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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

notas sobre a pandemia

Esse volume é um autêntico caça-níqueis e eu, ai de mim, por impulso, comprei e li em menos de uma hora (são só noventa e poucas páginas). Acontece, paciência, sigamos o baile macabro. Nele estão reunidos três artigos e três entrevistas publicados originalmente em jornais ou transmitidos pela televisão (Times, Financial Times, The Guardian, CNN, South China Morning Post, Correio da Unesco). São produtos deste ano bizarro, peças curtas produzidas entre março e abril. Os textos entregam o que o título promete, reflexões curtas sobre a pandemia da covid-19. Entretanto, são ainda reflexões bem do início da pandemia, quando as mortes estavam concentradas sobretudo na China, no Irã e na Itália. O número de mortes no final de abril, em todo o mundo, acumulava menos de 200 mil, hoje já superam 1.300 mil. De qualquer forma Harari alcança fornecer "lições" perenes, ainda válidas agora, no final de outubro. Harari sempre fala da história das grandes epidemias que afetaram o homo sapiens, das diferenças de velocidade de transmissão e mortalidade em função do tempo, de como as chaves para o bom combate são a cooperação, a coordenação de esforços, a solidariedade, a confiança no processo científico, a educação científica. Em todos os textos Harari fala também sobre os riscos não exatamente relacionados à doença que corremos, sobretudo os riscos associados ao controle social, as ferramentas de manipulação social, a coleta antiética de dados de saúde individual, as tecnologias disponíveis aos governos que permitem hoje não apenas monitorar a biometria todos os cidadãos, mas também decidir políticas públicas que podem tornar norma o controle populacional. Os temas e considerações de Harari são realmente estimulantes. Pelo acelerado processo pandêmico que todos experimentamos, talvez, outros assuntos tornem-se mais relevantes, outras preocupações mais fundamentais, outros assombros mais vívidos. Quem viver verá. Vale! 
Registro #1587 (crônicas e ensaios #277)
[início - fim: 28/10/2020] 
"Notas sobre a pandemia e breves lições para o mundo pós-coronavírus: artigos e entrevistas", Yuval Noah Harari, tradução de Odorico Leal, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 12x18 cm., 97 págs., ISBN: 978-85-359-3370-3 [edição original: 2020]

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

medio siglo con Borges

Como já disse antes, nestes tempos
difíceis, agressivos, cruéis, dementes e sombrios de pandemia só nos resta seguir o baile, ou combater a estupidez generalizada com alguma boa prosa ou poesia. Desde 17 de março, até uns poucos dias, fiquei isolado em meu bivaque particular, nas terras altas de Itaara, com meu Cappuccio servindo-me de guarda. Tive dificuldades para retornar ao apartamento citadino, aos ruídos da urbe, bem diferentes do campo, à presença das gentes e de suas circunstâncias, à proximidade das notícias que correm ao vento. Mas o hábito, sempre fiel camareiro, haverá de readaptar-me a tudo isso. De resto, fiquei boas semanas sem computador, daí esse hiato nos registros de leitura. Paciência. Li há tempos, portanto, esse "Medio siglo com Borges". É a publicação mais recente - saiu em abril - do genial Mario Vargas Llosa, um dos últimos grandes de todas literaturas, aí de nós. Trata-se da reunião de nove textos, artigos, entrevistas ou narrativas com um toque de imaginação, que foram publicados anteriormente em jornais ou lidos em conferências ou, ainda, já inseridas em livro. O mais antigo dos textos é de novembro de 1963: uma entrevista que Borges, já com 65 anos, venerável e cego, concede a um jovem Llosa, 27 anos, naquela época radicado na França. O mais recente é um artigo/resenha, publicado em setembro de 2014, que trata de um livro que ele encontra por acaso em um sebo, livro assinado por Borges e Maria Kodama, que desperta nele reminiscências de seus muitos anos de leitura e releitura das cousas de Borges. O leitor é levado por uma densa corrente de memórias afetivas e reflexões sofisticadas sobre a obra e a personalidade de Borges. Llosa fala das obsessões de Borges, sua biografia, seus amores, sua influência, de questões linguísticas, de sua relação com a Argentina e o Peru, enfim, de sua vida, que pode ser resumida no belo, porém triste, aforismo/epitáfio: "vivío leyendo y leyó viviendo" (que brota de uma frase ainda mais triste, da primeira entrevista, onde Borges diz: "Muchas cosas he leído y pocas he vivido"). Pode-se ler esses textos em um par de horas, mas eu fiquei com eles por dias, nostálgico e reflexivo, hedonista, "dronwing in honey, stingless", como sempre deve ser. Vale! 
Registro #1556 (crônicas e ensaios #276)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Medio siglo con Borges", Mario Vargas Llosa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2020), brochura 15x24 cm, 109 págs. ISBN: 978-84-204-3597-8

quarta-feira, 15 de julho de 2020

no me cogeréis vivo

"No me cogeréis vivo" é um volume onde estão reunidos 167 artigos de Arturo Pérez-Reverte publicados originalmente em jornal (na coluna Patente de Corso do caderno XL Semanal), entre setembro de 2001 e julho de 2005. Esse período corresponde aos últimos anos do governo Aznar e os primeiros do governo Zapatero. Não preciso aqui repetir meu costumeiro entusiasmo  com a excelência de tudo que Pérez-Reverte publica (já falei sobre três volumes de artigos dele: "Una história de España", "Perros y hijos de perra" e "Los barcos si pierden en terra"). Pérez-Reverte fala do cotidiano espanhol, de política, das transformações pelas quais passa a Europa, seu país e suas fundamentais Madrid e Cartagena. Fala de questões filológicas e de la lengua espanhola, discutidas nas reuniões das quintas-feiras na Real Academia Espanhola, de questões náuticas, dos livros que lê, dos políticos e das muitas coisas estúpidas ditas pelos políticos. Comenta sobre a estupidez reinante dos hipócritas e canalhas que defendem ideias ditas politicamente corretas; sobre os censores de costumes e de comportamento; sobre questões ambientais. Louva indivíduos que o influenciaram, o educaram, as exposições que viu, as viagens que fez, os encontros que teve com amigos e de sua experiência como jornalista em conflitos bélicos. Com ele caminhamos pelo bairro de las letras de Madrid, vamos a restaurantes, lembramos de Cervantes, Quevedo, Góngora, Calderón de la Barca, de Lope de Vega. Ele faz brotar da infância sua admiração pelas histórias dos romanos, dos gregos, dos árabes de sua península. Com ele vamos aos portos, aos mercados, aos cafés, ao cinema, a lugares ermos e perigosos das cidades que ele visita. Suas crônicas/artigos/ensaios se distinguem de material comum, aquele que notadamente encontramos em jornais brasileiros, pois é notável sua coragem intelectual, sua capacidade de denúncia fundamentada, à quaisquer grupos ou indivíduos que mereçam sua atenção. Não se trata de ser um simples paladino de boas causas ou malabarista de palavras. Seu afiado senso de justiça, sua capacidade de saber dosar argumentação lógica com sonoros palavrões (que deixariam o coro purista e hipócrita de jornalistas brasileiros corados - e prontos para denunciá-lo nos tribunais de exceção de inspiração fascista que vicejam por aqui nestes podres dias de pandemia), tornam a leitura das quase 200 crônicas uma alegria, dias de genuíno prazer e educação. Pérez-Reverte não tem medo de ridicularizar quem quer que seja, desde o tonto mal educado que viaja a seu lado em um avião, até os ministros de governo, tão servis à programas políticos inúteis, contaminados por ideologias que alcançam o patético, quando não apenas servem para corrupção e desvio de dinheiro público. Seu colega articulista, Javier Marías - el perro inglés, ganha um punhado de citações, sempre bem humoradas, corteses, fraternais. ÔBeleza. Sorte que tenho ainda uns volumes de Pérez-Reverte escondidos nos guardados. Vale! 
Registro #1553 (crônicas e ensaios #275) 
[início: 11/02/2013 - fim: 01/07/2020]
"No me cogeréis vivo: artículos 2001-2005", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de Lectura (Santillana ediciones generales / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2005), brochura 12,5x19 cm, 605 págs. ISBN: 978-84-663-1891-4

