Este é um livro de ficção, claro, mas não é exatamente um romance e acabei colocando-o na cesta dos livros epistolares, dos livros de cartas. O autor, um jovem canadense, inventou uma centena de cartas que imaginários editores poderiam mandar em resposta ao recebimento de originais de "escritores em busca do abrigo de uma editora". Todo aquele que já tentou cedo descobre que escrever é fácil, publicar é difícil. Há livros onde se analisa o mercado do livro, o mundo das editoras, das feiras literárias, dos grupos de estudo e de leitura, das sessões e das críticas literárias dos jornais com seriedade e precisão. Lembro sempre do "Livros demais", do Gabriel Zaid, ou ainda do "A construção do livro", do Emanuel Araújo. Não é este o caso deste "A arte de recusar um original", de Camilien Roy. Talvez por experiência própria ele usa o deboche e o bom humor para demonstrar que é fácil ser achincalhado por um editor invisível que em geral se esconde atrás do nome vistoso de um editora. Por vezes teu livro não interessa comercialmente (pois as editoras são sobretudo comerciais) por ser experimental demais, noutras por ser passivo demais, noutras ainda por ser muito parecido com o que está na moda, e por aí vai. As cartas são sempre engraçadas, apesar da violência verbal que observamos na maioria delas. Alguém com pretensões sérias em ser publicado certamente ganha algo lendo este livro. É fácil cairmos no auto-engano de se apaixonar pelo que escrevemos e somente ver nos textos valor, verdade e beleza. Uma boa gaveta e o tempo costumam ser bons conselheiros, pois deve-se esquecer o que produzimos por paixão e desbastarmos sem dó os originais já envelhecidos, até transformá-los em algo digno de ser impresso. Esta deveria ser a sabedoria prática à qual nossa experiência imagina conduzir-nos, mas em geral somos vaidosos demais para não gostar de ver nosso nome destacado em um feixe de laudas. Muito humano tudo isto. Divertido e cruel este livro. [início 10/05/2009 - fim 12/05/2009]"A arte de recusar um original", Camilien Roy, tradução de Pedro Afonso Vasquez, editora Rocco (1a. edição) 2009 brochura 12,5x20, 142 págs. ISBN: 978-85-325-2400-3
