cruzado das ideologias, emaranhados nas quimeras de uma revolução global, que jamais acontecerá. Ele também nos ensina que em uma guerra não se morre por causas nobres, por conceitos abstratos, por bandeiras ou por líderes. Morre-se por um passo mal dado, por um cigarro acesso em hora imprópria, por fogo amigo, pelas costas, por puro azar, por uma arma que trava quando não devia, por uma ponte que cai, por intrigas de caserna e trincheiras, por falta de medicamentos, de fome, sede ou frio, por injustas acusações de covardia, por inabilidade, por uma palavra mal dita, por um documento errado ou foto familiar carregada na carteira, por um crucifixo, ou a falta dele, no pescoço. A verdade não é revolucionária, já se sabe, pois ela morre sempre no primeiro dia de cada grande batalha. Todavia, a verdade ficcional de Pérez-Reverte está registrada em um grande livro, que viverá por mais anos que aqueles que dela participaram. Parece ter funcionado o esforço de trazer o lado humano da Guerra Civil para o primeiro plano da discussão contemporânea. A repercussão - e as vendas - na Espanha é enorme. Muitos políticos ou simpatizantes de ideias de esquerda ou direita condenaram o livro, claro. Mas tanto a crítica honesta, quanto o público leitor, parece pouco interessado em disputas ideológicas, no discurso fácil, sempre dirigido apenas aos acólitos e escravos mentais dos dois bandos. Pouco importa. Como disse recentemente Pérez-Reverte em sua conta no Twitter: "Por supuesto, eso va a indignar a los que viven de lo simple, de señalar buenos y malos desde ambos extremos de la política española, los ultras,  sectarios y paniaguados de derecha y de izquierda, necesitados siempre de blanco y negros, enemigos de los matices y complejidades que les estropean el discurso fácil. También indignará a los tontos. Y seré muy feliz cuando eso ocurra, pues entonces habré logrado mi objetivo. Que empiecen a chillar las ratas". É verdade. Quem for capaz de reclamar deste grande livro é mesmo um rato, um homem oco, crâneo recheado de palha, que apenas grita palavras vazias.Vale!
Registro #1582 (romance #390)
[início: 14/10/2020 - fim: 17/10/2020] 
"Línea de Fuego", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2020), brochura 15,5x24,5 cm., 683 págs., ISBN: 978-84-204-5466-5

quarta-feira, 15 de julho de 2020

no me cogeréis vivo

"No me cogeréis vivo" é um volume onde estão reunidos 167 artigos de Arturo Pérez-Reverte publicados originalmente em jornal (na coluna Patente de Corso do caderno XL Semanal), entre setembro de 2001 e julho de 2005. Esse período corresponde aos últimos anos do governo Aznar e os primeiros do governo Zapatero. Não preciso aqui repetir meu costumeiro entusiasmo  com a excelência de tudo que Pérez-Reverte publica (já falei sobre três volumes de artigos dele: "Una história de España", "Perros y hijos de perra" e "Los barcos si pierden en terra"). Pérez-Reverte fala do cotidiano espanhol, de política, das transformações pelas quais passa a Europa, seu país e suas fundamentais Madrid e Cartagena. Fala de questões filológicas e de la lengua espanhola, discutidas nas reuniões das quintas-feiras na Real Academia Espanhola, de questões náuticas, dos livros que lê, dos políticos e das muitas coisas estúpidas ditas pelos políticos. Comenta sobre a estupidez reinante dos hipócritas e canalhas que defendem ideias ditas politicamente corretas; sobre os censores de costumes e de comportamento; sobre questões ambientais. Louva indivíduos que o influenciaram, o educaram, as exposições que viu, as viagens que fez, os encontros que teve com amigos e de sua experiência como jornalista em conflitos bélicos. Com ele caminhamos pelo bairro de las letras de Madrid, vamos a restaurantes, lembramos de Cervantes, Quevedo, Góngora, Calderón de la Barca, de Lope de Vega. Ele faz brotar da infância sua admiração pelas histórias dos romanos, dos gregos, dos árabes de sua península. Com ele vamos aos portos, aos mercados, aos cafés, ao cinema, a lugares ermos e perigosos das cidades que ele visita. Suas crônicas/artigos/ensaios se distinguem de material comum, aquele que notadamente encontramos em jornais brasileiros, pois é notável sua coragem intelectual, sua capacidade de denúncia fundamentada, à quaisquer grupos ou indivíduos que mereçam sua atenção. Não se trata de ser um simples paladino de boas causas ou malabarista de palavras. Seu afiado senso de justiça, sua capacidade de saber dosar argumentação lógica com sonoros palavrões (que deixariam o coro purista e hipócrita de jornalistas brasileiros corados - e prontos para denunciá-lo nos tribunais de exceção de inspiração fascista que vicejam por aqui nestes podres dias de pandemia), tornam a leitura das quase 200 crônicas uma alegria, dias de genuíno prazer e educação. Pérez-Reverte não tem medo de ridicularizar quem quer que seja, desde o tonto mal educado que viaja a seu lado em um avião, até os ministros de governo, tão servis à programas políticos inúteis, contaminados por ideologias que alcançam o patético, quando não apenas servem para corrupção e desvio de dinheiro público. Seu colega articulista, Javier Marías - el perro inglés, ganha um punhado de citações, sempre bem humoradas, corteses, fraternais. ÔBeleza. Sorte que tenho ainda uns volumes de Pérez-Reverte escondidos nos guardados. Vale! 
Registro #1553 (crônicas e ensaios #275) 
[início: 11/02/2013 - fim: 01/07/2020]
"No me cogeréis vivo: artículos 2001-2005", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de Lectura (Santillana ediciones generales / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2005), brochura 12,5x19 cm, 605 págs. ISBN: 978-84-663-1891-4

