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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

a lição do mestre

Paul Overt, um jovem e ambicioso escritor, participa de uma festa numa casa de campo nos arredores de Londres promovida por Henry St. George, um romancista já consagrado. O jovem escritor admira seu colega mais velho, embora saiba que a qualidade de seus últimos livros seja ruim. Durante a festa Paul conversa com várias pessoas, como a mulher do escritor mais velho e um militar amigo do casal. Ele observa que Henry passa todo o tempo livre em animadas conversas e caminhadas com uma garota. Durante o jantar ele descobre que essa garota é Marion, filha do militar com quem conversou mais cedo. Ela confessa ser uma entusiasta de seus livros e ele, feliz com esse interesse, imagina uma oportunidade de flertar com ela. À noite, quando Paul já imaginava sair da festa sem ter a chance de conversar com seu anfitrião, ele é surpreendido com o convite de Henry para uma conversa reservada em sua biblioteca. Como acontece usualmente nos livros de Henry James é a partir do que se discute numa longa conversa entre dois protagonistas que a narrativa se desenvolve, sobretudo psicologicamente (e não me cabe mais detalhar qual é a tal "lição do mestre", sob pena de estragar a diversão de um eventual leitor destas linhas). Apesar de Paul não ser tão ingênuo como Marcel, o narrador de "Em busca do tempo perdido" de Proust, o conflito criada por Henry James lembra o primeiro encontro entre o Barão de Charlus e Marcel (falo da assimetria entre as experiências mundanas de ambos e da dificuldade de Marcel entender o caráter de Charlus). "A lição do mestre" exemplifica também (ainda que com sinais um tanto trocados) a "Angústia da influência", conceito tão caro a Harold Bloom em sua análise das relações entre os efebos e seus precursores. Bela história. Assim como "A briga dos dois Ivans", que já resenhei aqui, esse pequeno livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing). 
[início: 19/08/2014 - fim: 22/08/2014]
"A lição do mestre", Henry James, tradução de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2014), brochura 13x18 cm., 119 págs., ISBN: 978-85-61578-34-3 [edição original: The Lesson of the Master (London: Universal Review / S. Sonnenschein & co.) 1888]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

horas venecianas

Neste pequeno livro são reunidos cinco textos escritos originalmente entre 1872 e 1902. Henry James não parece querer educar, ilustrar, mas sim nos guiar por um mar de evocações, evocações de um tempo perdido, um tempo que Henry James de alguma forma congela com sua prosa poderosa e seminal. Mesmo agora, um século mais de horas venezianas se acumulando na memória de milhares, milhões, de indivívuos que se dirigiram à Veneza algum dia, eis que reencontramos, através dele, algo do encanto experimentado na cidade. Na Veneza, fatigada e melancólica, que suporta a sofregidão das hordas. Na Veneza, labiríntica e luminosa, que é um grande museu, mas também uma grande tumba, de si mesma. Na Veneza, com suas pedras e suas turvas águas, justapostas. Todas as facetas da cidade são relembradas por ele, que também fala do povo (com um desdém absurdo para nossos dias politicamente corretos - prova da estupidez deste conceito), das obras de arte, da história, dos amigos que o recebem ali. Reiteradas vezes nos textos James cita irritado John Ruskin, que tão meticulosamente estudou e contou a cidade antes dele. James parece querer ressaltar o valor da imaginação, dos sentimentos, da paixão, em detrimento da ciência e da técnica, do conhecimento arquitetônico e histórico amelhado por Ruskin. Lembrei, claro, de Proust, e também de Evelyn Waugh, que também contaram algo sobre suas experiências em Veneza. Também tive lá minha cota de prazeres, minhas horas de imersão, minha educação sentimental, também eu "was drowning in honey, stingless”, mas esta é outra história, para ser contada com outro livro, em breve. [início 25/07/2010 - fim 30/08/2010]
"Horas Venecianas", Henry James, tradução de Miguel Ángel Martínez-Cabeza, ABADA editores, 1a. edição (2008), brochura 12x16,5 cm, 179 págs. ISBN: 978-84-96775-31-2

sábado, 2 de maio de 2009

otra vuelta de tuerca

Ainda em dezembro comprei este livro e a idéia era dar de presente para alguém, mas acabei ficando com ele. De lá para cá li trechos aqui e acolá, um tanto descompromissadamente, mas tomei gosto enfim e quando me dei conta percebi que deveria terminar de lê-lo de uma vez. É uma novela curta, uma novela fantástica, no sentido de sermos apresentados a fantasmas e ao sobrenatural. Um casal de crianças é deixado aos cuidados de uma jovem governanta nos Estados Unidos do início do século passado. O ambiente opressor da grande residência onde eles três e mais uns poucos criados passam um outono/inverno brumoso leva a governanta a acreditar que as crianças estão sendo ameaçadas por dois fantasmas (de antigos serviçais que haviam morrido pouco tempo atrás). Na verdade pode-se ler a história e só acreditar que a jovem governanta é apenas uma histérica patologicamente clássica, que transforma sua instabilidade emocional em visões fantasmagóricas. Mas o comportamento das crianças (orfãs e praticamente abandonadas por um rico tio distante, terreno propício para leituras psicanalíticas sempre caras à Henry James) também não é isento de complexidade. Confesso que perdi um tanto das sutilezas do texto com meu castelhano apenas passável. Houve uma época que li vários Henry James de uma vez e posso recomendá-los sem medo. Fazia tempo qeu não lia algo dele e gostei. Diversão garantida. [início 20/01/2009 - fim 24/03/2009]
"Otra vuelta de tuerca", Henry James, tradução de Héctor Daniel Stilman, editora Longseller (1a. edição) 2005, brochura 11x18, 304 págs. ISBN: 978-987-550-543-9