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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

triste

Rafael Sica é senhor dos silêncios, daquilo que não precisa ser explicitamente dito, com seu traço congela cousas que todo homo sapiens imediatamente entende, pouco importa quem seja, de que lugar venha, se goste ou não de cartuns, de ilustrações.  Em "Triste" encontramos trinta ilustrações em grande formato, mais ou menos A3, em que sempre um sujeito parece indiferente aos espantos do lugar onde está, parece inerte, alheio, preso em reflexões, em sonhos. Catão já nos ensinou que "Nunca estou mais ativo do que quando nada faço, nunca estou menos só que quando a sós comigo mesmo". Talvez seja isso, o sujeito retratado por Sica não se ilude com o bizarro de seu entorno, não reage ao surreal, a indiferença do universo, aos azares do dia. A magia - ou uma perversa volta do parafuso - seria se fosse possível que cada um de nós entendêssemos os pensamentos dos outros, nossos mútuos estados de ânimo, compartilhássemos medos e preocupações. Alcançaríamos nos tornar sujeitos mais solidários, menos maus, mais empáticos, menos canalhas? Jamais saberemos. Neste link da Lote 42 um eventual leitor pode ter uma ideia de como esse livro foi produzido. Grande Sica. Vamos a ver com o quê este inquieto artista nos provocará no futuro. Vale!
Registro #1490 (quadrinhos #77) 
[início - fim: 30/01/2020] 
"Triste", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2019), wire-o e capa em serigrafia 26x37 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-66740-44-8 

sábado, 25 de janeiro de 2020

chanbara, o caminho do samurai

Essa proposta é uma espécie de "spaghetti mangá", um mangá inventado por um criativo roteirista italiano. Pelo que entendi trata-se da primeira de duas aventuras engendradas por Roberto Recchioni, um cartunista/ilustrador italiano que quase cinquenta anos, bastante respeitado em seu país. A história segue o argumento básico de qualquer aventura deste tipo (só que o gênero da pessoa que promove a jornada do herói é invertida, pois trata-se de uma mulher, cousa difícil de acreditar que acontecesse no Japão feudal, paciência). A filha de um guerreiro samurai, traído por seu senhor e obrigado a cometer suicídio ritual, promete vingança, torna-se uma adestrada guerreira e promove a morte de todos aqueles que conspurcaram a honra de seu pai. No caminho conhece duas pessoas nobres, que não só escapam de sua espada como a ajudam: um jovem, que foi aluno de seu pai, e um velho cego, Ichi, que foi mentor de seu pai. Nada muito surpreendente, mas adequado a estes dias de calor infernal, em que o tempo parece congelado (seria este um legítimo oxímaro?, sei lá). Vale!
Registro #1488 (mangá #76) 
[início 04/01/2020 - fim 06/01/2020] 
"Chanbara: v.1 (O caminho do samurai)", Roberto Recchioni, arte de Andrea Accardi, tradução de Júlio Schneider, Barueri, São Paulo: editora Panini Brasil, 1a. edição (2019), capa-dura 19,5x26 cm, 256 págs. ISBN: 978-85-426-2328-4 [edição original: Le redenzione del samurai, Sergio Bonelli Editore (Roma, Itlia), 2012]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

o último voo das borboletas

Kan Takahama é uma artista plástica e ilustradora japonesa de pouco mais de quarenta anos, e que já publicou uma dezena de trabalhos. "O último voo das borboletas" foi publicado originalmente em 2014 e traduzido recentemente para o português. Trata-se de uma história que gravita as regras morais e convenções públicas do mundo das gueixas japonesas (gueixas são cortesãs adestradas a toda uma sorte de habilidades e conhecimentos, não exatamente prostitutas sofisticadas, como de certa forma o imaginário ocidental preferiu acreditar). A história se passa em meados do século XIX, no bairro Maruyama, em Nagasaki (na ilha de Chiba), cidade que fica a uns 100 Km de Tóquio. Essa região, que em algum momento recebeu comerciantes holandeses, era conhecida pelos serviços de gueixas. A história acompanha o destino de Kichou, uma gueixa que por uma desafortunada situação precisa voltar a oferecer seus serviços, anos após tê-lo abandonado. As ilustrações são muito bonitas. O olhar feminino da proposta oferece ao leitor um pouco mais de nuances a um assunto que é naturalmente complexo. Livro interessante para se ler nestes dias estivais, em que a inclemência do Sol pede paciência a todo e qualquer leitor. Vale!
Registro #1487 (mangá #75) 
[início 02/01/2020 - fim 03/01/2020] 
"O último voo das borboletas / Cho-no-Michiyuki", Kan Takahama, tradução de Drik Sada, São Paulo: editora Pipoca & Nanquim, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 168 págs. ISBN: 978-85-93695-36-0 [edição original: Chō no michiyuki (蝶のみちゆき), Leed Publishing, (Tokyo, Japão), 2014]