quinta-feira, 7 de maio de 2020

a carta esférica

"A carta esférica" foi publicado originalmente há vinte anos. Trata-se de uma fantasia, um longo romance onde o autor oferece ao leitor a atmosfera típica das histórias de piratas, de tesouros enterrados, de mocinhos e bandidos, histórias que costumávamos todos a ler quando criança, quando imergíamos no mundo mágico da literatura. Pérez-Reverte rende homenagem a seus heróis literários quando o assunto é marinharia e navegação: Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad, Patrick O'Brian e Herman Melville (além do cartunista Hergé, das histórias de Tintim, e do detetive Philip Marlowe, personagem de Raymond Chandler). Acompanhamos como Manuel Coy, um marinheiro mercante desempregado, por curiosidade e também por saudades do mar, envolve-se com Tánger Soto, uma mulher obcecada pela busca de um barco espanhol do século XVIII, afundado ao largo da costa de Cartagena, na Espanha. Todos os clichês possíveis das histórias de piratas e de detetives estão presentes na trama: mapas cifrados, acasos mirabolantes, cigarros fumegantes, mulher misteriosa e sedutora, brigas em becos escuros, segredos, jazz, cavalheirismo, caçadores de tesouros, amizade, personagens caricatos, rivais violentos, traições. Todavia, surpreendentemente, a narrativa é mesmo poderosa e prende o leitor. Pérez-Reverte demonstra todo seu virtuosismo, seu conhecimento náutico, com descrições precisas de como se manejava barcos no passado (e também hoje, com o auxílio de tecnologias modernas). Coy conhece Tánger em Barcelona, e por impulso a segue - como os marinheiros seguiam as sereias - por Madrid, Cádiz, Gibraltar, Cartagena e o Mar Mediterrâneo. Contar detalhes destas deambulações, desta busca, roubaria uma miríade de prazeres do leitor. Aprendemos um bocado, sobre história da Espanha, história dos jesuítas, navegação, geografia das cidades espanholas e os hábitos de seus cidadãos. Enfim, diversão garantida. Cabe sempre lembrar que vale a pena ler as crônicas de Pérez-Reverte dedicadas ao tema do Mar (reunidas em Los barcos se pierdem em tierra, por exemplo) ou qualquer uma de suas crônicas semanais (clika1!), sobretudo essas duas (clika2! e clika3!), dedicadas a Paco, el Piloto, um amigo real de Pérez-Reverte, homenageado no livro. Vale!
 Registro #1525 (romance #378)
[início: 15/04/2020 - fim: 23/04/2020] 
"A carta esférica", Arturo Pérez-Reverte, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2001), brochura 14x21 cm., 530 págs., ISBN: 85-359-0124-8 [edição original: La carta esférica (Madrid: Alfaguara) 2000]

terça-feira, 22 de outubro de 2019

sidi

Arturo Pérez-Reverte parece correr contra o tempo. Ele tem 68 anos, começou a publicar livros em 1986, quando tinha 35 anos, boa parte deles dedicados ao jornalismo, como correspondente de guerra. De 1986 para cá publicou 34 livros, entre romances e compilações de suas fantásticas crônicas semanais. É uma produção incrível, algo mais de um livro publicado por ano. Não conheço outro autor que publique tanto assim, sobretudo mantendo qualidade nos textos (já registrei aqui um bocado deles: a série do Capitão Alatriste; a série Falcó; sua História da Espanha e tantos outros. Há poucos dias ele lançou seu livro mais recente: "Sidi: un relato de frontera", um romance histórico. Trata-se de uma versão romanceada de parte da vida de Rodrigo Díaz de Vivar, el Cid campeador, cavaleiro castelhano que viveu na segunda metade do século XI. Sua vida tornou-se lendária e, após os quase mil anos que separam seu nascimento (em 1048, em Burgos) ou morte (em 1099, em Valência) de nossos dias, é difícil saber da veracidade dos muitos dos acontecimentos que são usualmente associados a ele. O poema "Cantar de mio Cid", escrito no início do século XIII, confere aura épica aos feitos de Rodrigo de Vivar, associando-o à reconquista cristã da Península Ibérica e fundação do Reino de Castela. Certamente, à vida do homem Rodrigo de Vivar camadas de  invenção foram acrescentadas progressivamente ao longo dos séculos. Os sucessos contados no romance de Pérez-Reverte vão de 1080 a 1084, período em que El Cid, após ter sido desterrado de Castela pelo rei Alfonso VI, oferece seus serviços como guerreiro ao rei muçulmano da taifa de Zaragoza, al-Mutamán, e luta contra os reis cristãos de Navarra e Aragón, e também contra o conde de Barcelona. Por isto mesmo, devemos esperar pelo menos mais uns dois volumes, que contem as conquistas de El Cid nos últimos quinze anos de sua vida (sabe-se que ele tornou-se soberano da região de Valência, formalmente ainda vassalo dos reis de Castela, mas com suficiente autonomia para entendê-lo senhor completo do lugar). Lê-se o livro num sopro. A prosa de Pérez-Reverte é ágil, os acontecimentos se sucedem, arrebatando o leitor. As imagens que ele cria são sempre cinematográficas, como as de uma primeira versão de um roteiro de algo que se pretende adaptar para a linguagem do cinema. O vocabulário de Pérez-Reverte é rico, cheio de mimos para o leitor. De resto, acompanhamos os movimentos bélicos e diplomáticos do Sidi ("Senhor", em árabe) como quem lê um romance policial, lemos seus diálogos, cheios de humor e ironia, como se estivéssemos a conversar com um velho senhor, que lembra de acontecimentos de sua juventude. Diversão garantida. Vale! Em tempo: Esse volume foi lançado na Espanha no último 18 de setembro, uma quarta-feira. Comprei na Casa del Libro espanhola e o recebi, via DHL, na manhã da terça-feira 24 de setembro (isto porque dia 20/09 foi feriado no Rio Grande do Sul, prejudicando um tanto a logística). Que maravilha é ser bem servido por empresas realmente sérias e comprometidas com seus clientes. Evoé.
Registro #1461 (romance #369) 
[início: 24/09/2019 - fim: 08/10/2019]
"Sidi: un relato de frontera", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 373 págs., ISBN: 978-84-204-3547-3

