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sábado, 22 de junho de 2013

quase borges

Neste pequeno livro encontramos vinte poemas de Jorge Luis Borges "transcriados" por Augusto de Campos. A edição é bilíngue, portanto o leitor tem a chance de explorar os poemas originais e comparar seu entendimento deles com as escolhas e propostas de tradução que lhe são oferecidas. Além de uma apresentação assinada pelo próprio Augusto de Campos o livro inclui o relato de dois encontros entre Omar Khouri (um respeitado acadêmico, professor da UNESP), o poeta Augusto de Campos (acompanhado por sua mulher Lygia e seu filho Roland) com um Borges já octagenário, em Buenos Aires, no já longínquo fevereiro de 1984. Augusto e os demais são recebidos com generosidade por Borges e a conversa entre eles é focada na produção poética deles e naquela dos autores que ambos apreciam. Deve ter sido uma experiência realmente mágica. Qualquer poeta gostaria de fazer uma visita deste tipo. Bueno. Os vinte poemas são apenas uma pequena mostra da produção borgiana, mas que bela escolha Augusto de Campos fez. A erudição e a riqueza de imagens típicas de textos borgianos estão ali: os espelhos, os mundos imaginários, os saxões, o labirinto, o eco dos textos antigos. Que maravilha os ler. Já sou um velho e pequeno anão, que lembra dos anos 1980 como quem fala dos tempos pré-cambrianos. Pois eu também vi Borges de perto naquele ano (mas nem de longe sonhei em falar com ele). Estive no auditório do MASP em agosto de 1984, em meio de uma legião de aficionados e aprendi que - a exemplo daquilo que nos ensinava o professor Mário Schenberg - era possível ouvir melhor com os olhos fechados. Talvez fosse o caso de pedir a alguém recitar os poemas e ouvi-los. Que belo livro. Nota bene: curiosamente, esta edição da Terracota/Musa Rara é numerada. Sou o proprietário do exemplar 0782 de 1000. Não é mesmo uma bela proposta?
[início: 01/06/2013 - fim: 03/06/2013]
"Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista", Jorge Luis Borges, tradução de Augusto de Campos, São Paulo: editora Terracota (selo Musa Rara), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 90 págs., ISBN: 978-85-62370-83-0 [edição original dos poemas: Obra poética 1923-1977 (Buenos Aires: Alianza editorial) 1977; Los conjurados (Buenos Aires: Alianza editorial) 1985]

terça-feira, 5 de agosto de 2008

don isidro parodi

Como definir o gênero destas histórias talvez seja um problema, mas eu prefiro contorná-lo chamando-as de contos de uma vez, poupando-me de outros aborrecimentos. São duas coletâneas de histórias na verdade, escritas a quatro mãos. Jorge Luis Borges, o Borges universal e sapientíssimo, que assombrou e assombra legiões de leitores pelo mundo, um dia associou-se a Adolfo Bioy Casares, o autor bem conhecido pelo curioso "A educação de Morel", e juntos engendraram vários ciclos de histórias nos anos 1940. Para mim elas enfeixam algo como um manual do que não fazer em um livro, pois se tratam de divertidas auto-paródias de textos pomposos, cheios de frases feitas, verborrágicos, enigmáticos e falsos como só os charlatães sabem produzir. Mas eles praticam o oposto da charlatanice, como aqueles mágicos que desvendam os truques dos colegas, já que estas histórias são na verdade sempre bem escritas, mordazes e até cruéis com o leitor desavisado, que teima em acompanhar ilações que são falsas desde o início. As citações são ecléticas: Conan Doyle, Poe, Wallace, Valéry, Wilde, L'Isle-Adam, Homero. Lê-se com enorme prazer, já que nada produzido por estes sujeitos é ruim, mas tantas mensagens cifradas, tanta erudição, tantas reviravoltas também cansam um tanto (a bem da verdade). Senti um desconforto com alguns termos utilizados na tradução, mas não tive tempo de checar os originais, talvez seja bobagem minha. Gostei mais da série de "Don Isidro Parodi", onde um apenado resolve crimes preso em sua cela nos subúrbios de Buenos Aires, apenas ouvindo queixosos e suspeitos. Já as "Duas fantasias memoráveis" são mais religiosas e fantasmagóricas, um tanto monótonas para meu gosto. De qualquer forma é um livro que lê-se sem medo, esperando um desfecho sempre surpreendente. Em algum ponto ele cita o "Vento Norte", caro aos santamarienses. Será que é o mesmo irmão de Zéfiro e Notos, de Bóreas e Euro? Há que se ler mais Borges para saber.
"Seis problemas para don Isidro Parodi, Duas fantasias memoráveis", Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, tradução de Maria Paulo Gurgel Ribeiro, editora Globo, 1a. edição (2008) brochura 14x21cm, 192 pág. ISBN: 978-85-250-4386-3