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

quarta-feira, 17 de junho de 2020

o encantamento dos sentidos

Rogério Koff apresenta, em seu "O encantamento dos sentidos", uma análise detalhada de um texto de Edmund Burke (que foi filósofo, político - membro do parlamento inglês - e escritor, nascido na Irlanda, em 1729, e morto na Inglaterra, em 1797). Este texto, On the Sublime and Beauty ("Investigação filosófica sobre as origens de nossas ideias do sublime e da beleza", em português), foi publicado em meados do século XVIII, quando Burke tinha menos de 30 anos. O texto que Koff nos oferece é acadêmico, formal e rigoroso, porém escrito de maneira acessível, mesmo para um neófito sobre o tema (como eu, por supuesto). Para alcançar oferecer ao leitor suas reflexões sobre este assunto, Koff, divide o livro, após uma curta seção de apresentação, em três capítulos de quase idêntica extensão. O primeiro capítulo trata da vida e obra de Burke e poderia, a meu juízo, ser lido de forma independente, ou melhor, acredito que o leitor interessado apenas na questão sobre o sublime e a beleza poderia ler diretamente os dois seguintes. Neste primeiro capítulo aprendemos sobre os anos de formação de Burke; seus interesses anteriores a imersão no mundo político, que se materializaram em livros sobre teoria política (A Vindication of Natural Society: or, a View of the Miseries and Evils arising to Mankind from every Species of Artificial Society, publicado em 1756) e  sobre estética (On the Sublime and Beauty, de 1757); acompanhamos as circunstâncias de sua guinada para carreira política em 1761, ainda em Dublin, e depois, quando já radicado em Londres, tornar-se secretário do Primeiro-Ministro inglês à época, Charles Watson-Wentworth, marquês de Rockingham. Após esta época, quando Burke assume completamente essa sua persona política, ele passa a escrever apenas sobre as questões políticas de seu tempo (tanto sobre as complexas e delicadas relações entre Inglaterra e suas colônias: a Irlanda, a américa colonial e continente indiano, quanto, sobretudo, produzindo sua obra Reflexões sobre a revolução na França, que é de 1790, e é onde ele antecipa os excessos que levariam a revolução francesa a seu colapso, texto pelo qual é mais conhecido e respeitado). É no segundo capítulo que Koff trata propriamente do texto de Burke que lhe interessa (On the Sublime and Beaut). Aprendemos que Burke, com este texto, participa do debate sobre estética, onde se propõe transgredir tanto a idealização ou racionalidade platônica da beleza (vista como a forma/ideia perfeita, verdadeira) quanto o conceito de "elevação da mente", de um texto sobre o sublime, escrito provavelmente no século II e atribuído a um sujeito chamado Longinus. Pois Burke sugere a necessidade de uma nova categoria para o conceito de estética, que se distingue - e transcende - o conceito de beleza, apesar de ambas terem como origem as mesmas paixões humanas. Não são questões ligeiras, que me caberia resumir aqui (não tenho formação de filósofo, já se sabe). O leitor precisa investir um certo tempo para aprender a aplicação de vários conceitos filosóficos utilizados e entender também o contexto histórico da evolução destes temas. Já no terceiro capítulo (e também em uma curta seção de considerações finais), Koff estende as reflexões do capítulo anterior, apresentando a repercussão, metamorfoses e rupturas do conceito de sublime ao longo do tempo - desde a antiguidade, passando pelo neoclassicismo, romantismo e outros ismos - até sua substituição pelo conceito de expressão, no mundo contemporâneo das artes plásticas. Koff incorpora neste capítulo e nas considerações finais breves ideias de Boileau, Locke, Doran, Hume, Kant, Schiller, Goethe, Gombrich, Norman, Paglia, Greenberg, Scruton, Kirk, Freud, Peirce, Chama e Pereira Coutinho. Fala também, ou melhor, reflete algo, sobre o papel da experiência estética (da teoria estética de Burke) em ambientes externos às artes plásticas, como na esfera política por exemplo, ou melhor, no entendimento de fenômenos sociais e políticos, onde a sabedoria, e a consciência de nossas imperfeições, derivadas do debate sobre estética, sobre a beleza e o sublime, parecem poder nos capacitar melhor para entender de fato a realidade objetiva. Nas considerações finais, Koff fala também da ascensão de Burke como eventual patrono do conservadorismo moderno. O livro inclui uma apresentação assinada por Robson Pereira Gonçalves e um texto de apoio nas orelhas e contracapa, assinado por Luiz Rohden, leitores de primeira hora. Além disto, o livro inclui duas dezenas de reproduções coloridas de pinturas. Essas reproduções dos quadros são utilizados por Koff para ilustrar como vários conceitos associados aos de Sublime e de Beleza podem ser exemplificados neles. A inserção destas imagens me incomodou um tanto. Apesar da descrição de todas elas estar incorporada ao texto de alguma forma, não resta claro se de fato, os artistas, os artífices das obras, racionalmente, conscientemente ou por leituras, conheciam e/ou entendiam tais conceitos ao expressarem-se plasticamente nelas. As paixões ou instinto dos artistas me parecem estar além de qualquer enquadramento filosófico. Mas isso pode ser um defeito de leitura meu. Paciência. Parabéns don Rogério, grande abraço, gostei de ler esse teu belo livro. Segue o baile. Vale! 
Registro #1543 (ensaios #273)
[início: 15/05/2020 - fim: 10/06/2020]
"O encantamento dos sentidos: O sublime e a beleza na teoria estética de Edmund Burke", Rogério Ferrer Koff, Santa Maria: Editora UFSM, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm, 176 págs. ISBN: 978-85-7391-346-0