domingo, 12 de maio de 2019

una historia de españa

As 92 crônicas de Arturo Pérez-Reverte reunidas neste "Una historia de España" já haviam sido publicadas em jornal, na coluna "Patente de Corso" do XL Semanal. Elas foram produzidas aos poucos, publicadas ao longo de quatro anos, de maio de 2013 a agosto de 2017. Trata-se de "una visión muy personal de la historia de España", um projeto realmente ambicioso, certamente didático, acho que pensado originalmente para que os jovens espanhóis entendam um tanto melhor os fatos mais marcantes de aproximadamente 2000 e tantos anos da história de seu país. Revisadas apenas tipograficamente por ocasião desta edição em livro, as crônicas permitem a alguém que nunca se interessou pela história da Espanha ou que se aborreceu com ela nos bancos escolares, uma experiência realmente potente. Pérez-Reverte é senhor da linguagem jornalística, rápida, objetiva, precisa, substantiva. Ele nunca é hipócrita. Sempre escolhe um lado de qualquer questão espinhosa, sempre oferece ao leitor oportunidades de reflexão. Ele não se poupa de usar palavras fortes, ironias brutais, quase no limite da ofensa, mas as pessoas que ele achincalha ou já morreram há muitos anos ou vivem num justo ostracismo, por conta de seus crimes e atos vis. De fato são palavras duras e brincadeiras que antes facilitam o entendimento de temas que precisariam de parágrafos inteiros para serem bem explicados em tom solene. Pérez-Reverte navega pelos clichês que acostumamos a associar a Espanha e aos espanhóis ("A tierra de la paella, el flamenco y la mala leche"); por mitos históricos, lugares comuns e lendas urbanas ("nuestra siempre apasionante, lamentable y muy hispana historia"); por biografias romantizadas, invenções, personagens de romances e peças de teatro; esclarece temas mistificados por ideias feitas que frequentam tanto mesas de bar quanto gabinetes universitários ("España seria un país estupendo si no estuviera lleno de españoles"). Seu sarcasmo parece encantar até mesmo conservadores ou tradicionalistas, suas ironias devem por certo divertir a juventude apressada. Escritas cronologicamente, as crônicas tornam-se progressivamente mais amargas, mais cínicas, menos esperançosas. "Yo creo que esa pérdida - del control de la educación y la cultura - es irreparable, pues sin ellas somos incapazes de asentar un futuro", ele diz no parágrafo final. Talvez por isso mesmo ele pare de contar sua historia em meados dos anos 1980, quando da consolidação da redemocratização espanhola, da vitória do partido socialista nas eleições de 1982 e da entrada do país no Mercado Comum Europeu, em 1986. Talvez seu estilo jocoso não seja o mais adequado para falar dos dias que correm, de pruridos politicamente corretos. De qualquer forma ele não esgota nenhum assunto. O leitor só corre o risco de achar que fazer história (ou escrever sobre história) é fácil. Enfim, diversão e aprendizagem garantida. Em tempo: Ele incluiu, "a modo de prólogo", quase quarenta epígrafes mordazes, que parecem sintetizar com fúria a psique espanhola, desde autores clássicos gregos e romanos (Estrabón, Tito Lívio, Apiano), passando por Cervantes, Bartolomé de las Casas, Macaulay, Von Humboldt, Voltaire e Napoleão até autores e sujeitos do século XX, como Hitler, Ortega y Gasset, Garcia Lorca, Julián Marías. Impressionante compilação. Vale! 
Registro #1398 (crônicas e ensaios #255) 
[início: 18/04/2019 - fim: 08/05/2019]
"Una historia de España", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 3a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 254 págs., ISBN: 978-84-204-3817-7

