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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

triste

Rafael Sica é senhor dos silêncios, daquilo que não precisa ser explicitamente dito, com seu traço congela cousas que todo homo sapiens imediatamente entende, pouco importa quem seja, de que lugar venha, se goste ou não de cartuns, de ilustrações.  Em "Triste" encontramos trinta ilustrações em grande formato, mais ou menos A3, em que sempre um sujeito parece indiferente aos espantos do lugar onde está, parece inerte, alheio, preso em reflexões, em sonhos. Catão já nos ensinou que "Nunca estou mais ativo do que quando nada faço, nunca estou menos só que quando a sós comigo mesmo". Talvez seja isso, o sujeito retratado por Sica não se ilude com o bizarro de seu entorno, não reage ao surreal, a indiferença do universo, aos azares do dia. A magia - ou uma perversa volta do parafuso - seria se fosse possível que cada um de nós entendêssemos os pensamentos dos outros, nossos mútuos estados de ânimo, compartilhássemos medos e preocupações. Alcançaríamos nos tornar sujeitos mais solidários, menos maus, mais empáticos, menos canalhas? Jamais saberemos. Neste link da Lote 42 um eventual leitor pode ter uma ideia de como esse livro foi produzido. Grande Sica. Vamos a ver com o quê este inquieto artista nos provocará no futuro. Vale!
Registro #1490 (quadrinhos #77) 
[início - fim: 30/01/2020] 
"Triste", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2019), wire-o e capa em serigrafia 26x37 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-66740-44-8 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

fachadas

Encontrei essa "sanfona" do Rafael Sica lá no Instituto Goethe de Porto Alegre, quando acontecia a IX FestiPoa Literária, organizada sempre pelos prodígios do Fernando Ramos. Do Sica já li os bons "Ordinário" e "Fim". Em seu "Fachadas" estão reunidas 28 ilustrações sobre o tema título do livro e 28 vinhetas, no verso delas. A contra capa diz acertadamente que trata-se de "um livro sobre uma cidade que poderia ser qualquer uma". São instantâneos urbanos, ora realistas, ora amalucados, todos eles bem humorados, críticos, silenciosos como sempre nos trabalhos dele, evocativos de uma linguagem sutil que pode-se alcançar dominar, mas pouco praticamos, ai de nós, que é a empatia. Meu primeiro instinto foi o de separar as folhas da sanfona e enviar como cartões postais, mas como destruir uma obra de arte? Iinicialmente eu iria classificar "Fachadas" na tag "hq's, cartuns e mangás" deste blog, mas preferi identificá-lo como "livro de arte". Much more suitable!. O trabalho dele pode ser acompanhado na página: /RafaelSica. Bom divertimento.
[início/fim: 03/06/2017]
"Fachadas", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2017), sanfona/concertina 10,5x15 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-66740-23-3

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

fim

De Rafael Sica só conhecia o impressionante "Ordinário" e suas tiras no jornal Folha de São Paulo. Meses atrás fui conferir os trabalhos do Paulo Chagas na edição da Parada Gráfica (feira de expositores e editores de publicações independentes que acontecia ali no Museu do Trabalho de Porto Alegre) e eis que vi don Rafael Sica mascateando suas coisas. Falei rapidamente de minha admiração por seu trabalho e do quanto achava surpreendente um autor respeitado como ele estar ali (uma surpresa muito tola a minha, mas sou mesmo o menor dos anões desta paróquia quando o assunto é entender quem é mesmo que paga os tais almoços grátis de que falava o Milton Friedman). Bueno. "FIM" é um "Fácil e Ilustrado Manifesto" de histórias sem pé nem cabeça, uma série de quarenta das narrativas visuais que só o Sica sabe fazer. Elas foram publicadas originalmente em uma revista eletrônica, a Beleléu, que é também um selo de publicações independentes, aberto a experimentações e aventuras gráficas. Cada uma das páginas apresenta um conjunto de cinco vinhetas amalucadas que o leitor pode ou não tentar interpretar racionalmente (o Sica antecipa que não existe ordem nem tampouco sentido lógico ou intencional nelas). Elas lembram um teste de Rorschach geometrizado, só que não há uma chave para interpretar a aplicação deste "teste de Sica", nem para entender a dinâmica de associações e leituras que cada um pode fazer a partir delas. Além de na Beleléu as propostas gráficas de Rafael Sica podem ser encontradas em uma galeria do Flickr: E bom divertimento. FIM.
[início/fim: 29/07/2014]
"Fim: Fácil e Ilustrado Manifesto", Rafael Sica, Rio de Janeiro: Bebeléu, 1a (e última) edição (2014), brochura 10,5x15 cm., 44 págs., sem ISBN

sábado, 14 de janeiro de 2012

ordinário

Encontrei esse pequeno livro de Rafael Sica por um feliz acaso. Conhecia seu trabalho por conta das ilustrações que ele produz para a Folha de São Paulo, mas nunca havia lido em conjunto suas potentes narrativas gráficas. A experiência de ler cada quadrinho é realmente impactante. O leitor pode interpretar cada uma das tirinhas de diferentes formas, dependendo de seu humor, dependendo de das leituras que faz da realidade em que vive. São histórias expressivas, mas não uma expressividade estática, há sempre dinamismo e movimento em tudo que ele apresenta. Se o grafismo das histórias tem muito de surreal e mágico, o conceito que transparece delas, as ideias que o leitor encontra rapidamente ali são muito realistas (e quase sempre terríveis). Ele fala de questões típicas do mundo moderno: a solidão, a violência, o medo, a religiosidade e o sexo. Sica alcança produzir algo que força o leitor a pensar e isso é sempre muito bom. [início: 06/01/2012 - fim: 13/01/2012] 
"Ordinário", Rafael Sica, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2010, brochura 13x21, 128 págs. ISBN: 978-85-359-1777-2