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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

haroldo

Este pequeno livreto editado pelo industrioso Marcelo Tápia em colaboração com Ivan de Campos foi publicado como uma espécie de homenagem ao Haroldo de Campos morto em 2003. Trata-se da tradução de curtos fragmentos de cinco dos cantos da Odisséia. Sabe-se que após a publicação em 2002 do segundo volume da tradução completa da Ilíada, Haroldo de Campos (que preferia o termo transcriação à simples tradução) foi muitas vezes perguntado sobre a continuação natural da empreitada, que envolveria prosseguir em sua investigação do mundo grego relatado por Homero iniciando a transcriação completa também da Odisséia. Mas como a tarefa de traduzir a Ilíada levou o mágico número de dez anos (número idêntico ao de anos da batalha pela cidade de Tróia), ele sabia que a Odisséia certamente comprometeria número similar de anos. O agravamento de seu estado de saúde logo após a publicação da Ilíada impediu-o de continuar mesmo com suas atividades regulares, o que dizer do trabalho de joalheria pura que foram suas traduções. Ficamos assim sem mais este trabalho de Haroldo de Campos. Trajano Vieira (que não lamenta este fato) faz uma breve apresentação do livro e dos motivos que levaram Marcelo Tápia e Ivan de Campos a publicarem estes pequenos extratos de tradução. É uma edição bem cuidada, com o texto original velando a transcriação. Foram incluidas várias reproduções manuscritas do autor, que mostram um tanto do processo do trabalho utilizado por ele e tornam o livro muito agradável de se ler. Resolvi encomendar este livro e lê-lo pois ainda estou envolvido com o combate que é a leitura da tradução de Donaldo Schüler publicada pela LP&M. Ainda vou resenhar aqui o terceiro volume dos cantos traduzidos por Donaldo e voltarei, seguro como Ulisses, a cotejá-la com este breve livrinho de Haroldo de Campos.
Odisséia de Homero, fragmentos, Homero, tradução de Haroldo de Campos, editora Olavobrás, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-88-9331-87