sábado, 27 de outubro de 2018

sabotaje

Com "Falcó" Arturo Pérez-Reverte começou sua série de volumes dedicados aos anos de ascensão do franquismo. Os sucessos gravitavam uma fictícia tentativa de resgate José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, logo no início da guerra civil, em novembro de 1936. "Eva", o segundo volume da série, se passavam em Tánger, no Marrocos, no início de 1937. No recentemente publicado "Sabotaje", Pérez-Reverte faz o tempo avançar uns poucos meses deste mesmo ano, para o início do verão europeu. A nova missão de Falcó envolve eliminar um francês, Leo Bayard, sofisticado brigadista internacional que apóia os republicanos na guerra civil. Simultaneamente, ele deve sabotar um quadro que Pablo Picasso pintava por aqueles dias, o impressionante Guernica, que todos conhecemos, sabemos que está exposto no Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, incólume e digno, ainda cumprindo seu papel de ícone contra o militarismo, sua força expressiva ainda manifestando repúdio à violência e os horrores da guerra, de todas as guerras. Como sempre nos livros de Pérez-Reverte a narrativa é acelerada, cheia de reviravoltas, deliciosas tramas paralelas, algum sexo, uma miríade de referências cinematográficas e chistes, de forma que dificilmente o leitor alcança abandoná-lo. Falcó é um anti-herói, alguém que luta contra um governo legítimo, ao lado de quem aprendemos identificar como fascistas, mas Pérez-Reverte soube dar matizes a seu protagonista, que é mais que um cínico, que um niilista, e faz o leitor aceitar que em situações complexas nem sempre é possível identificar todos os personagens como bons ou ruins, e todas as ações como absolutamente certas ou erradas, justificáveis ou condenáveis. Fascistas, comunistas, anarquistas, trotskistas, nacionalistas e tantos outros combatentes da guerra civil se equivalem, são capazes de atos vis ou honrados, de serem morais ou desonestos. Afinal, o ser humano vive sempre num carrossel de sentimentos contraditórios. Pérez-Reverte faz de Lorenzo Falcó uma espécie de James Bond dos anos 1930, um mestre da ironia, que sabe entender rapidamente a psique de seus interlocutores, agir da forma mais eficiente para cumprir suas tarefas. Não me cabe detalhar aqui os sucessos desta aventura, já que toda a graça do livro está em saber justamente como ele falhará em seu intento de destruir Guernica, como não será capaz de impedir Picasso de finalizá-lo. Ao terminar o volume, para mim o melhor dos três até aqui editados, já esperava encontrar a notícia de que algum outro está em produção. Mas talvez não seja o caso de ser tão açodado. Um escritor pode se aborrecer com personagens que teimam em roubar tempo e atenção. Estes três volumes foram lançados em menos de um ano, parecem ter sido escritos simultaneamente até. De qualquer forma a guerra civil factual ainda seguirá violenta e dura por mais um ano e meio, até abril de 1939. E depois dela haverão os horrores da segunda grande guerra, os anos da ditadura de Franco, e os da redemocratização espanhola. Falcó, que tem pouco mais de 35 anos neste volume poderia ser testemunha disto tudo. Será que Pérez-Reverte dará vida longa a seu personagem, o fará continuar suas aventuras? Logo veremos. Vale! 
Registro #1341 (romance #352) 
[início: 17/10/2018 - fim: 21/10/2018]
"Sabotaje", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), capa-dura 16x24,5 cm., 373 págs., ISBN: 978-84-204-3245-8

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

los perros duros no bailan

"Los perros duros no bailan" é uma legítima fábula moderna. Arturo Pérez-Reverte só dá voz e protagonismo a cães, uma centena deles, cada um com suas idiossincrasias e suas circunstâncias. Utilizar animais para fazer analogias entre o comportamento dos homens e as histórias vivenciadas por personagens caninos é mesmo uma fórmula antiquíssima, mas acho que posso imaginar um outro motivo para Pérez-Reverte tê-la escolhido. Nesse nosso cotidiano bizarro, em que hordas de censores advogam políticas ditas "corretas", que se espalham como um câncer em todas as atividades humanas, inclusive na literatura, na ficção, um livro onde o que é dito pelos cães o fosse mais convencionalmente dito por humanos teria muita chance de cair em algum "index" de livros a serem combatidos, a serem censurados, a serem eventualmente queimados em praça pública (chegaremos lá, os homo sapiens sapiens parecem ser tóxicos a si mesmos, como em uma doença auto imune). Mas vamos voltar a literatura. Em "Los perros duros no bailam" acompanhamos a jornada de Negro, um cão que durante muito tempo foi adestrado para participar de lutas, frequentemente mortais. Por acaso Negro chegou a aposentar-se das lutas, passou a viver livre nas ruas, mesmo tendo uma função noturna de vigia, com direito a coleira, vacinas e alimentação farta. Negro, como um velho boxeador, tem seus lapsos de memória, alguma lentidão no pensar, mas manteve o instinto assassino de sua linhagem. Dois cães seus amigos, Teo e Boris, desaparecem. Negro decide resgatá-los, o quê, após muitas reviravoltas,  implica em voltar aos ringues de combate entre cães, voltar a ser instrumento para o deleite de humanos torpes, que fazem apostas, perdem e ganham dinheiro com as lutas. A narrativa é repleta de clichês e frases feitas adaptadas ao mundo canino (o leitor ri, mas é uma fórmula fácil demais). É também povoada por personagens caninos planos, que representam apenas uma virtude ou vício, apenas uma característica ou falha de caráter (há os covardes, os fracos, os lúbricos, os dissimulados, os heroicos, os cúmplices, os filosóficos). Trata-se afinal de um livro que valoriza o comportamento moral de alguns cães, modelares de uma espécie que não conhece a hipocrisia. O livro também deve muito ao mundo do cinema. Há uma miríade de citações cinematográficas neles. O roteiro lembra obviamente "Spartacus", do Kubrick, mas há ecos de Casablanca, de neorealismo italiano, de Hitchcock, de westerns, sobretudo os spaghetti (Sergio Leone à frente, claro). Apesar de ser esquemático e de certa forma ser previsível, pois a jornada de Negro para resgatar seus amigos é uma jornada do herói clássica, o livro funciona. Pérez-Reverte já tinha demonstrado o quanto é bom observador do mundo canino em suas crônicas reunidas em 'Perros y hijos de perra", que já registrei aqui. Diversão garantida. Vale! 
Registro #1300 (romance #344) 
[início: 27/07/2018 - fim: 28/07/2018]
"Los perros duros no bailan", Arturo Pérez-Reverte, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), brochura 13x21,5 cm., 168 págs., ISBN: 978-987-738-505-2

