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terça-feira, 17 de novembro de 2020

instante infinito

Esse catálogo corresponde a uma exposição de trabalhos dos industriosos Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo, que aconteceu entre 26 de agosto e 16 de outubro de 2017, na Galeria de Arte BDMG Cultural, em Belo Horizonte. Mas não só isso. Há também reproduções de trabalhos produzidos para uma outra exposição de Jorge dos Anjos (Gravadura a Ferro e Fogo, na AM Galeria, em Belo Horizonte, em 2009, na qual Ricardo Aleixo também participou). A edição é bilíngue, com textos em português e inglês, assinados por Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Rogério Faria Tavares e Ricardo Aleixo (que foi o curador da exposição). As fotografias dos trabalhos plásticos são assinadas por André Burlan. O projeto gráfico do catálogo é assinado por Irena dos Anjos e André Burlan. As esculturas de Jorge dos Anjos, peças de aço dobradas, soldadas e vazadas, em grandes dimensões, lembram os trabalhos de Amílcar de Castro e/ou de Franz Weissmann (obras que já vi de perto várias vezes). Sei que seria legal experimentar o impacto estético de ver os trabalhos de Jorge dos Anjos da mesma forma que vi as destes dois grandes escultores. As obras de Ricardo Aleixo incluídas no catálogo são cartazes em grandes dimensões, propostas que envolvem diversos procedimentos técnicos (caligrafia, adesivos, estêncil e carimbo) aplicados à seus poemas visuais. Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo assinam juntos "Gravaduras a Ferro e Fogo", fusão de poemas visuais de Aleixo com letras marcadas/queimadas em telas de feltro, usando enormes "ferretes" de metal. Claro, a experiência de folhear um catálogo, bidimensional, nem de longe alcança reproduzir o que deve ter acontecido nos espaços da galeria de arte onde deu-se a exposição originalmente. De qualquer forma, uma exposição não pode continuar em sua proposta original para sempre (ao menos não em uma galeria convencional). Resta ao vivente curioso os catálogos. Vale registrar que a versão digital deste catálogo é bem bacana e pode ser visto acessada clicando aqui!. Bom divertimento. E cabe dizer também que só em lugares como Inhotim  ou em outras propostas museológicas muito particulares ao redor do planeta tornam possível oferecer perenidade a obras deste tipo (como já conferi no bom livro Arte e Natureza, de Serena Ucelli di Nemi). É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1589 (catálogo #12) 
[início: 01/10/2020 - fim: 11/10/2020]
"Instante Infinito", Jorge dos Anjos, Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Galeria de Arte BDMG Cultural, 1a. edição (2017), brochura 14x21, 64 págs, sem ISBN.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

quem faz o quê?