domingo, 1 de setembro de 2019

o matrimônio de céu e inferno

Enéias Tavares, professor de literatura da UFSM, e Fred Rubim, designer gráfico, uniram-se para engendrar o ambicioso projeto que foi o de recriar algo dos livros iluminados de William Blake na forma de uma graphic novel. O resultado é bacana. Claro, qualquer reinvenção de um clássico envolve as limitações de cada gênero, a liberdade criativa dos autores, as camadas de recepção do original já acumuladas, o público a quem a nova transcriação é oferecida e tantas outras condições de contorno. No caso específico de Blake deve-se acrescentar o quão enigmático e metafórico é o próprio original. De qualquer forma, acho que os dois apresentam uma proposta honesta ao leitor. Blake foi poeta, pintor, gravador, escritor, viveu entre a segunda metade do século XVIII e o primeiro quarto do século XIX. Produziu uma obra vastíssima, que pode ser acessada no "Arquivo Blake". O livro iluminado  transcriado por Enéias e Fred, composto originalmente em 1790, pode ser acessado no link "The Marriage of Heaven and Hell". A história de Enéias e Fred acrescenta ao propósito de homenagear Blake uma miríade de alusões de outros autores que nele se inspiraram nos últimos 200 anos (de Yeats e Jung a Aldous Huxley e Jim Jarmusch, entre tantos). O enredo é confessadamente tarantinesco, ou seja, deve algo ao universo criativo de Quentin Tarantino, a estilização da violência e cultura pop. Os dois autores criaram uma narrativa que alterna o destino de quatro personagens (um matador de aluguel, uma prostituta, um pastor evangélico e uma designer), viventes de uma furiosa São Paulo contemporânea, com as partes do livro de Blake, onde o diabo oferece ao poeta sua versão dos sucessos de sua queda, sua bíblia infernal. A paleta de cores de cada personagem funciona como marcador e facilita, eu diria até demais, a vida do leitor. O livro inclui vários mimos: notas de referência sobre as associações cifradas no texto e nas imagens; reproduções das pranchas de Blake, o making of do roteiro de Enéias; o making of da concepção plástica de Fred Rubim; vários curtos textos críticos, que contextualizam o trabalho de Enéias e Fred no universo da produção de literatura fantástica e gráfica brasileira contemporânea. Como já disse, bacana. Vamos a ver o que esta dupla inventará na sequência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1443 (graphic novel #74) 
[início: 12/07/2019 - fim: 21/07/2019]
"O matrimônio de céu e inferno", Enéias Tavares e Fred Rubim, Porto Alegre: AVEC, 1a. edição (2015), capa-dura 15x21 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-5447-042-5

quarta-feira, 1 de maio de 2019

desenhos invisíveis

(Gervásio) Troche é um artista plástico uruguaio. Ele viveu em vários países, inclusive no Brasil, e publica em jornais e revistas mundo afora. Encontrei esse livro de ilustrações dele nas escadarias do viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre, em frente ao agitado Bar Justo, em uma feira gráfica de artista independentes. Os desenhos se defendem sozinhos. Não há palavras, e de fato elas não são necessárias, pois o resultado alcançado por Troche realmente é forte, convincente, que cobra reflexão do experimentador daquela linguagem. Ele descreve o cotidiano de uma cidade, olha frequentemente para o céu, para as estrelas, equilibra-se em um trapézio, empilha prédios, experimenta os elementos (a noite, a chuva, a luz e a sombra, os sons e a música, as folhas e as árvores). Os homo sapiens que ele desenha não são exatamente solitários, tristes, mas há uma solidão entranhada neles. Os desenhos parecem versões em preto e branco das pinturas mais icônicas de Edward Hopper. Um leitor curioso pode apreciar algo de sua produção plástica num blog (portroche blogspot) ou em sua página no instagran (portroche instagran). Vale a pena, mesmo. Vale!
Registro #1388 (hq´s cartuns e mangás #73)
[início - fim: 21/02/2019]
"Desenhos invisíveis", Troche, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2014), brochura 17x22 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-66740-07-3 [edição original: Dibujos (Buenos Aires: Editorial Sudamericana / Penguin Random House Mondadori) 2013]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

hungry ghosts

"Hungry Ghosts" foi um dos últimos trabalhos de Anthony Bourdain, o prolífico chef, escritor, apresentador de tv, produtor e, também, autor de histórias em quadrinhos. Anthony Bourdain cometeu suicidio em junho deste ano. Um assombro, uma notícia ruim, uma grande perda. Tinha uma vida invejável em muitos e variados sentidos, mas os cães negros da depressão não perdoam ninguém. A Casa del Libro avisou-me que a versão espanhola do livro estava disponível, então encomendei-a o mais rápido que pude. Essa não é a primeira incursão de Bourdain no mundo dos quadrinhos. Já registrei aqui o divertido "Get Jiro!", no qual ele produz uma fusão entre gastronomia, Japão, o mundo dos gângsters e dos westerns americanos. Em "Hungry Ghost" ele repete a parceria com Joel Rose, assinando juntos um roteiro com nove histórias curtas. A criação da parte gráfica das histórias foi dada a oito renomados cartunistas: Sebastian Cabrol, Vanesa Del Rey, Ferancesco Francavilla, Irene Koc, Leonardo Manco, Alberto Ponticelli, Paul Pope, Mateus Santolouco. Sal Cipriano assina  a tipografia e José Villarubia é o responsável pelas cores do álbum. Todas as histórias gravitam o mundo dos fantasmas e espíritos da mitologia budista, histórias do folclore japonês e chinês nas quais todos os seres após a morte experimentam uma espécie de sobrevida animalesca, alimentando-se de emoções e medos daqueles que ainda vivem. Eles tem nomes estranhos: Yokai, Yurei, Obake, Kappa e vários outros. As histórias tratam de obsessões culinárias, de hábitos de alimentação, de regras de etiqueta gastronômica. Apesar do bom tratamento gráfico o resultado é muito irregular. Algumas histórias são de fato algo assustadoras, mas são curtas demais, acabam antes que a narrativa produza um devido clima de encantamento e magia. O livro inclui cinco receitas assinadas por Bourdain, pratos com os quais alguns dos fantasmas famintos poderiam se fartar. Não cheguei a experimentar nenhuma das receitas. Vamos a ver se me animo a fazê-lo um dia destes. Bueno. Grande Bourdain. Era mesmo divertido acompanhá-lo em suas viagens mundo afora. Good night sweet Prince!
Registro #1350 (graphic novel #72)
[início 15/11/2018 - fim: 17/11/2018]
"Hungry Ghosts", Anthony Bourdain e Joel Rose (roteiro), Sebastian Cabrol, Vanesa Del Rey, Ferancesco Francavilla, Irene Koc, Leonardo Manco, Alberto Ponticelli, Paul Pope, Mateus Santolouco. Sal Cipriano, José Villarrubia (colorista), Madrid: Medusa Cómics (Editorial Hidra), 1a. edição (2018), capa-dura 17,5x26,5cm, 128 pág. ISBN: 978-84-17390-72-31-401-22827-9 [edição original: Anthoy Bourdain's Hungry Ghosts (New York: Berger Books) 2018]

