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terça-feira, 23 de setembro de 2014

three days with joyce

Esse livro é aparentado a um outro, que já resenhei aqui: "James Joyce in Paris", de Gisèle Freund. Ela foi uma respeitada fotógrafa, nascida na Alemanha, que atuou sobretudo com fotojornalismo e documentários na França (ela tornou-se cidadã francesa em algum momento de sua vida). "Three days with Joyce" foi um trabalho de encomenda, realizado em duas primaveras, a da 1938 e a de 1939 (as últimas primaveras antes do início da segunda grande guerra). As circunstâncias das duas sessões de fotografias não eram as ideais. Joyce estava terminando os preparativos para a publicação de seu último (e mais radical) livro: "Finnegans Wake", que seria publicado somente em maio de 1939. Ele havia passado por uma série de complicadas cirurgias nos olhos. Sua filha Lucia, que sofria de esquizofrenia, estava internada desde 1935. Dividido entre as cirurgias e as dolorosas visitas à filha, Joyce ainda acreditava que ela poderia receber alta hospitalar (mas isso não aconteceu antes da família Joyce emigrar para Zürich, em 1940, logo após que a França foi invadida pelas tropas nazistas). Gisèle Freund já conhecia os Joyce desde 1936, quando participou de um jantar festivo em homenagem a Thornton Wilder organizado por uma das antigas editoras de Joyce, Adrienne Monnier. Com a publicação iminente de "Finnegans Wake" a revista "Life" (em 1938) e a "Times Magazine" (em 1939) encomendaram a Freund um conjunto de fotografias. Ela conseguiu persuadir Joyce a participar das sessões através de um amigo em comum, Louis Gillet. A maioria das fotos de 1938 foram tomadas em Paris na casa do casal Joyce e na livraria "Shakespeare and Co" (de Adrienne Monnier e Sylvia Beach). Uma parte delas foi tirada sem que Joyce percebesse, ao descer de um táxi. Freund diz, orgulhosa, que essas fotos anteciparam em vinte anos o comportamento questionável porém fundamental dos paparazzi. A câmara de Freund chegou a cair no chão e ela brincou com Joyce dizendo que algum duende irlandês parecia ter sido instruído por ele para destruir aquelas fotos não posadas (felizmente os negativos não foram perdidos na queda). As fotos de 1939 foram produzidas em cores e mostram Joyce, sua família e amigos na casa de seu filho Giorgio e nora Helen. São fotos alegres, tomadas quase todas num jardim ou mostrando Joyce exibindo-se num piano. Em várias delas, Stephen, neto de Joyce, brinca com o avó e o faz rir. Uma delas foi utilizada como capa da revista "Time" (na edição de 8 de maio de 1939). O livro inclui uma apresentação assinada por Richard Ellmann, respeitado biógrafo de Joyce e organizador de suas cartas. "Three days with Joyce" é o tipo de livro que torna festivo o mais simples dos dias de um joycemaníaco. Que beleza!
[início: 02/02/2014 - fim: 16/09/2014]
"Three days with Joyce", Gisèle Freund, tradução de Peter St. John Ginna, New York: Persea Books, 1a. edição (1985), brochura 18,5x21,5 cm., 70 págs., ISBN: 0-89255-142-9 [edição original: Trois Jours Avec Joyce (Paris: editions Denoël) 1982]

sábado, 19 de abril de 2014

james joyce in paris

Recebi esse mimo bem antes do natal do ano passado. Guardei-o como quem sabe que recebeu um grande bem e precisa estar com o humor certo para apreciá-lo. Depois dos sucessos das férias eis que encontrei esse humor e passei desde então boas horas em puro deleite, etéreo, transportado lentamente como um flâneur para a Paris do final dos anos 1930 e ao universo de James Joyce (do qual raramente me afasto, claro está para quem me conhece). Gisèle Freund é uma socióloga alemã que tornou-se fotógrafa profissional (e muito respeitada por sinal) por acaso. Um dia um jovem escritor conhecido de um colega seu na Sorbonne pediu-lhe que tirasse algumas fotos para ilustrar livro seu. O jovem escritor era André Mauroux e suas editoras Sylvia Beach e Adrienne Monnier, também editoras de James Joyce. Anos depois, já atuando regularmente como fotógrafa e parte do círculo de amizade de Joyce, acabou tendo a oportunidade de fotografá-lo algumas vezes (especialmente por encomenda da editora americana Random House, que preparava os originais do "Finnegans Wake" e que seria lançado em 1939). Boa parte das poucas fotografias conhecidas de Joyce deste período final de sua vida foram produzidas por ela. Mas em "James Joyce in Paris: His final years" não encontramos apenas fotografias de Joyce e sua família. De fato a maioria das 88 fotografias é de colegas escritores, artistas plásticos, paisagens e ruas de Paris. São fotos de um mundo que iria se transformar radicalmente com o início da segunda grande guerra (a própria Gisèle Freund, como tantos outros, emigraria para os Estados Unidos logo no início das hostilidades, assim como Joyce, que emigraria para a Suiça). O livro inclui um prefácio de Simone de Beauvoir e comentários curtos às fotos, assinados por V.B. Carleton (uma jornalista francesa, costumeira colaboradora de Freund). Os colaboradores mais próximos de Joyce em Paris estão todos retratados no livro: Eugene Jolas, Maria Jolas, Paul Léon, Stuart Gilbert, Adrienne Monnier, Sylvia Beach, Samuel Beckett, Valery Larbaud. Há um outro livro de Gisèle Freund (que recebi junto com este) onde encontraremos apenas as fotografias de Joyce e sua família em 1938, inclusive um conjunto de fotografias coloridas. Mas essa história ficará para um outro registro de leitura. Ficarei ainda muito tempo inebriado com os prazeres deste "James Joyce in Paris: His final years", seguro que sim. 
[início: 02/02/2014 - fim: 14/04/2014]
"James Joyce in Paris: His final years", Gisèle Freund, V.B. Carleton, Simone de Beauvoir, New York: Harcourt, Brace and World, 1a. edição (1965), capa-dura 22,5x29 cm., 117 págs., sem ISBN