Já faz anos que não convivo com crianças. Houve uma época em que todos os amigos tinham filhos, em que nasceram minhas sobrinhas queridas, Clara e Victória, em que tornei-me padrinho do Dante. Sempre gostei de conversar com todas elas e também presenteá-las. Depois as crianças cresceram, os casais se separaram, o ritmo da vida mudou e o hábito - que sabe ser um fiel camareiro, porém sabe também ser cruel - as colocam em um lugar inacessível, longe da minha rotina. Agora que eu tenho um fenótipo mais próximo daquela antiga definição que uns amigos fizeram nos tempos da USP, a de ser o "velho e cansado Guina", aquele que levava tudo a sério, mais para taciturno que para brincalhão, não sei mais o melhor jeito de se aproximar de crianças e jovens, sobretudo nestes tempos rudes e estúpidos que vivemos. Paciência. Noutro dia achei esse livro do Ricardo Aleixo, um livro onde um único poema  tem cada um dos versos ilustrado em páginas duplas (são desenhos bem coloridos, assinados por Regina Miranda). Lê-se o poema e recuperamos algo das alegrias de conviver com crianças, vivenciar aqueles estalos adoráveis, ver o furacão encarnado que cada uma delas tem dentro de si.  Certamente as crianças (e as crianças grandes) vivem um bom momento lendo e folheando esse livro de Ricardo Aleixo e Regina Miranda (ouvendo-o, como discute o poema). Deixo ele aqui: "Morrer é com os vivos. / Chorar é com as nuvens. / Saber é com os livros. / Separar é com as margens. / Voar é com as pedras. / Pisar é com os pés. / Piscar é com as pálpebras. / Calar é com a voz. / Morder é com os dentes. / Durar é com o tempo. / Lembrar é com os elefantes. / Soprar é com o vento. / Ver é com os fatos. / Mascar é com as cabras. / Assustar é com os ratos. / Desdobrar-se é com as cobras. / Tatear é com os cegos. / Roer é com os esquilos. / Ouvir é com os morcegos. / E ouver... / é com os crocodilos.". Vamos a ver se encontro algum jovem casal que tenha alguma criança em casa para presenteá-lo com esse "Quem faz o quê?". E segue o baile. Vale!
Registro #1579 (infanto-juvenil #50)
[início - fim: 21/09/2020]
"Quem faz o quê?", Ricardo Aleixo (texto), Regina Miranda (ilustrações), Belo Horizonte: Formato Editorial, 1a. edição (1999), brochura 20,5x23 cm., 28 págs., ISBN: 85-7208-240-9

domingo, 13 de setembro de 2020

ricardo aleixo

A coleção "Encontros"  da editora Azougue reúne entrevistas com músicos, filósofos, arquitetos, dramaturgos, poetas e tantos outros artífices do pensamento, brasileiros e latino-americanos. Neste volume, lançado em 2017, encontramos dezenove entrevistas e/ou depoimentos de Ricardo Aleixo, premiado e respeitado poeta mineiro, lá das terras altas do Campo Alegre de sua Belo Horizonte fundamental. As fontes deste material são variadas: nove entrevistas haviam sido publicadas em jornais ou revistas, cinco foram transmitidas originalmente pela televisão, uma pelo rádio e três em meios digitais. Uma última foi gravada pela organizadora da coleção, Telma Scherer, após uma das performances de Aleixo. A mais antiga é de 1996 e a mais recente é de 2014. Como é natural neste tipo de registro, de linguagem informal e que gravita o momento específico da conversa, em algumas encontramos ênfase na história pessoal e influências na formação, noutras é do projeto estético e das técnicas que se fala. Todavia, apesar de temporalmente afastadas por quase duas décadas observa-se notável uniformidade nelas, além de complementaridade, pois a cada entrevista ou depoimento o leitor tem a chance de rever uma ideia, conferir o acerto dos caminhos antes projetados, relembrar um dado biográfico. Enfim, o volume é um fértil depósito de informações que progressivamente se somam. John Cage, ora silente, ora tonante, paira sobre as dezenove entrevistas, soberano, mas Aleixo também rende homenagens às suas, digamos assim, Musas poéticas, que são os laços familiares, Augusto de Campos, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Décio Pignatari, Exu e seus caminhos, o futebol e a música, a ideia e os atos de liberdade, a oralidade. A entrevista que mais gostei é de 2010, foi provocada por Fernando Pérez e Guilherme Ribeiro e publicada em uma revista universitária chilena (clika aqui e lê). Entretanto, como já registrei acima, todas elas são muito boas. Nada supera a leitura de uma obra (e no caso do Aleixo, também a fruição ao vivo de seus atos performáticos, seus cantares poéticos), mas neste volume o leitor tem a chance de aprender algo sobre a formação, processo de criação e estímulos intelectuais de um grande artista brasileiro. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1567 (perfis e relatos #101)
[início: 07/10/2019 - fim: 20/09/2020]
"Ricardo Aleixo: encontros", Ricardo Aleixo, Telma Scherer (organização), Rio de Janeiro: Azougue (Coleção Encontros: a arte da entrevista, #54), 1a. edição (2017), brochura 14x28 cm, 248 págs., ISBN: 978-85-79202-16-2