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

valerian 3

Esse é o terceiro volume das aventuras de Valerian e Laureline, invenção genial de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières. Já contei algo aqui sobre os dois primeiros álbuns, bem editados pela Editora Sesi-SP (volume #1 e volume #2). As três histórias reunidas neste terceiro álbum, a exemplo do que se vê nos anteriores, são icônicas dos tempos de contracultura e transformações sociais dos anos 1970. Em "O embaixador das sombras", publicado originalmente em 1975, o leitor acompanha uma destemida Laureline, comprometida em resgatar Valerian, que foi sequestrado por um povo estranho, antiquíssimo e sábio, e cuja função no universo é conter a arrogância natural e despotismo dos terráqueos. Há uma miríade de curiosos seres alienígenas na trama, habitantes de uma espécie de ONU galática, lugar onde são debatidos temas de interesse tão complexos e contraditórios quanto aqueles que povoam a nossa, real. Christin e Mézières são otimistas, fazem seus personagens lutar pelo bem comum e a livre determinação dos povos da galáxia. Em "Nas terras falsificadas", de 1977, Laureline é novamente protagonista frente a um empalidecido Valerian (já existia empoderamento feminino nos anos 1970, esqueceram de avisar para as feminazis do século XXI). Acompanhamos o diletantismo de uma pesquisadora terrestre que usa Valerian para emular infinitas alternativas históricas para os séculos XIX e XX, nas quais clones dele repetidamente morrem. Trata-se de uma espécie de pesquisa acadêmica estéril e irrelevante. A história explicita críticas às universidades, ao afastamento entre o mundo acadêmico e o mundo real, das pessoas comuns, que são afetadas por descobertas científicas e processos de engenharia social engendrados por pesquisadores que mal conhecem as necessidades verdadeiras de seus concidadãos. Já na terceira das histórias deste álbum, "Os heróis do equinócio", o tema principal é o envelhecimento e a educação dos filhos. Valerian junta-se a três outros alienígenas numa competição que visa escolher quem melhor fecundará um planeta, repovoando-o. A história metaforicamente contrasta três alternativas de organização social, igualmente perigosas e perversas: o fascismo, o comunismo e a alienação pelas drogas, a fuga da realidade, a vida de contemplação. Muito interessante. Espero mesmo que a SESI-SP continue editando estas curiosas histórias. Vale! 
Registro #1324 (graphic novel #71) 
"Valerian Integral (volume #3)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2018), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0668-8[edição original: Valérian Intégrale - tome 3 (Paris: Dargaud) 1978]

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

las puentes de moscú

Ler as histórias de Alfonso Zapico sempre implica em um envolvimento emocional, como se ele apostasse em uma ligação afetiva para comunicar ideias e reflexões sobre assuntos nem sempre fáceis. Percebe-se isso em "Café Budapest", no qual ele trata do conflito árabe-israelense; em "El otro mar", em que fala da conquista espanhola das Américas; em "Cuadernos d'Itaca", que discute a experiência do quase exílio, de um estrangeiro como ele vivendo entre franceses e viajando pelo mundo, saudoso de sua Espanha e de seu asturiano fundamental. Nos seus volumes dedicados a obra de James Joyce ("Dublinés" e "La ruta Joyce"), esse mesmo registro afetivo é utilizado para descrever como ele se envolveu um um tema complexo, difícil de classificar e reduzir-se à forma de Graphic Novel. Enfim, em suas próprias palavras ele se considera "um dibujante de conflictos". "Los puentes de Moscú" é seu livro mais recente. Não se trata das pontes da Moscou russa, mas sim das pontes metafóricas de uma praça em Irún, Guipúzcoa, no país basco espanhol, conhecida como praça vermelha. Zapico desenha e adapta para o formato de história gráfica um encontro que teve em Guipúzcoa com dois amigos, Eduardo Madina e Fermin Muguruza. Madina é um político espanhol de origem basca, foi secretário geral do partido socialista, sofreu um atentado do grupo terrorista e independentista ETA e atualmente é professor universitário. Muguruza é cantor, instrumentista e produtor musical basco, muito respeitado em sua região e que mantém colaboração com músicos de todo o mundo. É também um sujeito comprometido (a seu modo) com o projeto independentista do País Vasco. Zapico e Madina são quase da mesma idade (quase quarenta ou quarenta e poucos, respectivamente), Muguruza um pouco mais velho (tem cinquenta e cinco anos). Zapico registra os vários encontros entre eles, conta suas biografias, os feitos mais decisivos de cada um, as controvérsias e polêmicas nas quais se envolveram, momentos tristes e também alegres de suas vidas. Das conversas, sempre ao redor de mesas de bar, de café, vinho ou pratos típicos bascos, brotam reflexões sobre um conflito que é difícil de compreender e mais difícil ainda de explicar. Não há conclusão possível. O que Zapico propõe é estabelecer pontes entre os indivíduos, discutir como cada um pode contribuir para esse complexo debate. Afinal, o tempo continua fluindo, como as águas dos rios que seguem para o mar próximo a Irún, as vidas seguem sendo vividas, e algum convívio pacífico entre membros de cada grupo (os nacionalistas e os idependentistas) possível. Vale! 
Registro #1303 (graphic novel #70) 
[início: 21/05/2018 - fim: 23/05/2018]
"Los pontes de Moscú", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 17x24 cm., 200 págs., ISBN: 978-84-96815-51-5