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0

sexta-feira, 1 de maio de 2020

cuerpos del rey

Lembrei deste livro, que me esperava nos guardados há mais de dois anos, após ler o bom "Escola partida", de Ronai Rocha. Foi uma associação que me ocorreu ao ler o livro do Ronai e não tenho certeza se é válida. Pierre Michon, respeitado e premiado escritor francês, ficou famoso após a publicação de "Vies minuscules", um volume de contos que brincam com a ideia de autobiografia, de biografias inventadas. Neste volume da Anagrama estão reunidos oito ensaios de Michon, correspondentes a dois livros independentes: "Trois auteurs", de 1997, e "Corps du roi", de 2002. Nestes ensaios Michon faz uso da conhecida tese de Ernst Kantorowicz, a "dos dois corpos do rei", publicada em 1957. Segundo esta tese, os reis medievais tinham um corpo físico, como todo homo sapiens, que perece, morre, e um corpo jurídico, simbólico, que vive em contínua metamorfose, para sempre perpetuando uma dinastia. Com este arranjo, a polis medieval transformou-se em um corpo secular místico, e alcançou encontrar uma forma de administrar o poder político sem muitos sobressaltos por centenas de anos. Pois Michon, nestes seus dois livros (que reúnem oito ensaios), aplica o modelo de Kantorowicz para a literatura, discutindo como para os nós, leitores, sempre haverá, nos assombrando, a obra material, a ficção produzida por um autor, o livro que estamos a ler, e a biografia do autor da obra, a história de vida deste sujeito, que eventualmente confundimos com sua obra ou com os protagonistas de seus livros. O mesmo arranjo vale para o autor de uma obra crítica, que discute a produção de um outro escritor. É difícil, porém necessário, que este crítico demarque a vida do autor e a afaste do resultado de sua produção poética, de sua obra, daquilo que eventualmente está em análise. No primeiro conjunto de ensaios reunidos neste volume encontramos reflexões sobre Samuel Beckett (onde, a partir de uma fotografia, Michon discute a idealização do escritor/autor e a idealização do ato criativo dele, sua obra - e que lembra um tanto o "Miramientos", de Javier Marías); Gustave Flaubert (em que Michon fala do quão comprometido com sua obra era Flaubert, algo que parece ecoar o bom Flaubert's Parrot, um livro de Julian Barnes, de 1984); William Faulkner (no qual somos apresentados a uma variante divertida da teoria da "Angústia da influência", de Harold Bloom); Victor Hugo (um ensaio híbrido, que equilibra fragmentos autobiográficos e um estudo sobre um poema de Hugo: "Booz endormi",  muito bonito) e Muhammad Ibn Manglî (um especialista em falcoaria, nascido no Cairo, no século XIV). No segundo conjunto Michon trata de Honore de  Balzac (também contrastando o autor e sua imensa obra); Charles-Albert Cingria (um escritor e respeitado crítico literário francês da primeira metade do século XX) e novamente Faulkner (uma entrevista na verdade, não um ensaio, no qual Michon confessa sua admiração e fundamental influência por ele). É o tipo de livro que faz o leitor aprender um bocado de coisas. É também um livro divertido, pois Michon pontua seu texto com passagens amalucadas de sua vida (em uma delas, após boas seis horas de bebedeira, após ter proferido uma palestra na gloriosa Biblioteca Nacional de Paris, ele é expulso a pontapés de um restaurante após passar a mão nas pernas de uma garçonete). Suas exegeses sobre Beckett e Faulkner são particularmente notáveis, que belos textos. A história bíblica do poema de Hugo ("Booz endormi") fez-me lembrar de uma miríade de outras. Sua paixão por Faulkner fez-me lembrar-me dos dias em que também eu mergulhei em um silêncio e li tudo dele. Um dia destes vou procurar "Vies minuscules", seguro que sim. Vale! 
Registro #1522 (ensaios #271) 
[início: 15/06/2017 - fim: 13/04/2020] 
"Cuerpos del rey", Pierre Michon, tradução deMaría Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #633), 1a. edição (2006), brochura 14x22 cm., 158 págs., ISBN: 978-84-339-7096-8 [edição original: Trois auteurs (Paris: Verdier) 1997 e Corps du roi (Paris: Verdier) 2002]

sábado, 18 de abril de 2020

meu lote

Neste bom livro estão reunidos 121 textos de Nei Lopes inicialmente publicados em um blog (também chamado Meu Lote), entre 2003 e 2008, e selecionados por Marcus Fernando, produtor musical e cineasta carioca. De Nei Lopes já havia lido dois bons livros de ficção: um romance (O preto que falava iídiche) e um de contos (Nas águas desta baía há muito tempo). Suas crônicas são deliciosas. "Meu lote" trata daquilo em que o multitalentoso Nei Lopes é mestre: música, literatura, carnaval, cultura negra, história da África, do Brasil e do Rio de Janeiro (ele tem uma obra vastíssima centrada na temática africana e afro-originada, a da diáspora africana, como ele gosta de grafar). São crônicas realmente boas de ler, super informativas, bem escritas, aprende-se um bocado nelas, sobre uma miríade de assuntos. Algumas são mais caras à memória, a sua Irajá fundamental, ao registro de perfis biográficos de músicos, personalidades, influências; outras são mais engajadas, falam da necessidade de se discutir a questão negra no Brasil, com coragem, sem medo, como uma das muitas questões sociais que nós sempre adiamos por aqui; noutras ainda ele fala dos carnavais, do samba, de seus encontros com o povo da música; há ainda registros de falares brasileiros, influências das muitas línguas africanas que se fundiram no léxico do português; há também listas de verbetes bem humorados, que tratam de nossas alegrias e misérias cotidianas, além de sempre bacanas fragmentos biográficos. Grande estilista, ele inclui um bocado de ironia dos textos, sempre que é necessário fazer-se bem ler e bem ser respeitado. Livro muito interessante mesmo. Vou procurar mais cousas deste sujeito. Vale! 
Registro #1517 (crônicas #269) 
[início: 04/04/2020 - fim: 12/04/2020] 
"Meu lote", Nei Lopes, Rio de Janeiro: Editora Numa, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 312 págs. ISBN: 978-85-67477-25-1

