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domingo, 23 de junho de 2019

golegolegolegolegah!

Já havia lido e registrado aqui quase todos os livros do curitibano Marcio Renato dos Santos. Eles são, pela ordem, "Dicionário amoroso de Curitiba", "Minda-au", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje", "Outras dezessete noites", "A certeza das coisas impossíveis" e "A cor do presente". No ano passado consegui mais um da lavra dele, esse volume com título provocativo e incerto: "Golegolegolegolegah!". São seis contos curtos, contos onde os personagens ou são fantasmas, espectros; ou sonhadores, criaturas em sonho profundo; ou gente que já morreu em vida, que perdeu o sentido, desistiu dela. Os contos correspondem a experimentos de estranhezas, de situações limite, de excessos, são algo inclassificáveis (e eu aqui tentando classificá-los a todo custo, vai entender?). O resultado é bom, pois os contos provocam no leitor este exercício de entender a possibilidade daquela vida, daquele comportamento, daquele mundo inventado. Acompanhamos seis homens que estão entediados e repetem ações obsessivamente; vagam pela cidade sem rumo e propósito, cultivam o silêncio, flertam com fragmentos de suas memórias, de seus passados, jactam-se de uma vida vazia, sem significado, excêntrica. Bacana. Cada conjunto de contos de Marcio Renato é mesmo uma aventura para os sentidos. Vamos a ver o que ele vai nos propor no futuro. Ojo!
Registro #1421 (contos #164) 
[início: 29/05/2019 - fim: 30/05/2019]
"Golegolegolegolegah!",  Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Travessa dos editores, 1a. edição (2013), brochura 13x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-89485-90-6

quarta-feira, 10 de abril de 2019

a cor do presente

Marcio Renato dos Santos se reinventa uma vez mais com esse seu "A cor do presente", um pequeno livro de contos. Se no livro anterior, "A certeza das coisas impossíveis", ele inventava onze contos a partir de fragmentos, curtas histórias recortadas das quais jamais saberíamos a gênese ou o desfecho, neste ele parece querer fixar em prosa alucinações, delírios, mecanismos mentais, paranoias ou ainda o fluxo de consciência de indivíduos mais que estranhos, doentes, bizarros. Absurdices talvez seja o neologismo que definiria bem o núcleo das onze narrativas. As histórias tratam do acaso de um acidente; do pesadelo ou do transe induzido pelo álcool; de um personagem que busca um enredo; do sujeito que se intoxica com coelhos e cores; do casal que fofoca sobre a vida de um palestrante; de uma courier que se imagina em perigo; de uma mulher que imagina seu futuro enquanto come seu jantar; de um homem que experimenta assédio e parece perder a razão; das facetas de uma vingança patética, injusta; de um diabo travestido de taxista; do provável desfecho de um jogo de futebol de várzea. Se o leitor é açodado consegue ler o livro em menos de uma hora, mas talvez essa não seja a forma mais adequada, talvez esse seja o tipo de livro que devemos deixar à mão, para ser lido quando, à exemplo de seus personagens, estivermos inebriados, no umbral do sonho, do desejo ou do pesadelo. Os demais livros de Marcio que já registrei aqui são, pela ordem, "Minda-au", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites". Bom divertimento. Vale! 
Registro #1374 (contos #160) 
[início-fim: 19/03/2019]
"A cor do presente", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2019), brochura 11,5x18,5 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-917171-8-7

domingo, 24 de junho de 2018

a certeza das coisas impossíveis

Marcio Renato dos Santos é o senhor das histórias curtas, curtíssimas. De sua imaginação brotam coisas inusitadas que a princípio resistimos a aceitar, talvez por algum mecanismo de defesa, já que somos todos parecidos com aqueles homens ocos e bizarros que ele descreve, em histórias que se resolvem num sopro, como na vida. "A certeza das coisas impossíveis" é seu sétimo volume de contos publicados (os anteriores são, pela ordem, "Minda-au", "Golegolegolegolegah!", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites"). Nesse estão reunidas onze histórias recortadas, nas quais saberemos apenas um fragmento epifânico da vida de alguém: de uma mulher que imagina o homem certo que deve entrar em sua vida; de um sujeito que por ansiedade sonha uma situação amalucada; da cinéfila que vê seu mundo de fantasias ruir; do solitário que publica sobre si em classificados de jornal; de uma deusa grega metamorfoseada e revivida no mundo moderno; do vendedor que acorda ao lado de uma amante morta; de um militar corrupto que imagina poder repetir o mito de Odisseu; de dois rapazes que discutem sua relação após a morte de um amigo; de um sujeito que sonha poder higienizar seu caminho para o trabalho. Algumas histórias são melhor resolvidas que outras, mas o conjunto é bom. Gostei particularmente de "Vertigo [Passo a passo]", uma espécie de "Vidas paralelas" de Plutarco adaptado para contar os sucessos de dois curiosos anônimos curitibanos. Há humor nas histórias, mas as parcas parecem velar silentes por todos contos, terríveis e inevitáveis que são. Vale! 
Registro #1273 (contos #147) 
[início-fim: 19/06/2018]
"A certeza das coisas impossíveis", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2018), brochura 11,5x18,5 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-917171-7-0