domingo, 22 de julho de 2018

trinity

"Trinity", nome código do teste real ocorrido em 16 de julho de 1945,  é uma versão em quadrinhos sobre o projeto que culminou na fabricação e explosão da primeira bomba atômica. Trata-se de um trabalho factualmente muito acurado. Jonathan Fetter-Vorm, jovem ilustrador norte-americano, baseou-se em trabalhos acadêmicos, uma dezena de livros sobre a história do projeto Manhattan e nas biografias dos dois principais envolvidos no projeto: o físico Julius Robert Oppenheimer e o general Leslie Groves (para os aficionados, há uma curiosa escultura dos dois em Los Alamos, clica aqui). Metade do livro conta rapidamente sobre os conceitos físicos relacionados a questão técnica de como construir uma bomba, das contribuições daquela brilhante geração de físicos que atuou no final do século XIX e na primeira metade do século XX (Pierre e Marie Curie, Rutherford, Einstein, Bohr, Heisenberg e outros tantos). Fala também da capacidade operacional e logística de Groves, que alcançou fazer com que milhares de pessoas trabalhassem no projeto de construção da bomba em dezenas de lugares diferentes do território americano - sobretudo os cientistas contidos em Los Alamos, no Novo México - sem saberem exatamente o que estavam fazendo, qual a finalidade daquilo tudo. Dizer que o projeto era secreto é quase um eufemismo. A segunda metade do livro é mais acelerada. Dá conta dos sucessos posteriores a primeira explosão experimental da bomba, a escolha dos lugares no Japão onde bombas daquele tipo poderiam ser lançadas (e o foram, em Hiroshima, no 06 de agosto e Nagasaki, no 09 de agosto, de 1945), o recrudescimento da guerra fria e da corrida armamentista, algo sobre os efeitos da radioatividade na saúde humana e sobre as questões éticas envolvidas no projeto. Óbvio, apesar da precisão das informações trata-se de uma graphic novel, de uma abordagem ingênua e sucinta de uma história complexa e cujos desdobramentos em certa medida ainda vivenciamos, pois a possibilidade de extinção da vida humana em decorrência de uma guerra nuclear total é algo tangível, real, desde 1945 até hoje. Mas, para um neófito no assunto iniciar sua jornada de estudos sobre a física dos processos nucleares ou a geopolítica da corrida armamentista não poderia pensar em algo melhor, mais apropriado. Sempre me lembro daquele pequeno fragmento de um documentário sobre Oppenheimer, em que ele fala da experiência de ver a primeira explosão da bomba (clica aqui). Ele usa os ensinamentos que Krishna (avatar de Vishnu, um dos três principais deuses do hinduísmo) dá a Arjuna no Bhagavad Gita para de alguma forma justificar-se (a vaidade nunca deixa de ser a mais curiosa e divertida das características humanas). Bueno. Em tempo: Ganhei esse livro de don Renato Cohen, amigo dos bons. E o li ainda em janeiro, quando estava em São Paulo, mas como resolvi enviá-lo pelos correios junto com tantas outras cousas que trazia de lá (e para não tê-las que carregar no avião) acabei deixando que ele fosse roubado, ai de mim. Não detalho aqui as circunstâncias do roubo reportado pela infame empresa que atende pelo nome de Correios brasileiros pois não quero irritar-me mais do que já me irritei neste ano. Apenas desejo que ela seja fechada, pois não serve nem para privatização, venda. É uma empresa canalha que precisa ser fechada e esquecida o mais rápida e definitivamente possível. Cabe dizer que tempos depois o Renato, sabendo de minha triste sina, mandou-me um novo exemplar. Vale! 
Registro #1297 (hq's, cartuns e mangás #69) 
[início - fim: 07/01/2018]
"Trinity: A história em quadrinhos da primeira bomba atômica", Jonathan Fetter-Vorm, tradução de André Czarnobai, São Paulo: Editora Três Estrelas (Grupo Folha de São Paulo), 1a. edição (2007), brochura 15,5x23 cm., 154 págs., ISBN: 978-85-65339-17-9 [edição original: New York: Farrar, Straus and Giroux / MacMillan Publishers) 2012]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

valerian 2

Nesse segundo volume das aventuras de Valerian e Laureline encontramos três histórias que são mesmo fruto dos anos 1970. Nelas são discutidos temas caros àquela época, assuntos polêmicos que começaram a ser debatidos também pelo grande público, como o de cuidado com meio ambiente, a busca por fontes alternativas de energia, a igualdade de gênero, as relações entre ideologia e poder, o caminho dos excessos com drogas ilícitas. Pierre Christin e Jean-Claude Mézières desenvolvem três histórias curiosas, que se não são tão contundentes quanto as três iniciais (volume #1) tem lá seu valor. Em "O país sem estrela", de 1972, somos apresentados a Ukbar, um bizarro mundo dividido entre homens e mulheres, habitantes de duas cidades-estado, nas quais os líderes escravizam sempre o gênero oposto e fazem uso de uma mesma fonte de energia em suas seculares contendas e guerras. Uma das funções de Velerian e Laureline, como agentes do Império Terrestre, é garantir o fluxo contínuo de matérias primas para Galaxity, sua capital. Para alcançar esse objetivo eles intervêm na disputa entre os dois povos. Em "Bem-vindos a Alflolol", também de 1972, repete o tema de exploração dos recursos naturais de um planeta. Valerian e Laulerine tomam partido dos habitantes de Alflolol, um povo alegre e nômade, que nem tinham ciência que seu planeta natal estava sendo explorado pelos terráqueos, pois suas viagens de férias duravam quatro séculos. Em "Os pássaros do mestre", de 1973, o tom é mais sombrio. Mézières e Christin provocam reflexões sobre a manipulação religiosa e política que populações inteiras podem experimentar, tornando-se escravos de um "guia genial", de um "mestre". Valerian e Laulerine ajudam a população a organizar uma resistência, uma revolta contra essa sociedade opressiva, libertando-os. Mesmo quando aborda temas complexos o tom é sempre bem humorado, de tal forma que são sutis, porém efetivas, a crítica social, a análise política e as reflexões sociológicas. As ilustrações são poderosas, monumentais. Assim como no volume anterior, neste encontramos uma entrevista recente com os autores, uma curta biografia deles e um posfácio onde se conta algo sobre a influência de Mézières e Christin nas gerações seguintes de cartunistas franceses. Vamos a ver se o SESI-SP continuará a produzir esses volumes (a produção completa em francês envolve mais de vinte álbuns). Logo veremos. Vale! 
Registro #1258 (hq's, cartuns e mangás #68)
[início: 25/10/2017 - fim: 22/11/2017]
"Valerian Integral (volume #2)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0413-64[edição original: Valérian Intégrale - tome 2 (Paris: Dargaud) 1973]