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

eva

"Eva" é o segundo volume de uma série dedicada a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte fala panoramicamente dos anos 1930, os anos espanhóis de ascensão do franquismo. Essa série foi iniciada com o bom "Falcó", que já registrei aqui. Os sucessos de "Eva" correspondem ao oitavo mês da guerra civil, logo após a sangrenta Batalha de Jarama, no início de 1937. Mas a disputa narrada no livro não se dá em território espanhol, mas sim num enclave neutro, na cidade de Tánger, no Marrocos, sempre tão misteriosa, exótica, cara aos filmes em preto e branco que tinham a segunda grande guerra como tema. Falcó é enviado para Tánger, que naquela época tinha um estatuto especial, sendo administrada de forma conjunta por belgas, espanhóis, italianos, americanos, franceses, holandeses, ingleses, russos e portugueses (ou seja, erra uma terra de todos e de ninguém). Falcó precisa administrar uma questão delicada: impedir que um navio que leva um carregamento de ouro, originalmente parte do patrimônio espanhol que foi enviado para ser eufemisticamente guardado na União Soviética, aliada dos republicanos (que é o grupo que combate as forças de Franco na guerra civil). Os falangistas (apoiadores de Franco) obviamente não querem que o dinheiro cai nas mãos dos russos. Falcó reencontra sua Nêmesis, Eva, a espiã russa que atuava em território espanhol e que ele mesmo havia salvo das mãos dos falangistas, a contragosto de seu chefe direto, o Almirante. Como em todo bom folhetim, os sucessos se sucedem em ritmo acelerado. A narrativa segue a receita de sucesso de livros de aventura  e espionagem: um prólogo à la 007 (uma perseguição pelas ruas de Lisboa, uma morte violenta, a descoberta de uma pista, os planos de intervenção, as ordens que devem ser cumpridas); uma transição sóbria onde se descreve todo o excêntrico cenário e os personagens que serão coadjuvantes na trama, sobretudo dois capitães de navio e suas tripulações; e por fim o crescendo de diálogos e  sucessos que levarão o livro a seu desfecho. Não se pode esperar nada muito cerebral em livros deste tipo, trata-se de entretenimento ligeiro, mas Pérez-Reverte domina esta técnica como ninguém, seus livros garantem diversão pura (lê-se esse livro em um final de semana vagabundo, ao sol, caso o sujeito queira). Sabemos que nunca há só inocentes e vilões no mundo, só os muito ingênuos acreditam nos bons motivos e sobretudo nos métodos de qualquer tipo de revolução. Livro estival, alegre, leve, mas que leva o leitor a pensar (já me contradigo). Afinal qualquer pessoa curiosa sobre a guerra civil espanhola ganha algo com ele. Claro, Pérez-Reverte oferece também ao leitor mais exigente um pouco de verossimilhança, precisão histórica, alguma digressão sobre a clivagem radical experimentada na sociedade espanhola daquela época, dividida entre duas utopias/distopias inconciliáveis e terríveis. Os diálogos são repletos de ironia. Eva e Falcó voltam a ficar em lados opostos no jogo de espionagem, mas têm lá seu jeito de se atraírem e se respeitarem. Certamente haverá um terceiro volume nesta série, mas eu preferiria mesmo é que Pérez-Reverte lançasse o oitavo volume da série dedicada as aventuras do Capitão Alatriste. Isso sim. E vamos em frente. Vale! 
Registro #1298 (romance #343) 
[início: 11/03/2018 - fim: 13/03/2018]
"Eva", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2017), capa-dura 16x24,5 cm., 394 págs., ISBN: 978-84-204-1957-8