quinta-feira, 6 de abril de 2017

outras dezessete noites

Se eram os diálogos e a experimentação com a forma que chamavam a atenção em "Finalmente hoje", o livro anterior de Marcio Renato do Santos, o que encontramos em "Outras dezessete noites", seu livro mais recente, é a força do instantâneo, do registro quase fotográfico de uma cena banal, costumeira, exemplarmente humana. É notável sua capacidade de capturar em pequenos registros a potência de certos fenômenos urbanos, do inusitado de muitos comportamentos socialmente aceitos, de chamar nossa atenção para as epifanias do cotidiano. O olho do narrador perscruta  personagens, tira deles os pensamentos mais entranhados e fugidios. Marcio Renato não exatamente faz seus personagens produzirem um fluxo contínuo de consciência, mas o leitor, a cada conto, parece estar em ambientes onde uma miríade de vozes particulares ecoam, mas apenas umas poucas são inteligíveis e acabam fazendo sentido, para logo serem substituídas por outro conjunto delas, igualmente brutais e interessantes. Os personagens estão sempre prestes a tomar uma decisão, ou parecem que irão postergar ainda um tanto mais decisões que já deveriam ter tomado. Ao leitor, voyeur da misérias humanas, cabe uma surpresa a cada história, a cada noite. Há uma discreta conexão entre os contos, transições sutis, como aquelas que intuímos ao vermos de longe uns escolhos de um mesmo rochedo que afloram d'água, próximo a costa ou mesmo em alto mar. Acho que já falei o quanto os contos do Marcio Renato me lembram as cousas do Raymond Carver. Vamos ver para onde esse curitibano inquieto nos levará. 
[início: 16/03/2017 - fim: 17/03/2017]
"Outras dezessete noites", Marcio Renato dos Santos, Curitiba-PR: editora Tulipas Negras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-917171-4-9

terça-feira, 10 de maio de 2016

finalmente hoje

Do Marcio Renato já li uns bons livros de contos e um dicionário saboroso sobre sua Curitiba fundamental. "Finalmente hoje" é sua quarta coletânea. São 14 histórias, curtas, onde encontramos diálogos rápidos, informais, usualmente bem humorados, mas que alcançam lirismo nas situações duras, que captam o ritmo frenético do cotidiano e algo do assombro que experimentamos todos, todos os dias. Ele experimenta um bocado. As histórias têm temas variados, mas em quase todos encontramos um jogo sobre a passagem do tempo. Os narradores de Marcio falam da lembrança de um sujeito sobre uma mulher, tia de um amigo ("Com açúcar, com afeto"); das consequências incontroláveis do desapego ("Um a um"); da memória intoxicada que uma mulher tem de dois homens ("Finalmente hoje"); de um sujeito que sonha e não sente o tempo que passa ("Enviar uma carta") ; da cupidez de um taxista ("O segredo do casamento"); do transe de alguém que precisa de um ônibus ("Jardim Paraíso"); de um perdedor que não se lamenta de sua sina ("Vigília"); de um casal e sua escatologia ("Semiticona"); da rotina mortal de um sujeito ("Bem-estar, poucos passos"); da típica rede de intrigas num escritório ("Feliciano é o meu senhor e nada me faltará"); das cenas terríveis de um casamento ("O bom espírita"); dos devaneios de um escritor ("É um táxi que chega inesperadamente"). Gostei particularmente de "Pimenteira", que reproduz os desatinos provocados pela superstição em um empresário e de "Não dá pra segurar", quase um exercício freudiano de recuperação de memórias; mas cada um dos contos a seu modo defende-se bem (Mempo Giardinelli, um mestre do gênero, já disse que há contos que se tornam populares a despeito da falta de carinho que o escritor tem por eles, enquanto outros, dos quais se esperava sucesso, que fossem muito lidos, acabam esquecidos pelos leitores. Sempre há mistério na sobrevida das histórias que são criadas com dor e carinho, mas inevitavelmente fogem de casa, escondidas nos livros). Vamos a ver o que encontraremos na próxima safra deste curitibano inquieto. Vale.
[início: 09/05/2016 - fim: 10/05/2016]
"Finalmente hoje", Marcio Renato dos Santos, Curitiba-PR: editora Tulipas Negras, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-917171-2-5