sábado, 27 de janeiro de 2018

Placas tectônicas

Gostei muito de "Placas tectônicas", graphic novel explicitamente autobiográfica de Margaux Motin, desenhista e quadrinista francesa, publicado originalmente em 2013. Se ler o livro foi divertido, escrever sobre ele envolve algum cuidado, afinal estamos em tempos "politicamente corretos" e da vulgaridade dos "lugares da fala": pode um homem escrever sobre um livro que fala sobretudo da psiquê feminina? (claro que pode, mas há hordas de mal humorados que diriam que não). O livro é um conto de fadas contemporâneo, um livro divertido, que usa o humor e a sensibilidade para falar de questões de nosso cotidiano, ou seja, de separação e perda, das dificuldades de conciliar trabalho e o especial ofício de ser mãe, das formas de explorar a sexualidade e capacidade de amar, dos sonhos e da realidade da vida, de como conhecer o próprio corpo e seus limites, de como conviver com quem partilhamos coisas em comum e com gente que detestamos por princípio. O traço de Motin é limpo, bonito mesmo de se ver, muito colorido e com boas invenções gráficas. O roteiro/texto vai do sarcasmo ao mais franco humor. As ilustrações incluem também alguns registros fotográficos que passaram por intervenção gráfica. Esses registros funcionam como um desvio poético, um descanso da tensão acumulado que por vezes alcança a narrativa. Bacana. Ela é hiperativa, vale a pena acompanhar seu blog no typepad (há coisas desde 2008). Vale! 
Registro #1256 (graphic novel #67)
[início: 07/01/2018 - fim: 11/01/2018]
"Placas tectônicas", Margaux Motin, tradução de Fernando Scheibe, São Paulo: Editora Nemo (Grupo Autêntica), 1a. edição (2016), brochura 17x24 cm., 2564 págs., ISBN: 978-85-8286-284-1 [edição original: La Tectonique des Plaques (Paris: Éditions Delcourt) 2013]

terça-feira, 7 de novembro de 2017

valerian

"Valerian" é uma história em quadrinhos que começou a ser publicada no final dos anos 1960, na icônica revista francesa Pilote. Desde então a equipe de criação dessas histórias bem humoradas de ficção científica, coordenada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, já produziu mais de vinte álbuns. Recentemente uma das histórias mais antigas, "O império de mil planetas", foi adaptado para o cinema, dirigido por Luc Bresson. Aproveitando o momento do lançamento dessa versão em filme a editora SESI-SP lançou dois volumes caprichados da edição integral das histórias de Valerian e sua companheira de aventuras Laureline. Nesse primeiro volume encontramos três histórias independentes: "Os maus sonhos", de 1967; "A cidade das águas movediças", de 1970 e "O império dos mil planetas", de 1971. O enredo das histórias segue um padrão narrativo. Valerian é um agente do espaço-tempo do século XXVIII, cujas missões envolvem basicamente evitar distorções na história da civilização, explorar mundos que possam fornecer matéria prima e energia, antecipar acontecimentos que possam prejudicar a idílica sociedade de seu tempo (na qual praticamente ninguém trabalha, usufruindo das benesses de um estado de bem estar social absoluto). O impacto visual do volume é mesmo algo poderoso. Certamente George Lucas pirateou um bocado de ideias e até enquadramentos inteiros que já estavam ali nas histórias de Christin e Mézières. Trata-se de experimentos de ficção científica, mas o foco é sempre no comportamento moral, no questionamento das ações dos protagonistas. Divertido mesmo. Por uns momentos voltei àqueles tardes vagabundas, onde o tempo parecia cansado e lento, que alternava a leitura de meus preciosos gibis com a dos livros do Monteiro Lobato, que recortava tirinhas dos jornais que meu pai sempre comprava (aos domingos havia tirinhas coloridas, mais aguardadas e disputadas). Cousas boas. Vale!
Registro #1235 (hq's, cartuns e mangás #66)
[início: 25/10/2017 - fim: 27/10/2017]
"Valerian Integral (volume #1)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2017), brochura 22,5x29 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-504-0279-6 [edição original: Valérian Intégrale - tome 1 (Paris: Dargaud) 1970]

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

dandara

"Dandara" é uma mini graphic novel, um bom trabalho produzido por dois jovens talentosos aqui de Santa Maria. O Pedro eu conheço muito bem, desde pequeno, filho de meus amigos Jamila e Marcos. A Jade só conheço de lenda (talvez um dia ele me apresente). Noutro dia encontrei com os Carara no glorioso Ponto de Cinema (não posso deixar de citar que o Dante também estava presente, sempre direto em suas observações e comentários, sempre querendo saber das cousas que leio, curioso dos bons que é). O Pedro mostrou-se esse seu primeiro trabalho no formato fanzine, vamos chamá-lo assim, pois antes ele se dedicava a intervenções urbanas com grafite e matrizes em lambe-lambe. Li ali mesmo, no Ponto. Disse a ele que não me furtaria de fazer um pequeno registro aqui no "Livros que eu li", afinal de contas a ideia é sempre registrar o que leio, fazer curtos comentários que substituirão um dia minhas memórias, no tempo em que o velho e paciente Alzheimer derretê-las, levá-las para o infinito, arre!, ai de mim. A "Dandara" do Pedro e da Jade rende homenagem a uma mulher negra e forte, guerreira, dos tempos do Brasil colônia. Como os autores registram, ela quase sempre é lembrada como "a esposa de Zumbi dos Palmares", mas esse tratamento diminui sua importância e valor. O pouco que se sabe dela Pedro e Jade registraram em seu fanzine: era boa em capoeira, tinha talento para estratégia, luta armada e era boa caçadora. Li noutro lugar que ela pode ter tido três filhos com Zumbi e suicidou-se na prisão, recusando-se a voltar à condição de escrava. Eu nunca havia ouvido falar nela, portanto aprendi uma coisa boa naquele dia. As coisas permanecem e são transmitidas de uma geração a outra quando são ouvidas e contadas e quando restam registradas num meio que sobrevive ao tempo de vida dos homo sapiens. O Pedro e a Jade fizeram a sua parte. E eu faço a minha. Longa vida a memória de Dandara! Evoé Dandara, evoé! 
Registro #1222 (hq's cartuns e mangás #65)
[início - fim: 03/10/2017]
"Dandara", Pedro Carara e Jade Malagmam, Santa Maria / RS: Editora do autor, 1a. edição (2017), fanzine 7,5x10 cm., 6 págs., sem ISBN