terça-feira, 14 de abril de 2020

verifique se o mesmo

"Verifique se o mesmo" é um livro de ensaios. Nuno Ramos, que é artista plástico, poeta, pensador da cultura brasileira, oferece ao leitor, neste seu volume mais recente, dois conjuntos de textos. O primeiro, que corresponde a aproximadamente 40% do livro, enfeixa dois longos ensaios [No Palácio de Moebius e Trança (ainda Moebius)], aquele publicado originalmente na revista Piauí, em novembro de 2013, e esse último, inédito, finalizado em dezembro de 2018. Nestes ensaios o autor trata de criadores brasileiros modernos e contemporâneos que alcançaram, nas palavras dele, "(...) uma fonte de potência capaz de reverter a desgraça em liberdade extrema". Todavia, essa fonte de potência é também uma poética narcísica, que autolimita sua generalização, sua universalização (ele usa metaforicamente a curva de Moebius para ilustrar essa dificuldade de exteriorização, de expansão, de algo que é intrinsecamente moderno e valoroso, mas que acaba "voltando-se para dentro, por absoluta falta de ressonância do objeto cultural na vida em que se insere"). Esses brasileiros são João Gilberto, Lygia Clark, Graciliano Ramos, Mira Schendel, Hélio Oiticica, Milton da Costa, Machado de Assis, Glauber Rocha, Caetano Veloso (a primeira parte das composições de Caetano) e Tunga. São ensaios detalhistas, de um articulista que se preocupa com a validade de suas premissas, com o encadeamento lógico de seus silogismos, com os entendimentos possíveis de suas reflexões e conclusões.  Os ensaios funcionam também como "cifras e modelos de leitura", nas palavras dele, da produção plástica, literária, cinematográfica ou musical de seus sujeitos em análise. São textos muito bem escritos, mas que cobram um bom tempo de leitura. Não são ideias de almanaque ou repetição de lugares comuns (cousas que lemos o tempo todo nos cadernos culturais que ainda sobrevivem por aí). O segundo conjunto de ensaios reúne apenas um inédito (uma análise muito boa mesmo sobre a obra de Oswaldo Goeldi, o genial gravador brasileiro). São 19 ensaios  que foram publicados entre 2008 e 2018, e correspondem a 60% do volume. Esse segundo conjunto é de propostas mais focadas, menos panorâmicas ou sintetizadoras que as anteriores (muito embora algumas se encaixam no modelo de infinito da curva de Moebius, de "voltar-se para dentro por falta de ressonância", proposto por ele na primeira parte). Os temas são variados, ma non troppo. Há sobretudo reflexões sobre artes plásticas. Quatro são sobre suas exposições e o impacto delas  ("Bandeira branca", aquela dos urubus na Bienal de Artes de São Paulo de 2010, é notável). Cinco textos são sobre outros artistas, produzidos para catálogos de exposições. Encontramos também um robusto texto sobre Beckett; dois sobre futebol (o sujeito é santista e boleiro confesso); dois sobre música brasileira (que ele diz ecoar em sua obra, sobretudo em função de sua admiração pelos sambas de Nelson Cavaquinho); dois políticos/engajados ("Suspeito que estamos" e "Gente frouxa", que demonstram que ele sabe enxergar longe politicamente, mas suspeito que ele sabe que é uma espécie de Cassandra tropical); um sobre arquitetura (sobre Oscar Niemayer e o tédio que brota de suas construções) e dois meio híbridos (um conto - acho eu, e uma reflexão sobre sua experiência com turismo, contrastando os anos 1970 com o agora). Um último texto, "Loser", corresponde a uma palestra que ele proferiu na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 2015. Trata-se de um resumo híbrido, emocional e racional ao mesmo tempo, de sua produção plástica, suas ambições e suas influências. Enfim, material muito bom mesmo para se ler e refletir nestes dias de outono. Lembrei-me de quando vi os trabalhos do povo da Casa 7 (do qual ele fez parte) na Bienal de 1985, naquele corredor da "Grande tela"; lembrei-me do Samuca, que é citado em um dos textos; lembrei-me da Luciane, que viu comigo uma outra Bienal; lembrei-me das muitas exposições que vi nestes meus anos de errâncias e viagens, lembrei-me das gravuras da Helga. Bueno, uma parte da produção plástica dele pode ser conferida no site Nuno Ramos. É hora de seguir fugindo do baile macabro, da contagem dos mortos, desta histeria contida. Vale! 
Registro #1515 (ensaios #269) 
[início: 18/10/2019 - fim: 11/04/2020] 
"Verifique se o mesmo", Nuno Ramos, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 304 págs. ISBN: 978-85-88808-74-4

terça-feira, 10 de março de 2020

aguafuertes porteñas

As 38 deliciosas crônicas reunidas neste "Aguafuertes porteñas" foram produzidas há muito tempo, mas têm o frescor das cousas poderosas que só autores fortes sabem engendrar. Roberto Arlt nasceu no último ano do século XIX, na Argentina, filho de imigrantes europeus pobres de origem alemã: pai prussiano e mãe austro-húngara. É considerado hoje um dos primeiros autores modernos da Argentina, precursor e mestre de sujeitos igualmente seminais de seu país natal, como Julio Cortázar, Ricardo Piglia, Roberto Bolaño e César Aira. Estas crônicas foram produzidas entre 1928 e 1933. Os temas são variados, tratam do cotidiano e de questões filológicas, com um sentido de humor muito especial. Se por vezes flerta com a sociologia selvagem, de quem parece açodado por entender seu tempo e circunstâncias, sabe deixar ao leitor a continuidade das reflexões sobre questões sociais complexas, das relações entre homens e mulheres, das diferenças entre os cidadãos de seu tempo. Ele sempre está em um café, num restaurante, num transporte público; ouve as histórias das gentes; descreve os tipos raros que encontra; explora a riqueza dos jogos verbais que percebe ou recolhe; antecipa a psicologia freudiana - ao tentar entender as motivações dos leitores e seres bizarros que encontra; vai ao cinema, digressa sobre a política e o tormento das mudanças constitucionais; ironiza sem dó os políticos profissionais; discute as "cartas ao leitor" que recebe na redação do diário El Mundo. Como todo bom cronista, de cidades que tem a fortuna de receber de tempos em tempos bons cronistas, Arlt sabe ser sarcástico e até cruel, mas nunca hipócrita ou falso, nunca preso a escravidão mental de ideologias ou modismos bobos. Em alguma das crônicas ele diz: "(...) doña X, se pasa la vida estudiando la vida del prójimo. Y la estudia com apasionamiento incosciente en todos los detalles exteriores que permitem hacer deducciones profundas, y llega un momento en que ve con más claridad en las vidas de los otros que en la propria". É esse risco que todo cronista corre, quando pretende registrar uma impressão de algo fugidiu que recolhe nas ruas. Que belo livro. Segue o baile. Vale! 
Registro #1498 (crônicas #268) 
[início: 12/11/2019 - fim: 04/01/2020]
"Aguafuertes porteñas", Roberto Art, Ciudad Autónoma de Buenos Aires: EDICOL - Editorial Cooperativa de Libreros, 1a. edição (2014), brochura 13x20 cm., 136 págs., ISBN: 978-987-1263-15-8