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

minda-au

São sete contos curtos, compactos, que se deixam ler com alegria. "Minda-au", publicado originalmente em 2010, foi o livro de estréia de Márcio Renato dos Santos. Ele é o homem curioso que anda por sua Curitiba ancestral catalogando as gentes, os hábitos, os comportamentos (dele já li os bons "Mais laiquis", lançado este ano; "2,99" e "Dicionário amoroso de Curitiba", ambos de 2014. Em "Sub" acompanhamos o impacto da chuva na vida de um sujeito que vive nas ruas, num contraste  lírico entre riqueza e pobreza; em "A guitarra de Jerez" o tom já flerta com o fantástico, quando seguimos os azares que uma guitarra enfeitiçada trás a seus proprietários; em "O espírito da floresta" a ironia subjuga o fantástico, quando trilhamos a rotina de uma mulher assombrada por uma lenda urbana; "De teletransporte número 2" pode ser tanto o sonho amalucado de um rapaz quanto o delírio de alguém que foi alvejado em um assalto e delira; "Os homens sem alma" já é mais cruel, pois o narrador faz o censo das mediocridades encarnadas em um sujeito; "Pra quem busca uma vida nova" rimos da solidão de um rapaz curitibano que tenta viver em Porto Alegre para descobrir simultaneamente a inaptidão dele para o exílio voluntário e o provincianismo da cidade que ele antes idealizava; "Ali, agora" é uma espécie de réquiem que um jovem escritor produz para seu mentor, seu antigo mestre, que agoniza (ou já está morto). São histórias singelas, onde sempre se capta um sentimento genuíno, uma virtude, um aspecto do cotidiano contemporâneo, ou ainda algo abstrato, aquilo que podemos associar aos compromissos que os homens fazem para sobreviver com alguma dignidade frente os aborrecimentos desta vida.
[início: 09/10/2015 - 13/10/2015]
"Minda-au", Marcio Renato dos Santos, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2010), brochura 13,5x20.5 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-01-09016-4

quarta-feira, 8 de abril de 2015

mais laiquis

São treze contos curtos, ligeiros, que se deixam ler num par de viagens da casa para o trabalho. O que se narra é o cotidiano de uma grande cidade, a vida que passa num sopro, o realismo áspero deste início de século, a ilusão de que quanto mais rapidamente fazemos algo mais ativos estamos, seja no trabalho, numa etapa nos estudos, num deslocamento, numa tarefa, no exercício do amor e da mundanidade, nas múltiplas interações com os outros. O humor dos contos é apenas aparente, camufla destinos ou comportamentos algo cruéis. Marcio Renato narra sobretudo aborrecimentos: o de uma garota que espera o amante acordar num hotel, sem ânimo para postar algo numa rede social; a noite de um profissional que se embriaga como se comemorasse mais sua solidão que o sucesso no trabalho; o desaparecimento de um corretor que sabe de sua inaptidão para viver numa grande cidade; o anacronismo de uma banda de velhos amigos roqueiros; a inveja dos amigos de um sujeito que alcança publicar um livro; a entrevista amalucada com um crítico de arte charlatão; a namorada de um ciclista que descobre que não o conhece muito bem. O minimalismo deles lembra Raymond Carver (lembrei várias vezes de um velho filme de Robert Altman baseado nos contos de Carver, "Short Cuts"). Marcio sabe escrever bons diálogos e quando é descritivo foca no que realmente é fundamental na história. Eu, mais velho e mais pessimista que ele, chamaria esse livro de "Os desajustados", porém "Mais Laiquis" talvez seja irônico na medida certa para identificar o bom livro que é.
[início - fim: 07/03/2015]
"Mais Laiquis", Marcio Renato dos Santos, Curitiba/PR: editora Tulipas Negras, 1a. edição (2015), brochura 13x21,5 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-917171-1-8