sábado, 4 de agosto de 2007

nostos 1


Este segundo volume da tradução do Donaldo Schüler da Odisséia ficou esperando os outros projetos. Li aos poucos, sempre interrompendo para incluir outras urgências e outras prioridades. Não é a forma mais inteligente de se ler um livro, mas como eu já disse na resenha do primeiro volume desta tradução a Odisséia me acompanha já há anos demais para que eu tenha uma postura reverente em relação ao poema. Lembro da primeira leitura, em uma edição de bolso, emprestada da biblioteca central de São Bernardo, que lia enquanto cortava amostras de Nióbio, para um projeto que estava começando com o Frank Missell (o Brasil têm uma das maiores jazidas de Nióbio do mundo e sempre ficamos a nos perguntar o que fazer com isto, mas esta é outra história). Neste segundo volume o tema é o regresso (a primeira parte dele). Nele são contadas algumas das aventuras de Odisseu (do Ulysses) entre a saída da ilha de Ogígia, onde estava retido por Calipso, e a chegada à Ítaca, onde haverá a matança dos pretendentes. Retrospectivamente o próprio Ulysses contará o que aconteceu desde a saída de Tróia até a chegada a Ogígia. Estes cantos (do 5 ao 12) começam com a assembléia dos deuses onde é decidido já ser a hora do início da viagem de volta pelo mar. Calipso é avisada disto por Hermes e o auxilia, mesmo a contragosto, a preparar uma embarcação. Athena sempre vigilante auxilia-o na viagem pelo mar e apesar de algumas atribulações, geradas principalmente por Poseidon, que cobra os últimos tributos de castigo ao herói destruindo sua barcaça ainda em alto mar, Ulysses chega às terras do rei Alcínoo, dos Feáceos. Quem o ajuda no início é Nausícaa, filha do rei, e é de lá que o herói se preparará para voltar a Ítaca e retomar seu próprio trono (e finalizar o regresso). Estes oito cantos estão repletos de regras de diplomacia e de boa educação. Qualquer pessoa que hospeda e que se deixa hospedar com alguém deve ler estes cantos para aprender algo de etiqueta (mesmo após estes 3000 anos ninguém pode dizer que os gregos não cultivavam uma espécie de boa educação). Buenos. Após os cantos 5, 6 e 7 um banquete é preparado e jogos festivos são organizados. Ulysses ouve no canto 8 sua própria história dos tempos da guerra em Tróia sendo contadas por um aedo. Há um aspecto curioso aí pois como no Quixote, centenas de anos depois, um personagem ouve relatos de si próprio e a luz disto, modifica sua trajetória pessoal em uma história. Este tipo de efeito faz com que muitos atribuam multiplicidade de autores aos 24 cantos da obra (há quem defenda que este ciclo em especial foi escrito por uma moçinha, que descreve a costa da Sicília e as ilhas dos arredores, mas esta também é outra história). Nos cantos seguintes (9,10,11) Ulysses finalmente se apresenta e passa a contar o que aconteceu desde a saída de Tróia ao final da guerra. As histórias que usualmente associamos a Ulysses (com a exceção da matança dos pretendentes) acontecem nesta sessão: Ele e seus comandados são forçados por seus próprios atos impensados a deambular pelo mar Egeu e pelo mar Tirreno, se envolvendo com os Cicones, os Lotófagos, os Ciclopes (no canto 9), bem como com o rei dos ventos Éolo, os Lestrígones e a feiticeira Circe (no canto 10) que sugere que a volta só se dará após Odisseu descer ao inferno, onde ele deve consultar a alma de Tirésias. No canto 11 é descrita a descida e as conversações com os mortos. No canto 12 as últimas perturbações e a morte de seus últimos companheiros com a passagem pela ilha das sereias, pelo estreito entre Cila e Caribdes e o repasto indevido dos bois do deus Hélios. Mortos os companheiros Odisseu naufraga na ilha de Ogígia e ali ficará aos cuidados de Calipso por 7 longos anos. Apesar de ler com vívido interesse eu ainda não me convenci de todos os acertos da tradução de Donaldo Schüler, mas vou esperar terminar o terceiro volume para escrever algo mais objetivo sobre isto. Claro que ela é fácil de ler e nos apresenta o poema honestamente, mas há algumas soluções que me tiram do sério: "cuscos", "vapt-vupt", "tempão", "peidos na fuça", "salário", "canseira", "baboseira" e mesmo o singular "Nulisseu" ainda se batem com meus neurônios cansados. Volto a este ponto quando terminar o terceiro volume. Bom divertimento até aqui.

"Odisséia II - egresso", Homero, tradução de Donaldo Schüler, editora LP&M, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-254-1632-0

quinta-feira, 14 de junho de 2007

ulysses again

Depois do grande envolvimento que teve na tradução do Finnegans Wake, de James Joyce, e de colher os louros e os sucessos da empreitada Donaldo Schüler começou um outro grande projeto, a tradução da Odisséia. A LP&M acaba de lançar o primeiro volume desta tradução já que a edição (bilíngüe) foi planejada para divisão em 3 volumes. Este primeiro volume abarca os quatro primeiros cantos da obra. Há ao menos dez outras traduções completas da Odisséia no mercado livreiro brasileiro (vale lembra algumas: a clássica de Manuel Odorico Mendes, a antiga de Carlos Alberto Nunes, a em prosa de Jaime Bruna, a inovadora de Frederico Lourenço, a ligeira de Fernando C. de Araújo Gomes). Reconhecido como um grande helenista a tradução de Donaldo Schüler deve estimular jovens leitores ao clássico de Homero, pois é conhecido seu esforço, nas traduções, por criar neologismos e incorporar termos contemporâneos. Certamente aqueles familiarizados com o grego aproveitarão a chance para cotejar suas interpretações àquelas escolhidas por Donaldo e mesmo com as traduções mais antigas. Há um curto ensaio no final, onde o Donaldo reflete sobre seu projeto de tradução e justifica algumas de suas escolhas. Eu, que guardo na memória e canto as primeiras estrofes desde trinta e tantos anos atrás, por conta de uma leitura apaixonada na juventude, estranhei um tanto o ritmo e a musicalidade oferecida por Donaldo, mas não há porque desdenhar de seu genuíno esforço. Vou aguardar o segundo volume com um quase açodamento.
"Odisséia I - Telemaquia", Homero, tradução de Donaldo Schüler, editora LP&M, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-254-1636-0