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

blues do fim dos tempos

Esse curto ensaio foi preparado originalmente como uma palestra na Stanford University, em 2007. McEwan parte da invenção da fotografia, que congela imagens e tempo desde meados do século XIX, para refletir exatamente sobre o fluir do tempo, sobre nossa mortalidade, sobre o porvir, o futuro, futuro de cada um de nós e de toda a humanidade. Calcado sobretudo num livro de Norman Cohn, The Pursuit of the Millennium, McEwan discute o apocalipse cristão, o milenarismo e sobre as inúmeras seitas que ao longo dos séculos apregoam a iminência do final dos tempos, da morte completa e extinção dos homo sapiens. Trata-se de um ensaio produzido por alguém imune à fé religiosa, da ideia de exista um deus que povoe os céus e nos vigie, controle ou puna. Sua palestra basicamente oferece à audiência, sugere, talvez seja o termo mais apropriado, que não há evidência em nosso passado que possa nos fazer crer em um futuro predeterminado, fixo, previamente decidido por alguma deidade e descrito em algum livro santo ou por alguma revelação mística, que indivíduos possam ter experimentado. Os homens deveriam para ele, emprestando as palavras do biólogo e entomologista americano, Edward Osborne Wilson, conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia, divorciar-se da religião, pois um homem sozinho não consegue produzir um sistema moral de valores e tampouco competir com a exuberante descrição dos apocalipses e finais do tempo engendrados por poetas e artistas visuais  vinculados a todos os grupamentos humanos que desenvolveram sistemas mitológicos sofisticados, porém simples de serem apropriados, entendidos, pelo mais limitado dos fiéis. Morrer é fácil, viver é difícil. Vamos em frente meu caro McEwan, não será desta vez que o milenarismo será esquecido pelos pobres homo sapiens deste periférico e frio planeta. Vale!
Registro #1493 (ensaio #267) 
[início 20/01/2020 - fim: 22/01/2020] 
"Blues do fim dos tempos", Ian McEwan, tradução de André Bezamat, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #29), 1a. edição (2019), brochura 12x18 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-92649-53-1 [edição original: End of The World Blues (Stanford University) 2007]

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

antes não era tarde

De tempos em tempos cada cidade tem a fortuna de ter sua psique capturada com notável maestria (por sujeitos como João do Rio, Rubem Braga, Nelson Rodrigues ou Paulo Mendes Campos, no Rio de Janeiro; Luís Henrique Pellanda, em Curitiba; Humberto Werneck, em Belo Horizonte; Guilherme de Almeida, Lourenço Diaféria, Plinio Marcos, Antonio Penteado Mendonça e Matthew Shirts, em São Paulo, apenas para citar uns poucos). Aqui nos pagos do Rio Grande, nos últimos anos, tenho lido regularmente as cousas de Pedro Gonzaga. Leio ele no jornal gaúcho ZeroHora, usualmente nas quartas-feiras. É certamente meu favorito contemporâneo, dentre os cronistas sulinos. Suas cousas são exemplares no gênero, registros de um cotidiano específico (a sofisticação de quem gravita o mundo dos livros e da cultura aqui no Sul), que provocam empatia no leitor, mas não só isso. A riqueza da linguagem e o controle dos efeitos também se destacam. Há dois anos li "O livro das coisas verdadeiras", uma seleção cronológica de 53 de suas crônicas. Nesse "Antes não era tarde" Gonzaga reuniu outras 54, publicadas entre 2016 e 2019. Desta vez ele optou por uma reunião temática, que parte de registros da infância, segue pela juventude, depois por sua experiência como músico amador, seus anos de iniciação como cronista profissional e as mais recentes, que ainda ecoam notícias vagamente contemporâneas. Esta sequencia temática acompanha portanto seus anos de formação; sua constelação familiar, de amigos e professores; seu cotidiano de viagens, com os pais e depois com amigos; a experiência da leitura, influências, descoberta de autores, o amor pela palavra, o eterno aprendizado, seu auto adestramento no oficio de tradutor e escritor. As crônicas da última seção são mais experimentais, parecem exercícios com a forma, registros de espantos de um mundo que sabe ser maravilhoso, mas que pode nos brutalizar, se não nos permitirmos olhar as coisas com os olhos certos, os de quem antes é honesto consigo mesmo, não aos outros. Vale! 
Registro #1483 (crônicas e ensaios #266) 
[início 19/12/2019 - fim 03/01/2020] 
"Antes não era tarde", Pedro Gonzaga, Porto Alegre: Arquipélago Editorial (A arte da crônica, vol. 9), (1a. edição) 2019, brochura 14x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-5450-033-7