sábado, 23 de agosto de 2014

2,99

De Marcio Renato dos Santos só conhecia seu "Dicionário amoroso de Curitiba", que já resenhei aqui. A protagonista daquele dicionário é sua Curitiba fundamental, entretanto Marcio soube povoá-la com um bocado de personagens interessantes. "2,99", o mais recente livro dele publicado, também trata das coisas urbanas, mas agora sua Curitiba se esconde algo tímida nas histórias e deixa brotar delas uns personagens estranhos, que são como fantasmas que assombram a si mesmos. As histórias são curtas e convincentes. Uma fala da rotina de um alcoólatra que para de beber e encontra o sucesso; noutra um motorista infernal transporta o narrador para um destino incerto; noutra ainda três personagens saem em busca de um enredo: procuram algo na vida dos outros. Os contos não são verborrágicos, nem servem de plataforma para longas teorias sociológicas e/ou psicológicas. Eles apresentam situações corriqueiras (que estão sempre no limite da estranheza ou da loucura, mas nunca se abrigam na irrealidade ou no fantástico. Gostei particularmente de "Guevarinha" (sobre um casal de esquerdistas festivos), "Bia" (sobre uma garota que faz o censo de suas amantes), "Nóia" (sobre uns amigos que veem TV e futebol como uma espécie de meditação) e "Caminho de Santiago" (sobre um sujeito que se sente culpado e vaga pelas escadas de um escritório ou labirinto). Bueno. São 16 contos no total. Dezesseis invenções onde o leitor acompanha sempre um narrador muito curioso do destino das pessoas que encontra ao acaso (e boa parte desta curiosidade o Marcio Renato alcança transferir ao leitor através de sua boa prosa).
[início: 11/08/2014 - fim: 12/08/2014]
"2,99", Marcio Renato dos Santos, Curitiba/Paraná: Tulipas Negras Editora, 1a. edição (2014), brochura 12,5x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-917171-0-1

quarta-feira, 21 de maio de 2014

dicionário amoroso de curitiba

Como nos ensina o corretíssimo Ricardo Freire devemos sempre "viajar nas viagens". Pois semanas atrás estava eu em Curitiba numa missão acadêmica e eis que encontrei num jornal, durante o café da manhã, informações sobre o lançamento de "Dicionário amoroso de Curitiba" (as coincidências nunca são irrelevantes e Hegel estava certo quando disse que os jornais são a oração matinal do homem civilizado). Como os queridos don Caetano e doña Sandra andavam ariscos, envolvidos num compromisso sério, rumei sozinho para o local do lançamento do livro (a boa Livrarias Curitiba). A sessão de autógrafos propriamente dita aconteceu após um bate-papo entre autor, ilustrador e editor (respectivamente Marcio Renato dos Santos, Osvalter Urbinati e Rosel Soares). Marcio apresenta ao leitor 42 verbetes onde fala de cousas que ele acredita identificarem especialmente sua Curitiba. São antes reflexões descompromissadas que crônicas, antes invenções de um biógrafo generoso que história ou jornalismo, antes um registro contemporâneo dos dias da cidade que um flerte com sua mitologia. Marcio fala de pessoas (uma miríade delas, que esse leitor neófito pouco conhece: Guido Viaro, Karol Conká, Roberto Gomes e Jamil Snege, por exemplo) e de lugares (Passeio Público, Santa Felicidade, Torto Bar, Museu Oscar Niemeyer, Feira do Largo da Ordem), mas a maioria dos verbetes falam daquilo que é sempre imaterial porém define as cidades (os hábitos - fiéis camareiros; as experiências com o clima; o censo das tribos urbanas; os segredos quase inconfessáveis; a memória afetiva daquilo que jamais é factual). Osvalter Urbinati assina 11 boas ilustrações. Senti falta de um verbete com "X", mas isso é coisa de quem gosta de ordenar o mundo. Livro divertido, que se não é confessadamente um guia, serve para para que um curioso sobre as coisas de Curitiba possa imergir um tanto nela. Vale.
[início: 06/05/2014 - fim: 08/05/2014]
"Dicionário amoroso de Curitiba", Marcio Renato dos Santos, Anajé/Bahia: Editora Casarão do Verbo, 1a. edição (2014), brochura 15x23 cm., 165 págs., ISBN: 978-85-61878-36-8