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

pesado demais para a ventania

Mário de Andrade já nos ensinou que "há uma gota de sangue em cada poema". Já Ricardo Aleixo nos ensina que neles além de sangue há dor, revolta, angústia e memória de crimes, assim como também inteligência, estratégia, técnica e ação. Nesta poderosa antologia o leitor encontrará muitos exemplos do ouro fino que Aleixo tem garimpado na lavra das Musas desde o início dos anos 1990. Já registrei aqui vários dos livros nos quais esses poemas foram publicados originalmente: "A roda do mundo", de 2004; "Máquina zero", de 2004; "Modelos vivos", de 2010; "Impossível como nunca ter tido um rosto", de 2015 e "Antiboi", de 2017. Mas como não conheço todos seus livros anteriores, deve haver poemas coligidos de "Festim", de 1992; "Trívio", de 2002 e "Mundo palavreado", de 2013. A antologia "Pesado demais para a ventania" reúne 105 poemas distribuídos em seis conjuntos, envelopados por dois outros, soltos, um que abre o volume, como numa invocação, "Língua lengua", e outro que o encerra, "Meu negro", uma vibrante e potente coda. O que registrar dos seis conjuntos, sem falar muita bobagem, sem os macular com leituras tortas? Vamos a ver: (i) Em "Desde e para sempre" fala-se de família, de mitologia africana, de memórias de infância, genealogias, faz-se homenagens; (ii) Em "Outros, o mesmo" o poeta brinca e joga para valer com tipografia, com as palavras, com a métrica, registra certos espantos; (iii) Em "Ter escrito ainda não existe" reúne concretos jogos poéticos, reflexões sobre o ofício de poetar, nos conduz pelo caminho da gênese de conceitos, ideias, poemas e fragmentos da memória do autor; (iv) "O coração, meu limite" sensualiza o verso, fala-se de amor, consciência do corpo, musas mulheres, sexo; (v) Em "Multidão nenhuma" o poeta se metamorfoseia num ente noturno que caminha pela cidade, flana por ela, confronta sua belo horizonte fundamental, tenta olhar de longe e de perto as coisas, ajustando o foco da vida; (vi) Em "Queridos dias difíceis" o poeta rosna para o mundo, pisca bravo para a crítica, doma sua fera cidadã, fala dos caminhos sem volta, mostra-se pronto para um combate, pergunta-se. Os poemas quase sempre parecem brotar de algo marcante, da memória, da vida, do sangue, mas possuem, como num palimpsesto, camadas superpostas de técnica, erudição, intuição poética, influências, apuro, espantos. Sorte de quem ler esse livro, ler esses poemas, tentar decifrar esse negro enigma. Evoé Aleixo, evoé. Vale! 
Registro #1313 (poesia #98) 
[início: 10/06/2018 - fim: 15/08/2018]
"Pesado demais para a ventania", Ricardo Aleixo, São Paulo:Todavia livros, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-93828-66-9