sábado, 28 de dezembro de 2019

os judeus e as palavras

Esse livro acompanhou-me por muitos meses. Comecei a ler ainda em janeiro, semanas após a morte de Amós Oz, há exatamente um ano, num 28 de dezembro como hoje. De Oz, seminal escritor israelense, que tantas maravilhas produziu, só registrei aqui os poucos livros que li após 2007: Sumchi, Escenas de la vida rural, A caixa-preta, e El mismo mar. Todavia, logo o esqueci em algum canto, "Os judeus e as palavras" não era o tipo de livro que se deixava ser lido próximo ao mar e sob sol forte onde eu estava (muito embora deva ter sido escrito nestas condições, pois Oz vivia em Tel Aviv em seus últimos anos). Depois, no final de maio, passei a ler com disciplina, mas li aos poucos, tentando acompanhar bem as reflexões de Amós Oz  e sua filha, Fania Salzberger, uma professora universitária. Se trata-se de uma obra produzida a quatro mãos, o leitor aprende aos poucos a distinguir as ênfases particulares de cada um deles, mesmo quando não é lembrado explicitamente por meio da formula "o romancista entre nós" ou "a historiadora entre nós", que aparece várias vezes no livro. O volume é dividido em quatro capítulos que tem aproximadamente a mesma extensão, 40-60 páginas, e um curto epílogo. Em "Continuidade" é desenvolvido o argumento principal do livro, sua ambição grafada na apresentação: descrever como antes é o amor pelas palavras e a familiaridade precoce com a conversa, o diálogo, a experiência do debate, o que define especialmente o povo judaico de todos os demais. Dito de outra forma, eles argumentam que antes do étnico e do político, o que define os judeus é a história comum e sua interpretação, coletiva e sempre reconstruída, que é passada de indivíduo a indivíduo, de família a família, de rabino a rabino, de yeshiva a yeshiva, de Shtetl a Shtetl. No segundo capítulo, "Mulheres vocais", para mim o mais interessante do conjunto, os Oz defendem que nenhuma outra sociedade, antes do início da modernidade, deu voz às mulheres, as registrou em documentos, as mitificou em histórias tradicionais (ao menos nenhuma outra tem um conjunto tão poderoso de heroínas para cantar e louvar, desde o início dos tempos). Essas poderosas vozes femininas, que ecoam da Torá e do Talmude, são as vozes de uma miríade de mulheres que transmitiram desde sempre a seus filhos a condição e particularidade do povo judaico, alicerçando sua perenidade. "Tempo e atemporalidade", terceiro capítulo do livro, gravita em torno da evolução das palavras, da etimologia do hebraico, de como os jovens, estimulados a estudar a Torá, aprendiam a lembrar, a aprender, a discutir. No quarto e último capítulo, "Cada pessoa tem um nome; ou os judeus precisam do judaismo?", o tom é ligeiramente diferente. Oz e sua filha provocam o leitor a entender a separação entre o hebraico moderno e o hebraico bíblico, a separar a cultura israelita contemporânea da religião e das tradições, entender que o Israel, como estado, é algo bem diferente que o judaismo praticante em todos os lugares do mundo contemporâneo. Que judaismo é uma cicilização. No epílogo os Oz sugerem que o leitor tente imaginar ter lido este livro substituindo sempre  a palavra judeu pela palavra leitor. E é para este leitor - o leitor capaz de se incluir nesta aventura - que o livro foi imaginado. O leitor curioso pode fazer bom uso das extensas notas (chamadas aqui de fontes); de um fundamental glossário e de um detalhado índice onomástico. Apesar de ter terminado de ler há três ou quatro meses, resolvi finalizar o ano com este registro. O formato de interlocução louvado no livro é algo que deveríamos fazer. Claro, vivemos tempos terríveis, onde apenas ouvir os argumentos de outros parece ter se tornado impossível, mas se temos algum apreço pelas eventuais novas gerações, deveríamos ter essa crença na possibilidade de que alguma verdade ou valor possam ser transmitidos, de pais para filhos; de amigos para amigos; de vizinhos a vizinhos; e, até mesmo, entre completos desconhecidos. Talvez para isso - como se diz em um velho filme do Woody Allen - precisássemos de ter a capacidade de amar (pois o universo é indiferente aos homo sapiens). Paciência. Vamos em frente. Em 2020 tem mais. Vale! 
Registro #1480 (crônicas e ensaios #265) 
[início: 30/05/2019 - fim: 07/09/2019]
"Os judeus e as palavras", Amós Oz, Fania Oz-Salzberger, tradução de George Schlesinger, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (201r), brochura 14x21 cm., 251 págs., ISBN: 978-85-359-2523-4 [edição original: Jews and Words (Berlin: Jüdischer Verlag Berlin) 2013]

sábado, 30 de novembro de 2019

nada se vê

Há livros que nos encantam não apenas pelo conteúdo, informações e conceitos que por meio deles aprendemos. Há aqueles que oferecem uma forma diferente de entender as coisas, algo distinto do convencional, que aguça nossos sentidos, aprimoram nosso olhar. É o que Daniel Arasse alcança com este seu volume de ensaios sobre arte, sobre pintura, sobretudo. O formato do volume é simples. Toma-se uma composição e faz-se uma descrição detalhada dos símbolos, referências, contexto histórico e motivações daquela proposta plástica, daquele objeto artístico. Contudo, o que Arasse incorpora em suas reflexões é apenas uma fração do que pode-se definir como "complexos mecanismos mentais" que cada um de nós, os sujeitos que ficam defronte um quadro ou - ainda que menos efetivamente - defronte a uma reprodução de um quadro, experimenta, elabora e associa, sintetiza, compreende e arbitra. Os seis ensaios gravitam cinco pinturas icônicas e uma peça escultória, arte produzida nos séculos XV, XVI e XVII: Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano (de Tintoretto, circa 1550); Anunciação (de Francesco del Cossa, circa 1470-72); Adoração dos Magos (de Bruegel, 1564); Maria Madalena com anjos (de Tilman Riemenschneider, 1490-92); Vênus de Urbino (de Ticiano, 1538) e As meninas (de Velázquez, 1656-59). Não me atrevo a tentar resumir aqui as notáveis reflexões de Daniel Arasse sobre cada uma destas pinturas (assim como de uma dezena de outras, de vários outros artistas, com as quais ele contrasta as seis peças principais). Foi antes o uso da linguagem, os truques retóricos, as figuras de linguagem, o ritmo e o colorido das frases de Arasse que me surpreenderam. Vivemos em uma época terrível, onde mesmo pessoas formalmente educadas são incapazes de descrever o que veem, inaptas para interpretar os mais simples dos códigos, refratárias a qualquer sutileza, ironia, jogo mental. O que Arasse muito necessariamente nos ensina é ser possível conciliar toda uma tradição de historiografia da arte com o mundo das relações coloquiais, ligeiras e efêmeras da modernidade. É tempo sim de voltar aos livros de arte, preparar-me para os ritos de passagem de ano, preparar as peregrinações pelos museus e galerias.  Vale! 
Registro #1472 (crônicas & ensaios #264) 
[início: 09/10/2019 - fim: 11/10/2019]
"Nada se vê: seis ensaios sobre pintura", Daniel Arasse, tradução de Camilda Boldrini e Daniel Lühmann, São Paulo: Editora 34, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-7326-729-7 [edição original: On n'y voit rien: descriptions (Paris: Éditions Denoël) 2000, 2005]

