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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

o homem provisório

Li um bocado de livros de poesia em 2018. Foram onze boas experiências: Ficowski, Britto, Andresen, Tranströmer, Aleixo, Hilst, Portella, Nooteboom, Moura, Medeiros e a Lira Argenta do Mendonça. Mas quando lemos poesia o tempo sempre é processado de uma forma diferente daquele que usamos para ler prosa, ficção, narrativas. Pelo menos isso sinto eu. Sempre leio dois, três, quatro ou mais livros simultaneamente, mas quando tento sobrepor um volume de poesia a um texto em prosa a cousa dificilmente funciona bem. Os poemas parecem cobrar atenção, dedicação plena, prioridade, forçam releituras cíclicas, devoção. Ao ler poemas sou obrigado a fazer mais desvios, consultar mais vezes os dicionários, experimentar lê-los em voz alta, coisas que nunca faço com livros em prosa. Por conta disto, deixei três ou quatro coleções de poemas que comecei a ler ainda no ano passado para revisitar neste janeiro chuvoso e melancólico. O primeiro destes é "O homem provisório", de  Cássio Pantaleoni, de quem havia lido apenas uns contos, reunidos no "A sede das pedras". São 36 poemas, numa edição bem cuidada da Besouro Box, que inclui interferências gráficas e belas ilustrações (assinadas por Marcos Cena). O narrador dos poemas vive e experimenta o mundo, curioso e algo apaixonado quase sempre, mas não uma paixão definida, por uma musa ou mulher, antes uma paixão pela aventura mesmo que é o enigma da vida. Trata-se de um narrador sensível que não parece sentir-se bem em movimento, parece estar em um balcão, uma varanda, observando o mundo, refletindo, acompanhando de longe os destinos das gentes. Suas viagens são ao infinito interno, à mente. O projeto gráfico do livro aposta num jogo de luz e sombras, jogos que também que são experimentados nos poemas. As imagens e metáforas são felizes. Não há melancolia ou euforia, apenas suspense, inação, tédio, o "Provisório" do título talvez. Interessante. Vale!
Registro #1367 (poesia #103) 
[início: 18/12/2018 - fim: 28/12/2018]
"O homem provisório", Cássio Pantaleoni, Porto Alegre: Edições Besouro Box, 1a. edição (2017), brochura 18x17 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-5527-059-8

segunda-feira, 22 de maio de 2017

a sede das pedras

São nove contos curtos, muito bem escritos. Não é fácil dizer se Cassio Pantaleoni  destaca-se pelo apuro no uso da linguagem, pela inventividade das histórias que cria ou ainda pelas sutis reflexões que provoca. São histórias em que um narrador perscruta as razões ou o comportamento de indivíduos raros: uma mulher que parece provocar a morte de seus pretendentes; uma garota que convive nas férias com uma prima que enlouquece; uma mulher que almeja sobretudo a maternidade; uma industriosa migrante italiana recém chegada à Argentina; um garoto que é mal cantor e ainda pior piadista; um mendigo que grita na rua; um sujeito que olha o mar procurando consolo e memórias; um garoto que conta sobre um grupo felliniano que sonha com a expectativa do repasto de um bom bifes; o relato amalucado de um adolescente sobre uma lenda urbana, uma violenta competição entre garotas. Ao leitor Pantaleoni, ou ainda, esse narrador que é tão bom juiz de caráter quanto esteta, parece oferecer a oportunidade de preencher vazios, ligar pontos, completar o antes ou o depois das histórias, nunca esgotando apenas com as palavras cada tema e possibilidades. Muito bom.
[início: 21/04/2017 - fim: 22/04/2017]
"A sede das pedras", Cassio Pantaleoni, Porto Alegre: Editora 8Inverso, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-62696-18-3