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

antiboi

"Antiboi" reúne parte da produção poética mais recente de Ricardo Aleixo, engendrada entre 2013 e 2017. Digo "parte de sua produção" pois há cousas dele que só sabe quem o vê performando em um evento, quem alcança um vídeo de uma apresentação dele, quem participa de uma aulaoficina no Lira, seu laboratório de criação e pesquisa. Talvez um dia os gadgets tecnológicos possibilitarão o registro também desta sua faceta artística, mas por enquanto quem vive longe da rota de apresentações do Aleixo tem que se contentar com a obra física, aquilo que resta impresso, disponível num livro. Pois "Antiboi" reúne 33 poemas. A grande maioria é de propostas curtas, sintéticas, não exatamente crípticas, mas que cobram do leitor um esforço para entender as camadas no palimpsesto de signos, conceitos, ironias e jogo verbal. Uns poucos poemas são mais longos, incapazes de se reduzir àquela fórmula de concretude máxima dos demais e se esparramam por duas ou mais laudas, como se quisessem fazer-se entender melhor. Nestes o leitor encontra o Aleixo mais reflexivo, que se deixa navegar. O conjunto de poemas espelha preocupações ora políticas e ora afetivas. O sujeito vê o mundo, o denuncia e confronta, radicaliza num embate que sabe ser necessário. Todavia, se faz da poesia ferramenta de luta e provocação, não se esquece do homem que vive uma vida plena, que tem uma história, uma memória rica de ensinamentos familiares, que experimenta a benquerença, não se embrutece, como aconteceu com Fafner, por exemplo, naquela mitologia antiga. Alguns dos poemas curtos funcionam como statements, declarações, aforismos, gritos de rua, plataformas. Outros conjuram carinho e respeito a pessoas queridas, figuras públicas, como num tríptico sobre Milton Nascimento, Elza Soares e Luiz Melodia, ou anônimas, de seu círculo familiar e de amizades. O livro inclui um ensaio curto de Fábio Belo, que analisa certas implicações estéticas dos poemas à luz da psicanálise e fala sobre Antiboi como significante de resistência, de resistência ativa, que supera obstáculos. Interessante. E vamos em frente. Em tempo: dos demais livros dele que li deixei registros, então  clica!.
Registro #1230 (poesia #89) 
[início: 10/10/2017 - fim: 13/10/2017]
"Antiboi", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: editora Crisálida, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-87961-87-7

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

a roda do mundo

Esse curioso livro reúne dois conjuntos de dez poemas, "Nos, os bianos" e "Orikis", de dois autores da mesma geração e igualmente fortes, Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo. Do Aleixo já li vários livros ("Modelos vivos", "Impossível como nunca ter tido um rosto", "Máquina zero"), do Edmilson nunca havia lido nada. Como o antropólogo e também poeta Antonio Risério explica em uma breve introdução ao livro, os dois poetas retrabalham coisas e espíritos muito antigos, característicos de lugares distintos do continente africano, dando-lhes a roupagem para que sejam incluídos no repertório cultural contemporâneo brasileiro. Edmilson é tributário da etnolinguística Banto e Aleixo das culturas Jeje e Nagô. Os dez poemas de "Nos, os bianos", de Edimilson, parecem cânticos, letras de uma teogonia fragmentada, fundida a elementos de um sincretismo em construção. Nos dez de Aleixo, em "Orikis", faz-se um censo poético dos orixás, com o poeta - feito um Janus - olhando simultaneamente para os arquétipos desses ancestrais divinizados e para o leitor desse nosso tempo conturbado. O livro inclui um glossário de termos bantos e iorubás, além de uma pequena bibliografia. São vinte poemas brevíssimos, mas muito poderosos. Evoé.
Registro #1216 (poesia #87)
[início: 02/09/2017 - fim: 08/09/2017]
"A roda do mundo", Ricardo Aleixo, Edimilson de Almeida Pereira, Belo Horizonte: Objeto Livro / Segrac,  2a. edição (2004), brochura 11x20 cm., 48 págs., sem ISBN