sábado, 2 de novembro de 2019

três ícones

Massimo Cacciari, filósofo italiano, ensaísta dos bons, apresenta neste pequeno volume três curtos ensaios sobre arte. Ele fala de três obras produzidas no século XV que considera "(...) em sua finalidade, em ato, apresentarem um pensamento pictórico específico". As três obras são: "A trinidade", de Andrei Rublev, parte do acervo da Galeria Tretyakov, em Moscou; "Ressurreição", de Piero della Francesca, parte do acervo exposto no Museo Civico de San Sepolcro, na Itália; e "Retrato dos Arnolfini", de Johannes de Eyck, do acervo da National Gallery, de Londres. Cacciari alcança encontrar nas três obras camadas de símbolos, de representações, de informações cifradas. Sua narrativa ilumina as obras, cada gesto capturado pelo artista, cada fragmento das imagens é por ele desconstruído, forçado a mostrar sua razão de estar ali. O que ele faz é basicamente narrar toda uma simbologia cifrada. Mas, a meu juízo, o leitor quase se afoga neste mar de referências cruzadas. A linguagem utilizada por Cacciari é muito técnica, coisa que certamente afasta alguém não muito familiarizado com a história da arte, com história das religiões, com estética, sociologia, com a filosofia, como eu. Difícil decisão recomendar ou não um livro assim. Gosto mais do estilo de Cees Nooteboom quando apresenta suas reflexões sobre arte (dele já li os seminais "El bosco", "Zurbarán", "El enigma de la luz", "Tumbas"). Claro, a rica e exuberante descrição das obras que Cacciari oferece ao leitor nos dá oportunidade de ilustrar-nos mais, a aprender algo que não conhecemos, afinal, em algum momento de nossa história perdemos a capacidade de entender certas alusões iconográficas. Será o caso de invejarmos nossos ancestrais do medievo, da renascença? Todavia, apesar do livro ser curtíssimo, precisei investir um bocado de tempo nele para poder dizer "que li este livro". Vamos em frente, tenho um outro Cacciari para registrar em breve. Vale! 
Registro #1464 (crônicas e ensaios #263) 
[início 03/04/2019 - fim: 14/09/2019] 
"Três ícones", Massimo Cacciari, tradução de Denise Bottmann e Federico Carotti, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Pré textos | Kutchak #2), 1a. edição (2007), brochura 12x18 cm., 74 págs., ISBN: 978-85-92649-14-2 [edição original: Tre Icone (Milano: Adelphi Edizione S.P.A Milano) 2007]

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

crônicas velozes

Neste volume encontramos dez crônicas curtíssimas e um esquete teatral brincalhão de Cláudio Portella, talvez o mais inquieto dos escritores de  Fortaleza. Eles funcionam como apontamentos de ideias que poderiam ser expandidas em contos, fragmentos de epifanias, registros de estados de humor. Portella fala de músicos (Jards Macalé, Luiz Melodia, Belchior); escritores (Eduardo Portella, Antônio Cândido); artistas plásticos (Sérvulo Esmeraldo) e também faz sociologia selvagem, refletindo sobre jogos, sua formação universitária, a felicidade possível, o sexo. É uma proposta honesta, mas algo mais fraco que as coisas dele que já li: seus aforismos, sua poesia, seu romance. Paciência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1438 (crômicas e ensaios #262) 
[início - fim: 17/07/2019]
"Crônicas velozes", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2018), brochura 12x19 cm., 16 págs., ISBN: 978-85-420-1217-0

domingo, 16 de junho de 2019

a word in your ear

Li este livro ainda em sua versão primitiva, original, um PDF que o Eric Rosenbloom enviou-me em 2003 ou 2004, há quinze anos pelo menos. Rosenbloom é um entusiasta das cousas de James Joyce, de seus livros, e é também um dos pioneiros na nobre arte de editar livros com baixo custo e disponibilizá-los e/ou vendê-los em plataformas digitais. Neste seu "A Word in Your Ear" ele orienta o leitor a como enfrentar o desafio supremo que é a leitura de Finnegans Wake, de James Joyce. Desde sua publicação original, em maio de 1939, Finnegans Wake tem produzido reações de amor e desprezo, de louvor e ódio, de encantamento e rechaço, de entusiasmo e decepção. Neste 2019, quando comemoramos os 80 anos do lançamento do maior portento de Joyce, resolvi conferir novamente as curtas notas de Rosenbloom. Trata-se de um livro compacto, pequeno, só 150 páginas. Todavia, nada nele é dispensável, irrelevante, supérfluo. O livro é dividido em duas partes. Na primeira Rosenbloom se dedica a explicar algo sobre a linguagem e técnica utilizada por Joyce, fala dos personagens e propostas do livro, destrincha seus ciclos, faz associações, dá sugestões de como abordá-lo, discute a geografia, estrutura, história incluída nele, trata de uma miríade de outros temas correlatos ao romance. Na segunda parte ele faz uma espécie de leitura guiada por partes icônicas do livro (Anna Livia Plurabelle, The Mookse and the Gripes, The Ondt and the Gracehoper, King Roderick O'Conor) e treze outras passagens curtas igualmente memoráveis (The Ballad of Persse O'Reilly, Shem The Penman, Farewell to Haun, Anna Liffey, e tantos outros). Ler Finnegans Wake é tarefa para um vida, cada leitor aplica uma camada de associações e entendimento no infinito palimpsesto que o compõe. Todas as abordagens são permitidas, todas as especulações válidas. Algumas realmente demonstram ser caminhos férteis, ouro puro, fino e seminal, outras só becos sem saída, tonterias, achismos sem fim e nexo. Acontece, não só na fortuna crítica dos livros de James Joyce, mas na crítica de qualquer opúsculo ou volume que é impresso, desde que o homo sapiens inventou de contar histórias em uma caverna. De qualquer forma a ideia com Joyce sempre é se divertir. Bueno. Boa parte do livro pode ser acessada sem custo no site de Rosenbloom. Experimente. E aproveite, comemore o Bloomsday, leia James Joyce, divirta-se hoje e sempre. Afinal hoje é 16 de junho, dia de hera na lapela, dia de deambular pela cidade, saudade. Comece em qualquer ponto do livro, sem medo, sem temor, comece por "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1417 (crônicas e ensaios #261)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"A Word in Your Ear: How & Why to Read James Joyce's Finnegans Wake", Eric Rosenbloom, Charleston/South Carolina: BookSurge Publishing, 1a. edição (2005), brochura 13x20,5 cm, 150 págs., ISBN:1-4196-0930-0