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

falcó

Primeiro volume de uma prometida série, "Falcó" garante momentos de diversão descompromissada para o leitor curioso sobre a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte é um mestre na arte de escrever já pensando em uma possível adaptação cinematográfica. Claro, ele abusa sem dó dos clichês de livros de espionagem, do cinema noir, dos romances de aventuras e mistério, onde homens duros flertam com mulheres fatais, mas sabe povoar seu livro com um bom conjunto de protagonistas, produz diálogos inteligentes e controla o desenvolvimento das ações de seu folhetim até levá-lo a um insuspeitado final (a coisa não fica longe de ser caricata, mas quem se importa, se acabamos nos divertindo e aproveitando os truques narrativos que ele distribui pelo livro). Lorenzo Falcó é uma espécie de contraponto cínico ao heroico e valoroso Capitão Alatriste, personagem já consagrado de Pérez-Reverte. Reconhecido especialista em termos militares, Pérez-Reverte identifica sempre que possivel os modelos das armas, os tipos de granada e morteiros, caminhões de transporte, navios e indumentária utilizada pelos personagens. Falcó, um ex-contrabandista de armas, é um agente dos nacionalistas, grupo daquele que viria a tornar-se o ditador da Espanha por trinta e cinco anos, Francisco Franco. Acostumado a infiltrar-se nas linhas inimigas, a dos republicanos, ele sabe torturar e aguentar tortura, matar e escapar da morte. A trama envolve um possivel resgate de José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, grupo que apóia Franco, mas é um tanto mais radical, à direita, e está preso em Alicante. O livro é curto. Lê-se facilmente em poucas horas. O leitor não precisa saber detalhes da guerra civil espanhola para acompanhar a narrativa. Soube que há pouco mais de um mês Pérez-Reverte lançou o segundo volume da série, "Eva", onde reecontraremos Falcó em mais aventuras. Dificil dizer se esse personagem cairá no gosto do grande público, a exemplo de Alatristre. A Espanha é um país em que as marcas das divisões ideológicas daquela época ainda são visíveis e reepercutem na política contemporânea. Nem só de hipocrisia vive uma sociedade (sabemos bem nós, brasileiros, aferrados hipocritamente até a morte às nossas mazelas, narrativas históricas tortas e tontas, mentiras públicas, vícios privados, auto-enganos e ilusões coroadas). Arre. Vamos em frente. Vale!
Registro #1247 (romances #329)
[início: 23/11/2017 - fim: 25/11/2017]
"Falcó", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2016), capa-dura 16x24,5 cm., 294 págs., ISBN: 978-84-204-1968-8

segunda-feira, 6 de julho de 2015

o pintor de batalhas

Estava a ler esse "O pintor de batalhas" quando recebi "Hombres Buenos", o livro mais recente de Arturo Pérez-Reverte. Interrompi a leitura, troquei o antigo pelo novo (que já foi resenhado aqui) e depois acabei terminando outros volumes que a exemplo desse já se empilhavam pelas estantes. Não é o mais robusto Pérez-Reverte que já li. A história é interessante, o sujeito sabe convencer o leitor que aplicou-se nas pesquisas factuais e técnicas que antecedem a escritura do livro, há boas discussões sobre ética e moral, arte e ciência, mas falta algo nele que empolgue de fato o leitor. De certa forma "O pintor de batalhas" é um acerto de contas de Pérez-Reverte com seu passado de correspondente de guerras (atividade que ele exerceu por mais de vinte anos, tendo feito reportagens de boa parte das guerras que aconteceram na última quarta parte do século XX: Líbano, Malvinas, Angola, El Salvador, Moçambique, Sudão, Golfo Pérsico e Balcãs). Na trama, Faulques, um sujeito que atuou como fotógrafo de guerras é apresentado como o "pintor de batalhas". Ele vive solitário num farol abandonado da costa da Andalucía espanhola. O povo do vilarejo e os eventuais turistas sabem que ele está a produzir um grande mural nas paredes internas do farol. Logo no início do livro um crota chamado Ivo Markovic apresenta-se a Faulques e afirma que está ali para matá-lo. A narrativa alterna registros da história de cada um. Faulques conta suas aventuras pelo mundo das guerras, sua paixão por uma colega jornalista, sua obsessão pela pintura e pela ciência, seus passeios por cidades e museus italianos. Markovic oferece detalhes de sua tragédia pessoal, a ruína de sua família, cidade e país durante a guerra que fragmentou a antiga Iugoslávia, parece tentar entender a psicologia de Faulques e os motivos que o fizeram aposentar-se da fotografia e das guerras e também os porquês dele dedicar-se a pintura daquele mural. Desde o início do livro sabemos que Markovic entende que uma fotografia tirada por Faulques como que roubou-lhe o futuro. Faulques é ambíguo ao lamentar a perda da mulher que amava. Longas conversas sobre questões morais e sobre as técnicas da pintura e da fotografia se alternam. O leitor antecipa o final do livro e as razões que justificariam o comportamento dos antagonistas. É pouco. Talvez seja hora de parar de ler Pérez-Reverte por uns tempos e dedicar-se a outros autores. Vale.
[início: 05/05/2015 - fim: 03/07/2015]
"O pintor de batalhas", Arturo Pérez-Reverte, tradução de Sérgio Molina, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm., 250 págs., ISBN: 978-85-359-1325-5 [edição original: El pintor de batallas (Barcelona: Alfaguara / Random House LCC) 2006]