quarta-feira, 12 de abril de 2017

máquina zero

São doze poemas. Quase todos curtos, quase todos hiper destilados, potentes e cortantes, férteis em propostas e associações. Ricardo Aleixo os publicou no início destes anos 2000 (e fez a capa, projetou, editou, fabbro que é). Os poemas têm títulos, títulos-valise: (i) Máquina zero; (ii) Labirinto; (iii) Confidência; (iv) Paupéria revisitada; (v) Teofagia; (vi) Antropofagia; (vii) Autofagia; (viii) Como realmente é; (ix) Dois exercícios de língua pária; (x) O Belomorte; (xi) Exercícios de lira maldizente e (xii) Anti-ode: Belorizonte. Nos curtíssimos primeiros sete o poeta (i) deambula por Berlin e vê as gentes (se perde e se acha, entre sons, imagens e ideias); (ii) caminha como um grego por uma cidade que conhece como a sola de seus pés (mas sabe que o homem que nunca se perde nunca se acha); (iii) empresta do Machado sarcasmo e palavras duras para um poeta rival; (iv) volta a tomar emprestado, desta vez uma ironia, do e.e. cummings, sobre as dificuldades da poesia original ser entendida e publicada; (v) engole hóstia e passado mineiro, como um Chronos mirim; (vi) flerta e repasta os modernos, Oswald à frente; (vii) como velho putanheiro, perde conas mas não a verve. Os três seguintes (oitavo, nono e décimo) mostram: (viii) como o poeta usa sua arte como chave, como ferramenta para entender melhor os mecanismos do mundo e atuar: no oitavo para continuar uma reflexão importante de onde a Wislawa parou (faz um bicho homem vomitar seu ódio, humanizando-o); (ix) como provocar um outro tipo de terrorista, aquele que parece colega e igualmente usa a palavra, mas em vão e com eivada mão; (x) como deixar vazar da memória um primo mentiroso, cheio de imaginação. O penúltimo poema (xi) é o mais longo, e aquele onde o poeta descreve o mundo das letras, da literatura, fala de como seu ofício é corrompido por maus artífices (ou canalhas mesmo), onde disserta ativista e crítico, torna-se muso de si mesmo, inspira-se na aridez e não se furta acusar, apontar erros. No último (xii) ele confronta duramente sua cidade, sua belo horizonte fundamental, com um rabo do olho longe, lá na Alexandria de Kaváfis. Li o livro várias vezes, umas tentando contar quantas vezes a ideia de ofício aparecia, noutras conferindo citações e associações, por vezes só apreciando as ilustrações (capa, duas ou três reproduções fotográficas, duas ou três pequenas vinhetas/retrancas) e os aforismos do verso da capa. "Máquina zero", o livro, parece uma coisa só, onde forma e texto se amalgamaram tão completamente que cada detalhe explica o todo reunido, enfeixado nele. O livro inclui ainda dois bons textos de apoio: um curto ensaio assinado por Sebastião Nunes e uma apresentação de Marçal Aquino. Ô beleza. Evoé Aleixo, Evoé.
[início: 28/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Máquina zero", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Scriptum Livros (coleção Zaúm), 1a. edição (2004) brochura 12x18 cm., 64 págs., ISBN: 85-89044-06-8

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

impossível como nunca ter tido um rosto

De Ricardo Aleixo só havia lido "Modelos Vivos", cujos poemas vi e ouvi ditos por ele mesmo num dia especial de 2014, lá na Casa das Rosas, usina das letras paulista sempre bem capitaneada pelo vate Frederico Barbosa. Soube que ele estava trabalhando num livro novo e encomendei um exemplar. E então recebi, no início do último dezembro, direto lá das terras altas do Campo Alegre de Belo Horizonte, esse "Impossível como nunca ter tido um rosto", seu livro mais recente. Estão nele reunidos 32 poemas produzidos entre 2010 e 2015. Trata-se de uma produção independente, mas nem de longe artesanal. O livro é um objeto arte, que alegra o dia do leitor que tenha algo de esteta. Encontramos ilustrações muito bonitas, reproduções fotográficas tratadas digitalmente. A tipografia, capa e guardas, toda a editoração, capturam o olho daquele leitor que aprecia o processo de construção dos livros (como já nos ensinou o Emanoel Araújo). A especial produção gráfica do livro é assinada por Mário Vinicius (o projeto pode ser visto aqui). Os poemas se enfeixam em séries serpeantes, em conjuntos gráfica e conceitualmente temáticos, estruturados. Alguns parecem "stanzas" de um projeto maior, de um longo e outro poema maior, que está sendo gestado. Dois dele  (Isso que não se cansa de nunca ter chegado e Acima ~ abaixo ~ de um lado ~ e de outro ~ à minha frente ~ e ~ atrás de mim) chamam a atenção pela forma como expõem ofício e biografia do autor. Não são poemas que se deixem ler com música, ruídos ou aperitivos (pois as vezes lemos poesia e prosa displicentes e vagos, ai de nós). Esses de Aleixo cobram atenção e tempo, disciplina e reflexão. Alguns sabem de uma presença mítica, simbólica, que não é grega, mas parecem denunciar travessias de um mar urbano, como os gregos faziam num mar de verdade; ecoam enfrentamentos e experiências urbanas, mas não aquelas expressas na arquitetura ou ruas, antes sim as que tratam dos homens e mulheres, seres indistintos que povoam a urbe. Aleixo fala com várias mulheres nos seus poemas, assim como Shakespeare conversa com uma Dama Negra em seus sonetos  Gostei especialmente de Na noite calunga do bairro Cabula, que fala de uma noite baiana e terrível; de Rosto, que dá nome ao livro e do forte e preciso Conheço vocês pelo cheiro. O livro inclui um prefacio assinado por Dirceu Villa e uma boa apresentação assinada por Carlito Azevedo. Num vídeo de um programa de televisão mineiro ele mesmo explica algo de seu livro que se tornou possível. Boa. 
[início: 08/12/2015 - fim: 11/02/2016]
"Impossível como nunca ter tido um rosto", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Produção Associada Ricardo Aleixo e Fatima Augusta de Brito, 1a. edição (2015) brochura 13x23 cm., 76 págs., série 1 (34/100), sem ISBN.