sábado, 7 de outubro de 2017

tartarin de tarascon

Aborrecido em uma fila de supermercado eis que vejo em exposição esse livrinho, produzido para ser distribuído e vendido em bancas de jornal. Lembrei de quando li as aventuras de Tartarin de Tarascon pela primeira vez, numa edição já surrada que encontrei na boa e velha biblioteca pública de São Bernardo do Campo, que já havia retornado dos campos do esquecimento quando li a versão do Neil Gaiman dos mitos nórdicos, recentemente registrada aqui. Essa versão do grande livro de Alphonse Daudet, que foi publicado originalmente em 1872, é em quadrinhos e faz parte de uma coleção de clássicos ilustrados. Tartarin é um sujeito falastrão, que conta prodígios que nunca vivenciou. É uma espécie de fusão entre Don Quijote e Sancho Panza, mas sem a nobreza confusa do primeiro ou a capacidade de autocrítica do segundo. Pressionado por seus concidadãos em Tarascon, cidade da Provença francesa, ele parte para a Argélia para caçar leões e confirmar sua fama. Tendo mais sorte que juízo (como se diz aqui pelo sul do Rio Grande do Sul) mesmo experimentando infortúnios sem conta ele acaba voltando para casa, com a pele de um leão cego, que abateu por acaso, e também com uma dromedário apaixonada. Daudet alcança descrever com humor o que há de mais ridículo na condição humana. Tartarin é um personagem trágico, patético, que lamenta sua própria desgraça e tem consciência que foi o artífice das ilusões que perdeu, enfim, trata-se de um homem ridículo, como quase todos os homens são, que só consegue sobreviver e suportar as vicissitudes da vida sempre e progressivamente mentindo para si próprio, mentindo muito mais do que mentirá ou enganará os demais. Ulalá. Talvez seja a hora de reler o texto de Daudet. Cousa boa.
Registro #1219 (hq's cartuns e mangás #64)
[início - fim: 05/04/2017]
"Tartarin de Tarascon", Alphonse Daudet, tradução de Caroline Chang, adaptação, roteiro e desenhos de Pierre Guilmard, colorização de Louisa Djouadi, Levallois-Perret / France: Hachette Filipacchi Médias / Del Prado do Brasil (Grandes clássicos da literatura em quadrinhos, vol. 22), 1a. edição (2014), capa dura 19,5x26,5 cm., 60 págs., sem ISBN [edição original: (Levallois-Perret/France: Editions Adonis) 2010; Aventures prodigieuses de Tartarin de Tarascon 1872]

sábado, 4 de março de 2017

nomes de lugares

Noutro dia encontrei esse volume das adaptações que Stéphane Heuet, designer e quadrinista francês, tem feito do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. A experiência de ler essas adaptações jamais substituirá os encantos dos originais, mas deve-se reconhecer que elas são muito bem feitas. O leitor entra no clima dos livros, alcança algumas das alegrias do texto por meio das soluções gráficas produzidas por Heuet. Neste volume (o sexto da coleção produzida até aqui por Heuet) encontramos um dos menores capítulos, "Nome de lugares: O nome", que é justamente o que encerra o primeiro volume do ciclo. Nele encontramos os fragmentos de memórias do narrador de seus dias de juventude, quando imaginava viagens para lugares caros à sua imaginação, como Florença, Parma, Balbec e Veneza, e quando fez os primeiros contatos mundanos com Gilberte, a filha de Odette e Swann, e também com a própria Odette. Assim, as tardes no Bois de Boulogne ou nos Champs-Élysées existem apenas para esses dois propósitos quase amorosos: os encontros para jogos e brincadeiras infantis com Gilberte ou a discreta corte à Sra. Swann, pessoa que a família do narrador interdita de visitá-los oficialmente. É difícil dizer se um dia Heuet alcançara terminar suas adaptações do ciclo. Gostaria mesmo de ver esse projeto finalizado. A edição brasileira continua bem cuidada. Incluí um mapa da Paris retratada no livro, bem como um glossário dos personagens e uma miríade de informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust e que possibilitam uma apreciação mais prazerosa do livro. Divertido, mas vamos em frente. Em tempo: [Semanas atrás morreu um sujeito que eu admirava muito, autor de um projeto semelhante a este de Heuet, um irlandês chamado Frank Delaney. Ele produzia podcasts semanais com segmentos do Ulysses, de James Joyce. Sua voz, ritmo e humor sempre foram uma inspiração. Ele chegou a gravar integralmente os nove primeiros capítulos do livro, e avançava bem pelo décimo, quando a morte interrompeu seu projeto no último 22 de fevereiro. É pena]
[início 20/02/2017 - fim 21/02/2017]
"Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann: Nomes de lugares (volume 6)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, Rio de Janeiro: editora Zahar, 1a. edição (2014), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-378-1304-1 [edição original: À la recherche du temps perdu (Du côté de chez Swann - Noms de pays: le nom) Guy Delcourt productions, Paris 2013]