domingo, 28 de junho de 2015

hombres buenos

"Hombres buenos" é ao mesmo tempo a invenção de uma história de viagem (a de dois sujeitos, membros fictícios da Real Academia Española, no final do século XVIII) e a narrativa de uma aventura empreendida por amor aos livros, em busca de idéias, conceitos e palavras que só se encontram nos livros. A história tem lá seu encanto: tenta dar conta de como a RAE conseguiu os vinte e oito volumes in folio da primeira edição da Encyclopédie francesa, editada por Diderot e D'Alembert entre 1751 e 1772, um dos maiores símbolos do Iluminismo. Arturo Pérez-Reverte (membro da RAE desde 2003) descobre os volumes na biblioteca de sua Academia e começa a imaginar como uma monarquia conservadora como a Espanhola conseguiu adquiri-los. Ele constrói um romance que dialoga com o leitor. Ao mesmo tempo que a narrativa avança ele intercala reflexões sobre o processo de construção do romance, conta os procedimentos que utiliza para coletar dados, descreve as consultas que faz nas atas da academia onde há menções sobre a compra dos volumes, reúne-se com especialistas e conversa com seus colegas acadêmicos (os reais, não os dois que inventou), fala da viagem que fez a Paris (mais ou menos pelo mesmo trajeto utilizado por seus dois personagens/confrades do século XVIII). A história é movimentada. Dois dos acadêmicos da RAE são incumbidos de viajarem a Paris e adquirir os volumes. Um é Hermógenes Molina, bibliotecário da academia, um discreto especialista em textos latinos, o outro é Pedro Zárate y Queralt, almirante aposentado, experimentado em batalhas e autor de um dicionário de marinharia. A compra da Encyclopédie é controversa. Uma parte dos acadêmicos não se sente entusiasmada com as idéias progressistas ali inscritas. Dois deles (um jornalista reacionário ligado a igreja e um escritor que no fundo plagia discretamente os franceses e que teme ser desmascarado) decidem contratar um sicário para impedir que a compra se efetive. O leitor acompanha como, de Madrid a Paris, os dois acadêmicos experimentam os sucessos típicos de um romance de aventuras: emboscadas em locais isolados, conversas furtivas em estalagens mal iluminadas, encontros amorosos clandestinos, roubos e escaramuças, a eterna luta do bem contra o mal. Temos até direito a acompanhar um duelo numa manhã encoberta por neblina num frondoso parque francês. Com a ajuda de um abade convertido à causa revolucionária (a revolução francesa está prestes a eclodir) passam os dias em Paris em livrarias e sebos tentando encontrar uma edição completa dos volumes, mas têm tempo também para irem aos cafés, salões mundanos e encontrarem-se com filósofos e intelectuais daquele tempo (são citados Choderlos de Laclos, Leclerce de Buffon, Restif de la Bretonne, o próprio D'Alembert e Benjamim Franklin - que tratava ali de conseguir apoio francês na guerra contra os ingleses). Sabemos que a empreitada terá um destino feliz, afinal os livros estão fisicamente na biblioteca da RAE, portanto alguém os trouxe com segurança. Caso o livro descrevesse apenas as peripécias pelas quais os dois acadêmicos passaram para comprar os volumes o livro não teria muita graça. Porém um leitor mais exigente encontra estofo maior nas boas reflexões de Pérez-Reverte sobre o mundo contemporâneo (que de alguma forma afasta-se cada vez mais da razão e valora menos o conhecimento neste conturbado início de século XXI). O objetivo do livro parece mesmo ser mesmo discutir como hoje, com todo o conhecimento disponível nas infinitas enciclopédias digitais de que dispomos, é possível haver tanta desinteligência, intolerância, violência e temor sobre o futuro imediato. Pérez-Reverte fala sobretudo sobre como dois homens de índole muito diversa, apenas colegas profissionais, alcançam tornar-se amigos de verdade, amigos para sempre, sem hipocrisias ou convenções. Ele alcança bons efeitos cômicos quando faz uso das polêmicas idéias de seus confrades acadêmicos Javier Marías e Francisco Rico (o respeitado especialista em literatura do século de ouro espanhol e autor de uma edição comentada do Quijote de Cervantes). E, por fim, descreve com precisão os caminhos de Paris e de Madrid, principalmente aqueles do "Barrio de las letras", onde todos que gostam de literatura espanhola inevitavelmente vão como numa peregrinação quando estão na cidade. Trata-se assim de um livro sobre a amizade e a paixão pelos livros, pelas palavras (num mundo progressivamente individualista e dominado pela imagem). Apesar de não ser o melhor livro dele que já li tem lá seu charme. Lembrei-me também que quando um sujeito se deixa viajar completamente, imerge numa experiência sem amarras, ao voltar para casa encontra poucos vestígios de si mesmo. A mobília parece provocar estranhamento; o nome grafado na correspondência que se acumulou parece ter sido entregue por engano; a fisionomia dos amigos evoca outras pessoas; os sons e as vozes sugerem outro ritmo, outros códigos, lembranças de um tempo distante. Eventualmente o hábito, fiel camareiro, faz o sujeito recuperar sua velha e conhecida persona, o devolve à cidade e ao mundo, com suas virtudes e defeitos de sempre. Entretanto ele sabe (e talvez nunca compartilhe com ninguém) que o homem que voltou é um outro, um duplo, está mudado. Talvez mais impactante que a experiência real das viagens e do assombro que é conhecer gente e paisagem seja a experiência silente que temos com os livros, pois eles sempre alcançam nos metamorfosear um bocado. Ao abrirmos cada livro perguntamos: para onde aponta esta jornada? Wither?
[início: 15/05/2015 - 02/06/2015]
"Hombres buenos", Arturo Pérez-ReverteBarcelona: Alfaguara / Penguin Random House Groupo Editorial, 1a. edição (2015), capa-dura, 16x24,5 cm., 582 págs., ISBN: 978-84-204-0324-3