sábado, 27 de setembro de 2014

modelos vivos

No início de junho, na véspera daquele dia festivo em que comemoramos em São Paulo os 70 anos do Frank Missell, amigo querido, eis que tive a sorte de ir a um evento na sempre agitada e paulista Casa das Rosas. Tratava-se de uma edição do SAP (Seminário de Ação Poética Multimídia), evento em que Frederico Barbosa mediava um debate entre os poetas Lucio Agra e Ricardo Aleixo (Aquele recifense, esse belorizontino). Foi uma conversa produtiva sobre a arte multifacetada da performance e as experiências de ambos neste ofício (inclusive com a didática e as viagens). Após o debate cada um apresentou sua performance. Foi uma noite realmente instigante. Naquele dia consegui comprar "Modelos vivos", livro de Aleixo que foi produzido como resultado de uma bolsa de criação literária que ele obteve em 2006. Trata-se de um livro-objeto, um livro-arte, uma peça gráfica que realmente impressiona em si, mas sabemos antes de ler que é o texto que deverá nos surpreender. Nele estão reunidos aquilo que alcança ser impresso dentre as peças produzidas por ele originalmente para performances ou gravações. Aleixo registra na apresentação o débito que tem com o poeta e designer Bruno Brum, que assina a produção visual do livro. As formas do livro são serpeantes. Numerados são 75 poemas no livro, mas cada um deles parece pertencer a um universo diferente. Há um legítimo e irônico soneto entre os poemas, mas também há epigramas, grafismos, poemas visuais, experimentos caligráficos, imagens em preto e branco, fotografias expandidas. Gostei especialmente de um longo texto que Aleixo chama de "O poemanto: ensaio para escrever (com) o corpo". Trata-se de algo que apresenta uma biografia ou caminho, mas também convida o leitor a refletir sobre conceitos e temas próprios do ato performático. Gostei também de seu provocativo "Antimusak" (uma espécie de carta de princípios em defesa da boa música em tempos de ruído e fúria). Não sei se chegam a ser exatamente temas recorrentes, mas após meus meses de leitura, com o livro indo e vindo na bolsa, perdendo-se entre outros, esquecido e lembrado, sempre o associo a "sons", "contrastes", "dança' e sobretudo "razão". O sonho da razão de Ricardo Aleixo não produz monstros como os de Goya, mas sim umas estranhas belezuras. Evoé Aleixo, evoé.
[início: 07/06/2014 - fim: 27/09/2014]
"Modelos Vivos", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: editora Crisálida, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-87961-59-4