sábado, 15 de junho de 2019

panorama do finnegans wake

Há dois dias falei de "Finnegans Wake: a plot summary", de John Gordon, um dos muitos livros dedicados a decifrar o inventivo romance final de James Joyce. Hoje, como parte dos festejos para o Bloomsday 2019, vou registrar algo sobre o primeiro projeto de tradução de Finnegans Wake para o português.  Augusto de Campos e Haroldo de Campos começaram a se interessar pelo tema no final dos anos 1950, ao publicarem fragmentos do livro no Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Em 1962 eles publicaram em uma edição não-comercial, hors commerce, distribuída pela Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, onze fragmentos do "Finnegans Wake". Na primeira edição comercial, de 1971, que inaugurava a hoje mítica coleção SIGNOS, da editora Perspectiva, o conjunto de fragmentos cresceu, alcançando 16 trechos. Em 1986, na terceira edição, o conjunto alcançou 19 e nesta, a quarta e última produzida ainda antes da morte de Haroldo de Campos, o conjunto de fragmentos de "Panorama de Finnegans Wake" chegou a 22, além de numerosas adições e reinterpretações às demais. São propostas muito bacanas, gostosas de ler, que povoam o cérebro do leitor com imagens e inspirações. As muitas dificuldades (diria até intransponibilidades) do livro parecem desaparecer após a leitura das propostas dos irmãos Campos, um trabalho de perfeccionismo comparável ao do original. Além dos fragmentos, que são acompanhados por extensas notas de tradução, o leitor encontra neste volume vários outros mimos, na forma de uma bibliografia completa sobre Joyce e sua obra; uma síntese biobibliográfica; uma sinopse do livro, que ajuda o leitor a localizar no original os fragmentos traduzidos; uma longa apresentação; várias ilustrações (assinadas por Gerty Saruê, uma gravadora, desenhista, artista multimídia austríaca que radicou-se em São Paulo nos anos 1950) e cinco longos ensaios sobre o Finnegans Wake, um assinado por Joseph Campbell e Henry Morton Robinson, três por Augusto de Campos e um por Haroldo de Campos, cinco jóias raras, artigos realmente seminais. Lembro-me de quando encontrei em um sebo paulista um surrado volume da edição de 1971 (que inclusive tinha uma paginação errada, que dificultava a leitura). Estou seguro que "Panorama do Finnegans Wake" é o melhor início para a aventura que é ler Finnegans Wake. Bom divertimento. Domingo é 16 de junho, é Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1416 (crônicas e ensaios #260)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Panorama do Finnegans Wake", Augusto de Campos e Haroldo de Campos, São Paulo: Perspectiva, 4a. edição (2001), brochura 15x20,5 cm, 221 págs., ISBN: 978-85-273-0270-5

quinta-feira, 13 de junho de 2019

finnegans wake, a plot summary

De toda a miríade de livros dedicados a decifrar o "Finnegans Wake", genial romance de James Joyce, esse é um dos mais convincentes. Lembro-me do assombro de encontrar nele tantas respostas às dúvidas que tinha quando comecei a tentar ler o Finnegans (e ao mesmo tempo de encontrar nele tantas outras perguntas novas e associações amalucadas - associações que até hoje tento entender). De qualquer forma, não é possível acreditar que em um único livro seja possível alcançar uma sinopse ou sumário definitivo. Há quem tente. Em seu "Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, professor já aposentado do Connecticut College, explica capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, linha a linha, o resultado de suas reflexões, considerações alcançadas após seus muitos anos de dedicação à obra de Joyce. Assim como no Ulysses acompanhamos algumas horas de um dia na vida de um sujeito, Leopold Bloom, no Finnegans Wake acompanhamos a noite e os sonhos de um outro sujeito, chamado Humphrey Chimpden Earwicker, uma noite e sonhos que resumem a história e os ciclos da humanidade, de todos homo sapiens. John Gordon fala do dia em que acontece esses sonhos (a noite de uma segunda-feira para terça-feira, a noite do 21 de março de 1938, dia do equinócio); o lugar (Chapelizod, subúrbio ao oeste de Dublin, nas margens do Liffey), fala da estrutura do livro; de HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), ALP (Anna Livia Plurabelle), os irmãos Shem e Shaun, dos demais personagens, todos em suas múltiplas metamorfoses; dos temas; das associações possíveis; das formas de tentar alcançar alguma compreensão sobre o livro. Falar de Finnegans Wake é falar da vida, das autobiografias possíveis, do fluxo de tudo que já foi experimentado por nós, homo sapiens, neste tempo em que povoamos o planeta, ai de nós. Para quem quiser experimentar o estilo de Gordon, ele oferece a qualquer leitor, em seu seminal blog, material que é continuamente retrabalhado, refletindo o estado da arte nas reflexões da comunidade dedicada aos estudos sobre James Joyce e sua obra. Ele promete um novo livro para 2020. Vamos a ver. E vamos lá nosotros. Domingo é 16 de junho, é dia de Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1415 (crônicas e ensaios #259)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, New York: Syracuse University Press, 1a. edição (1986), brochura 14x21,5 cm, 302 págs., ISBN: 0-8156-2396-8

sexta-feira, 7 de junho de 2019

haroldo de campos, para sempre

Há livros que não precisam ser extensos para alcançarem a categoria de fundamentais. Pois neste seu "Haroldo de Campos: para sempre" Lucia Santaella apresenta em poucas páginas um panorama rico da personalidade e obra de seu amigo, colega e mestre. Trata-se de uma justa homenagem a Haroldo de Campos, que morreu precocemente, já há mais de quinze anos, em 2003. Em seis breves capítulos Santaella nos ensina o quão completo e seminal foi Haroldo, tanto para o mundo da cultura, da literatura e da arte, quanto para o mundo da educação, da formação de novas gerações de pensadores e praticantes das artes poéticas. No primeiro capítulo ela fala da formação intelectual e acadêmica de seu biografado e da gênese da composição e publicação de toda sua obra. Nos demais Santaella complementa esse capítulo inaugural e passa a nos apresentar as várias facetas de um legítimo e digno Il miglior fabbro de seu tempo: simultaneamente poeta, crítico, ensaísta, tradutor, teórico, professor e amigo. Não são peças simplesmente laudatórias. Ela fundamenta suas reflexões e situa com vastas referências as muitas contribuições de Haroldo, sejam as mais teóricas, para o campo da tradução e/ou transcriação, sejam as especialmente poéticas, que dão conta de sua original invenção poética. Uma completa bibliografia e uma robusta lista de referências orienta o eventual leitor para onde rumar caso queira mais informações sobre Haroldo de Campos, mais sabedoria, mais luz haroldiana. No portal da Casa das Rosas e no portal do Itaú Cultural há bons textos curtos sobre ele. Santaella dá destaque a qualidade de uma tese defendida por Thelma Médici Nóbrega em 2005, sobre a biografia intelectual de Haroldo, mas descobri que apenas do abstract desta tese está disponível digitalmente. Eu cá sugiro o bom Signâncias, Festchrift publicado em 2011. Enfim, em agosto Haroldo de Campos completaria 90 anos. Talvez seja o caso de ler alguma coisa dele, celebrar uma vez mais sua obra e vida. Talvez seja a hora de reler os fragmentos do Finnegans Wake que ele e seu irmão  Augusto traduziram, afinal o Bloomsday a caminho está. Evoé Haroldo, evoé. Vale! 
Registro #1412 (crônicas e ensaios #258)
[início: 27/05/2019 - fim: 29/05/2019]
"Haroldo de Campos: para sempre", Lucia Santaella, São Paulo: EDUC, 1a. edição (2019), brochura 14x18 cm, 80 págs., ISBN: 978-85-283-0626-2