quinta-feira, 14 de maio de 2015

perros e hijos de perra

Arturo Pérez-Reverte escreve os domingos, desde o início dos anos 1990, numa revista chamada Xl Semanal, usualmente encartada nos jornais do grupo espanhol Vocento. São centenas os artigos, sobre os mais variados assuntos. Dele já resenhei, além dos romances, uma compilação de artigos náuticos: "Los barcos se pierden en terra". Neste seu "Perros e hijos de perra" estão reunidos 22 desses artigos, publicados entre 1993 e 2014. São crônicas ligeiras, que dão conta de um sujeito que na dúvida entre respeitar um cão ou um homem sempre escolherá o cão ("Cuando uno de nosotros desaparece del mapa, el mundo no piede gran cosa; (...) pero cada vez que muere un buen perro, todo se vuelve más desleal y sombrío"). Há crônicas zangadas, quase panfletárias, sempre contra aqueles que demasiado egoístas e/ou canalhas, abandonam nas férias de verão os cães que presentearam aos filhos no dia de Natal (há também crônicas que acusam o poder público de descaso ou omissão nos crimes desta natureza). Mas há também aquelas mais sentimentais, doces, que falam com alegria da cumplicidade que une gente como ele aos cães com os quais convive (Pérez-Reverte consegue não descambar para o melodramático, mas chega um bocado perto). O livro inclui umas poucas ilustrações de Augusto Ferrer-Dalmau. É o tipo de livro que alegra o sujeito que está aborrecido após um dia de trabalho e não quer enfrentar a estupidez reinante que é divulgada pela televisão. Em tempo:  Sou de outra natureza, pouco sei de cães, nunca convivi com eles. Aprendi algo lendo don Arturo, claro. É que fui adestrado (por gatos) apenas na nobre arte de conviver com gatos e contar das maravilhas desse convívio. Vamos em frente. 
[início: 12/04/2015 - 29/04/2015]
"Perros e hijos de perra", Arturo Pérez-Reverte, ilustrações de Augusto Ferrer-Dalmau, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Groupo Editorial, 1a. edição (2014), capa-dura 14,5x21,5 cm., 157 págs., ISBN: 978-84-204-1786-8

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

el francotirador paciente

"El francotirador paciente" é um livro relativamente curto e fácil de ler. São nove capítulos. Os oito primeiros se não empolgam e são descompromissados, deixam-se ler sem atropelos. Trata-se daquele tipo de literatura de entretenimento honesta que deixo para ler nas férias: texto bem escrito, narrativa movimentada (trata-se de um thriller de ação), tema curioso e moderno, personagens planos como uma porta. Bueno. Tudo ia bem até deparar-me com o desfecho que Pérez-Reverte utilizou no livro, o tal nono capítulo. Que moralismo indecente. Que solução fácil e artificial. Argh! Lembrei-me de Dorothy Parker e do destino que ela dizia merecerem certos livros: serem jogados pela janela, sem dó, ao invés de serem esquecidos ao lado da cama. Em "El francotirador paciente" acompanhamos uma jovem doutora que trabalha como consultora na área de artes plásticas para grandes grupos editoriais. Ela é contratada para localizar Sniper, um grafiteiro famoso que vive recluso e fazer-lhe uma proposta editorial. Esse grafiteiro famoso e recluso do livro é obviamente inspirado em Banksy. Sniper também é procurado pelo pai de um outro jovem grafiteiro, morto num acidente. O pai responsabiliza Sniper, que é uma espécie de líder genial e/ou mentor dos demais grafiteiros, pela morte de seu filho. A história rende boas discussões sobre o valor da arte urbana, o papel das artes plásticas no mundo contemporâneo, as diferenças entre a vocação e/ou expressão artística dos jovens e a utilização de procedimentos artísticos na atuação política de grupos organizados. A história começa pela ruas de Madrid, avança por Lisboa e Verona até chegar a seu desfecho em Nápoles. Como em vários outros livros de Pérez-Reverte que li a narrativa já está formatada num arranjo cinematográfico. Transformar o livro em um roteiro não deve ser uma tarefa muito complicada. Pelo óbvio apelo visual que a história oferece, talvez em um filme mesmo a solução desastrada de Pérez-Reverte para o final acabe funcionando melhor. Veremos. Entretanto, assim como um dos personagens no livro diz: "Si es legal, no es grafiti", um leitor poderá pensar: "Se é cinema, não é literatura".
[início: 28/01/2014 - fim: 01/02/2014]
"El francotirador paciente", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Alfaguara (Santillana Ediciones Generales / Prisa Ediciones), 1a. edição (2013), brochura 15x24 cm., 303 págs., ISBN: 978-84-204-1649-6