domingo, 27 de novembro de 2016

yo, otro libro egocéntrico

Foi Sílvia, amiga querida, que lá de sua atrevida Barcelona sugeriu a Helga que comprasse algo do Juanjo Sáez. Juanjo é um quadrinista, roteirista e ilustrador espanhol, ou melhor, catalão (não podemos confundir essas cousas quando falamos de um legítimo barcelonês). Começou em seu ofício com fanzines e revistas alternativas, de arte e cultura. Posteriormente manteve colaborações com jornais e revistas de grande circulação. Desde do início dos anos 2000 publicou quase uma dezena de volumes de antologias de seus cartuns e histórias em quadrinhos (para ele mesmo, que assina uma introdução, trata-se de uma forma de fixar em livro coisas que desapareceriam com os jornais e também uma forma de organizar-se mentalmente). O traço é curioso. Seus personagens não tem olhos, nariz ou boca. Só nos momentos em que experimentam uma forte emoção é que ganham traços de alguma parte da anatomia de seus rostos. Em compensação seus personagens falam, muito, tem opinião sobre tudo, refletem sobre si e o mundo. As histórias reunidas em "Yo, el otro libro egocéntrino" foram publicadas originalmente nos anos 1990 e 2000 (o livro é de 2010). O livro oferece justamente o que o título promete. São histórias centradas no autor, que sempre é um personagem em suas histórias. Ele também faz uso de um alter ego que policia suas ideias, critica continuamente suas escolhas, reclama de sua timidez e inação. Parece uma brincadeira contínua com o shakespeariano fantasma do pai do Hamlet. Como todo bom cartunista ele abusa da ironia e do sarcasmo, nunca edulcora a vida e o comportamento dos homens (nem tampouco utiliza seu traço para fazer proselitismo político, explicitando alguma servidão mental e política a algum grupo - cousa que muitos de seus congêneres brasileiros se orgulham em fazer). Enfim, gostei. Grato Sílvia pela lembrança. Vamos a ver se a encontro (e encontro mais coisas do Juanjo) numa próxima viagem à Espanha. Em tempo (1): Juanjo coloca no Facebook e no Twitter um bocado de ilustrações bacanas. Em tempo (2): Conceitualmente, o estilo de Juanjo lembra as coisas do Angeli, apesar do Angeli não ser nada verborrágico e utilizar-se mais da força de seu traço comparativamente a seu texto. Sei lá. Talvez um teórico dos quadrinhos um dia possa me explicar se essa associação tem algum valor. Vale. 
[início: 06/11/2016 - fim: 15/11/2016]
"Yo: El otro libro egocéntrico", Juanjo Sáez, Barcelona: Reservoir Books (Random House Mondadori), 1a. edição (2010), capa-dura 24,5x16,5 cm., 232 págs., ISBN: 978-84-897-2230-4

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ulisses

Já havia lido essa versão mangá do Ulysses numa tradução para o inglês (publiquei um registro da divertida experiência num já distante março de 2013). Recentemente a LPM publicou a versão brasileira. Os desenhos são exatamente os mesmos. A tradução para o português não me parece ter se utilizado de material de nenhuma das três traduções já consagradas do livro (a do Antônio Houaiss, a da Bernardina Pinheiro e a do Caetano Galindo). Continuo achando o que já escrevi naquele antigo registro. O resultado não é ruim, mas obviamente condensado demais para que um sujeito possa dizer que conhece o Ulysses de Joyce (muito embora neste curioso início de século XXI talvez seja possível afirmar que leu-se o Ulysses deste jeito). Apenas algumas passagens emblemáticas de cada um dos 18 capítulos do livro são apresentadas. Algumas soluções são realmente interessantes, outras algo equivocadas, literais ou frouxas demais, sem nada das sutilezas de Joyce (traduzir o "Mrkgnao! the cat said loudly" por "Miaaau", é uma bobagem). Falta muito do humor de Joyce no livro (claro, o mangá oferece alguma graça, mas nada que se compare ao que Joyce faz). É sempre divertido ver Bloom, Molly, Stephen e tantos outros personagens com aqueles olhos enormes característicos dos mangás japoneses. Após esta familiarização talvez um jovem leitor se anime e algum dia enfrente o original (ou uma cinco traduções disponíveis para o português, afinal além das três citadas lá em cima, há duas outras publicadas em Portugal, a do João Palma-Ferreira e a do Jorge Vaz de Carvalho). Os prazeres que o Ulysses oferece nunca se esgotam, já se sabe. E haverá muito mais Joyce por aqui antes do final do ano. Vale.
[início: 28/10/2016 - fim: 16/11/2016]
"Ulisses", James Joyce, tradução de Drik Sada, Porto Alegre: LPM (coleção Pocket Mangá, v. 1220), 1a. edição (2016), brochura 105,x17,5 cm., 400 págs., ISBN: 978-85-254-3413-5 [edição original: Ulysses (Tokyo: Kazuki / East Press) 2013]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

