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segunda-feira, 22 de julho de 2019

sumchi

Lê-se esse pequeno livro com uma alegria incontida, página a página, nas quais acumulamos surpresas e espantos. Amós Oz registra em livro, numa linguagem que é ao mesmo tempo rica e acessível, especialmente ao público mais jovem - a quem o livro é direcionado - o que talvez seja mesmo um fragmento de sua memória, um recorte de sua própria vida. É quase um conto de fadas. Amós Oz descreve o que talvez tenha sido o momento vivido de sua metamorfose para ser um contador de histórias, sua transformação em um inventor literário, um escritor. O leitor encontra um narrador que vive em um Israel ainda administrada pelos ingleses. O narrador sabe que sua história é banal, poderia ser resumida em uma única frase, todavia, ao longo das poucas horas deste dia, para ele especial, o sujeito descobre os desdobramentos do amor, da amizade, das relações comerciais, da ética, da vida em sociedade, da estranheza que há entre pais e filhos, da existência do acaso, dos azares e das sortes. Livro realmente bem bacana. Li em um dia aziago, mas que me fez sonhar na noite seguinte como uma criança, como alguém liberto de toda culpa e preocupação. Recomendo. Vale! 
Registro #1432 (infanto-juvenil #48)
[início: 29/06/2019 - fim: 30/06/2019]
"Sumchi: uma fábula de amor e aventura", Amós Oz, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), capa-dura 12,5x18 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-359-3214-0 [edição original: 1978]

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

escenas de la vida rural

Em "Escenas de la vida rural", publicado originalmente em 2009, Amos Oz narra oito histórias curtas, oito contos curiosos, ambientados em um fictício vilarejo das montanhas de Israel, Tel Ilán. Cidade em nada aparentada à Bat Yan que ele nos apresenta no bom "El mismo mar", livro dele que li recentemente. Os personagens principais de cada história fazem curtas aparições nas demais, tornando o livro um mosaico de sentimentos, de registros de estados de alma, de memórias, distintos entre si. A cidade parece estagnada, com uma população já velha, de pessoas apegadas a um passado de lutas e dificuldades, oprimidos pela história (os nomes das ruas de das praças) e antepassados (os valorosos pioneiros fundadores). Os protagonistas são sujeitos quase sempre sem laços de família (ou a ponto de romper estes laços). As histórias giram quase sempre em torno da posse de uma casa, da compra e venda de uma casa, da eventual reforma ou demolição de uma casa (talvez uma espécie de metáfora ou juízo velado de Oz para o que acontece naquela região há tempos). Há sempre algo de inusitado ou maluco nas histórias, como se elas fossem inicialmente realistas, mas subitamente se tornassem fruto de um sonho, delírio ou coisa parecida. Os personagens quase sempre estão esperando algo que não se materializa, não se concretiza. Os nomes de sete dos oito contos são como códigos para o que seguirá: Herdeiros, Parentes, Escavam, Perdidos, Esperam, Estranhos, Cantam. Já o último conto (Em um lugar distante em outro tempo) parece descrever o futuro distante (ou o passado remoto) de Tel Ilán, num outro tempo, onde é completa a estagnação, inevitável a morte em vida, inexorável a perda das ilusões e sonhos. Os finais, sempre fantasiosos ou surreais, deixam ao leitor a tarefa de interpretar do que tratam exatamente. Duas passagens me chamaram a atenção: na primeira o narrador diz que é possível sempre ver nos adultos a criança que este adulto foi um dia (as vezes esta criança interior está viva, mas muitas vezes esta criança já está morta), na segunda um estudante fala das diferenças entre árabes e israelenses distinguindo a origem da infelicidade de ambos (Oz apresenta uma críptica interpretação sociológica que me parece interessante, mas isso um leitor curioso tem que buscar pessoalmente no livro). Já li coisas melhores dele, mas estas histórias tem lá seu interesse.
[início 15/10/2012 - fim 03/12/2012] 
"Escenas de la vida rural", Amos Oz, tradução de Raquel García Lozana, ediciones Siruela (Nuevos Tiempos), 1a. edição (2010), brochura 14x21,5 cm, 167 págs. ISBN: 978-84-9841-377-9 [edição original:  (תמונות מחיי הכפר  2009)]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

el mismo mar

"El mismo mar" é uma maravilha. Não se trata de um romance, nem de um poema, mas ora se apresenta como narrativa, ora como algo musical, lírico. Talvez romance em versos seja uma definição adequada. É mesmo um livro muito especial. Amos Oz conta uma história que começa em uma praia do mar mediterrâneo, o balneário de Bat Yam, perto de Tel Aviv, mas também percorre as terras altas do Himalaia e muitos vales e praias do extremo oriente. Em Bat Yam o leitor encontra Albert, um velho senhor que ainda lamenta a morte de sua mulher, Nadia. O filho único deles, Rico, viaja ao oriente, numa jornada de autoconhecimento. Dita, a mulher de Rico, espera o marido, mas vela pelo sogro, escreve um roteiro para um filme, se envolve com um produtor cinematográfico, Dubi, e um investidor, Giggy. Albert por sua vez se envolve com uma colega de profissão também viúva, Bettine. Em capítulos que são como flashes, como cenas de um filme, cada personagem narra ou experimenta uma parte do mosaico que Amos Oz vai montando aos poucos. A metaliteratura não é um artifício bobo para Oz, não é um exercício pós-moderno de estilística. O narrador interage com os personagens, ouve suas críticas sobre o desenrolar da trama, discute resumos do livro com o leitor; o escritor Amos Oz também invader a narrativa com seus fantasmas pessoais (trazendo a história de seus pais, o suicídio de sua mãe, algo de suas relações com as mulheres, da repercussão de suas idéias nos jornais). Há passagens muito boas no livro ("... al joven que se fue a buscar en las montañas el mar que está enfrente de sua casa" é a que mais gostei, mas há coisas realmente poderosas nele). Fiquei muito tempo ser ler coisas de Oz (lembro-me de ter lido quase simultaneamente vários livros dele: Fima, Conhecer uma mulher, A caixa preta, Pantera no porão, mas de repente perdi o interesse). Talvez seja a hora de voltar a eles. Logo veremos.
 [início: 07/10/2012 - fim: 15/10/2012] 
"El mismo mar", Amos Oz, tradução de Raquel García Lozano, Barcelona: ediciones Siruela (Coleccíon Contemporânea - De Bolsillo), 1a. edição (2006), brochura 12,5x19 cm, 280 págs. ISBN: 978-84-8346-000-9 [edição original: 'Oto ha-yam (אותו הים) (Jerusalém: Keter) 1999]