cuadernos d'itaca

De todos os bons trabalhos que já li de Alfonso Zapico esse é o mais pessoal, mais intimista, mais especial. São onze histórias curtas, onde ele faz uma espécie de balanço ou ajuste de contas, tanto de sua vida, sua história pessoal, quanto de seu ofício, sua arte. "Cuadernos d'Itaca" está escrito em asturiano, língua que alguém que entenda o português de Portugal e algo do espanhol da Espanha acaba entendendo também, com um justo e necessário esforço. Abundam os "X" galegos e os "LL" catalães (mas só mesmo um linguista para me ensinar como se deve ler essa língua). De qualquer forma aprendi que pelo menos 400 mil pessoas a dominam bem, ao menos como segunda língua. Como vasto é o mundo. Bueno. Vivendo há muitos anos na França Zapico retorna de férias a sua Astúrias natal e sente-se um estrangeiro. Ele se inspira nas viagens de Ulysses pelo mar Egeu para descrever algo de sua "Señardá" (quem diz a palavra que descreve saudade só existe em português não conhece asturiano). Umas gaivotas lhe mostram o caminho. O inspiram a recolher de seu caderno de rascunhos as histórias que contem algo de sua terra. Zapico escreve sobre seu tio Milio, que perdeu o emprego em uma fábrica estatal de equipamentos bélicos; sobre sua decisão de emigrar ao norte, à França; sobre sua casa editorial (a Astiberri), como se fossem uns piratas no mar revolto da edição de livros; faz uma sociologia selvagens dos hábitos franceses; descreve as dificuldades de uma mulher espanhola em conseguir cargos de comando num mundo europeu machista; fala do fechamento das minas asturianas de carvão e o impacto disto na sociedade local; filosofa sobre os tempos modernos, do feroz neoliberalismo que compromete o futuro de uma sociedade que se imaginava sempre ser possível prosperar; conta a história de uma senhora de quase cem anos que emigrou como ele para a França nos tempos da guerra civil espanhola; fala da experiência de viver uns dias na Polônia, num evento literário, um país tão complexo como o seu (afinal, como ele diz, parafrasendo Tolstói "todos os países que parecem felizes são iguais, mas todos os países infelizes o são cada um à sua maneira". Há que se respeitar um autor que usa sua arte para interpretar honestamente o mundo e o tempo que vive (não há um pingo de autoindulgência, comprometimento ideológico ou partidário, cabotinismo ou hipocrisia em suas histórias - cousa que muitos escritores brasileiros se aferram em fazer, imaginando que todos seus eventuais leitores são incapazes de pensar por conta própria). Enfim, como já nos ensinou Auden (traduzido por José Paulo Paes e certamente lido pelo Zapico), todos nós em algum momento nos perguntamos: "Para onde aponta esta jornada, que o vigia do cais, / Parado sob a sua má estrela, inveja tão amargamente, / Enquanto as montanhas nadam para longe em braçadas lentas, calmas, / E as gaivotas abdicam seu vôo? Promete acaso uma vida mais justa?”. Evoé Zapico, evoé. 
[início: 18/08/2016 - fim: 25/09/2016]
"Cuadernos d'Itaca", Alfonso Zapico Fernández, Oviedo/Espanha: Ediciones Trabe, 1a. edição (2014), capa-dura 24x30 cm., 89 págs., ISBN: 978-84-8053-747-6

sábado, 27 de agosto de 2016

tudo já foi dito

Conheci o Pedro Balboni em Porto Alegre, na última edição do Parada Gráfica, aquela feira de publicações independentes e artes gráficas onde sempre encontramos gente e produções bacanas. Desde 2008 ele produz suas joaninhas filosóficas em tirinhas bem humoradas (e o humor sempre é coisa séria). Atualmente elas são veiculadas em várias mídias (e podem ser acompanhadas no site "João & Joanas"). Curiosamente ele não é desenhista. Usa ferramentas digitais em suas ilustrações, mas seu foco é no roteiro, nas histórias. "Tudo foi dito" é resultado de um projeto. Pedro convidou dezoito jovens artistas plásticos e/ou ilustradores para dividirem uma história sua, que envolve uma conversa entre um mestre Zen e um efebo, um aprendiz. Cada um deles teve direito a ilustrar livremente uma página a partir de umas poucas frases do roteiro original. Nenhum teve acesso ao material produzido pelos demais antes da edição final (assinada pelo Pedro). As propostas são muito variadas. Há muitos desenhos tradicionais, a lápis, cera, grafite ou caneta preta; coisas feitas direto no Photoshop; peças finalizadas com tinta nanquim; originais pintados com tinta guache e posteriormente digitalizados. A cada página o leitor tem uma surpresa e precisa reconstruir parte do nexo da narrativa, pois tudo ali sofre contínuas metamorfoses, de cor, cenário e personagens. A ambientação que quase todos artistas criou gravita o mundo oriental, mas o argumento parece brotar do Tractatus Logico-Philosophicus do Wittgenstein: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". A edição do livro foi viabilizada por financiamento coletivo (crowdfunding, em português). Interessante.
[início: 06/08/2016 - fim: 23/08/2016]
"Tudo já foi dito ou Minutos de silêncio ou Ensaio para algo bom", Pedro Hutsch Balboni (organizador), ilustrações de Daniele Postoiev, Fex, Yuri Amaral, Jack Paulo Salazar, Pedro Camargo, Guilherme Petreca, Renato Hirata, Fabio Lopes, Camila Mituzani, Herbert Berbert, Cenira Campos, Gustavo Borges, Renata Ribak, Marcio Aurelio Bertoli, Andre Forni, Milton Mastabi Filho, Erick Carges e Douglas Docelino, São Paulo: editora Catarse, 1a. edição (2014), brochura 16x23 cm., 62 págs., ISBN: 978-85-91-47836-1.

sábado, 14 de maio de 2016

justiceiros

Acompanho o trabalho gráfico do Rafael Koff há um bom tempo. Já registrei aqui pelo menos quatro outros livros de tirinhas dele: "Blue", "Cueca por cima das calças", "Dúvidas cruéis de um idiota" e o impagável "Jesus". "Justiceiros" é o mais recente, publicado no final do ano passado. Aqui ele cria super-heróis que querem alcançar fama e sucesso, mas acabam demonstrando serem inaptos para esse ofício, apesar de seus super poderes. A qualidade gráfica e acabamento do livro são notáveis e o traço dos quadrinhos bacana, mas não gostei dos argumentos, do roteiro. São dez histórias curtas, que contam a gênese, conflitos e ocaso do grupo (Pombo Negro, Garota Incrível, Arqueiro e Hiperman). As histórias são bem humoradas e seguem o padrão de aventuras típico do gênero, mas mesmo considerando que se trata de uma paródia tudo parece artificial demais, repetitivo demais, pois sempre lembram soluções já utilizadas repetidas vezes no universo da Marvel ou da DC Comics. Talvez o tempo melhore as histórias. Veremos. Cabe lembrar que os livros independentes do Rafael podem ser adquiridos através do site Wix (e também que ele está em campanha pela arrecadação de recursos para seu próximo livro no site Catarse). Vale.
[início - fim: 28/04/2016]
"Justiceiros: Em busca da fama", Rafael Koff, editora Manuzio, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 125 págs., sem ISBN