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sábado, 12 de agosto de 2017

across the land and the water

Os poemas reunidos em "Across the Land and the Water" foram escritos por W.G. Sebald entre 1964 e 2001. Trata-se de um livro de 2008, publicado postumamente, organizado pelo editor Sven Meyer. Estão nele reunidos tanto poemas que já haviam sido incluídos em produções anteriores, como material inédito, hoje depositado nos arquivos Sebald da "Deutsche Literaturarchiv Marbach". Os dois livros de poemas dele que já registrei aqui: o pequeno e belo "Sin contar / Unerzählt", de 2003, e o longo e ambicioso "Del natural / Nacht der Natur", de 1988, não fazem parte desta seleção. Os poemas foram traduzidos, do alemão para o inglês, por Iain Gaibraith. Os quatro conjuntos de poemas (Poemtrees, School Latin, Across the Land and the Water, The Year Before Last) falam de fronteiras, viagens e paisagens, de leituras e registros do passado, do tempo e da memória, de mitos, lendas e tradições alemãs, do conforto da erudição, da experiência do exílio. Alguns destes poemas foram publicados em revistas e jornais anteriormente, mas nunca em livro. É difícil dizer se há um padrão neles (vamos combinar: sou o menor dos anões quando se fala em ler sistematicamente poesia; li esses poemas traduzidos e meu inglês é apenas regular; não se aprende muito das sutilezas de uma proposta poética apenas com a leitura ligeira que meu método de leitura utiliza; como sintetizar quarenta anos de produção poética, considerando que todos nos metamorfoseamos continuamente?). Todavia foi com a inteligência afetiva (em termos proustianos) que me aproximei destes versos. Os 88 poemas deixam-se ler e encantam. Estão distribuídos cronologicamente. Ora o narrador fixa nos versos uma epifania, cerebral ou mágica, ora uma bobagem qualquer, corriqueira, que nós, os não-poetas, nunca somos capazes de sentir, e ver, e escrever, mas entendemos quando lemos, como se fosse algo preso dentro de nós, subitamente revelado. Sempre só e curioso, fala do mundo e de si, congelando o tempo. Os poemas crescem em tamanho ao longo do tempo: os mais antigos são curtos, crípticos; os mais longos acadêmicos, intrincados sim, mas com sutis chaves de leitura. O título, retirado de um dos conjuntos de poemas, provavelmente escrito ainda nos anos 1980, dá conta daquela experiência que temos ao viajar sobretudo em trens, quando a paisagem se movimenta relativamente a nós em grande velocidade, tirando o foco de quase tudo, mas preservando uns pontos de referência, cinzas, verdes e azuis quase sempre, escolhos da vegetação e das águas que cortamos, como o deus Mercúrio corta o ar. O livro inclui um longo apêndice onde as alusões mais crípticas dos poemas são explicadas pelo tradutor. Um leitor verdadeiramente interessado na obra poética de Sebald tem nestas notas farto material de interpretação. Um Ulisses brota de um poema, a memória de umas férias em Marienbad doutro; o passageiro em trânsito vê da janela um mundo que passa veloz e pensa, inventa mundos, faz associações. O mundo mágico de Sebald é elástico, contém multidões whitimanianas, surpreeende sempre o leitor. Num poema, talvez em um erro tipográfico, aparece Saõ Paulo, ao invés de São Paulo, quando ele faz o censo das tribos viajantes de um aeroporto. Saõ Paulo, eh, Saõ Paulo, mas que diabo quer dizer isso?. Quando soube da morte de meu pai, o legítimo Aguinaldo Severino, no último 11 de julho, um domingo aziago, às 21h30min, fiz os preparativos de viagem, levando na bagagem até São Paulo apenas esse Sebald para ler. Logo após o sepultamento, há exatos dois meses, num início de tarde, como agora, 14 horas mais ou menos, do 12 de junho, eu repetia mentalmente, como um mantra, as palavras de Sebald: "Life is beautiful, but my day is truly wrecked".
Registro #1200 (poesia #85)
[início: 19/12/2016 - fim: 11/07/2017]
"Across the Land and the Water: Select poems, 1964-2001", W.G. Sebald, tradução de Iain Galbraith (do alemão para o inglês), London: Penguin Books, 1a. edição (2012), brochura 13x20 cm., 213 págs., ISBN: 978-0-141-04486-6 [edição original: Über das Land und das Wasser. Ausgewählte Gedichte 1964–2001 (München: Carl Hanser Verlag) 2008]

sexta-feira, 15 de maio de 2015

del natural

"Del natural" é um poema longo de W.G. Sebald, publicado originalmente em 1988. São três os conjuntos temáticos do poema. Nos primeiros oito cantos (intitulados "Como la nieve en los Alpes") o leitor é apresentado a uma biografia poética de Matthias Grünewald von Ashaffenburg, um pintor alemão do gótico tardio ( final do século XV e início XVI) que foi contemporâneo de Albrecht Dürer e é reputado como um dos precursores do expressionismo. Assim como em seus romances Sebald começa sua narrativa num lugar não convencional (no caso o retábulo de uma igreja em Lindenhardt, na Baviera, Alemanha) e parte dali seguindo as pistas esparsas de sua obsessão por Grünewald. Mas ele não se restringe a viajar no período de tempo entre as datas de nascimento e morte do artista. Visitamos com ele museus contemporâneos; descobrimos como um biógrafo do pintor cometeu um grave erro de identificação, trocando o nome de Grünewald (que na verdade era Mathis Gothart Niethart); seguimos por cidades e paróquias que encomendam seus trabalhos; com ele fugimos de perseguições religiosas; lamentamos a morte de seu filho único e aprendiz; aprendemos que dele só sobreviveram duas dezenas de trabalhos. O segundo conjunto, de vinte e um cantos (intitulado "Y si me quedar junto al mar más remoto") é também uma biografia poética. A obsessão de Sebald se volta para o botânico e explorador alemão Georg Wilhelm Steller, que viveu na primeira metade do século XVIII. Assim como nos cantos dedicados a Grünewald Sebald narra poeticamente os sucessos da vida de Steller: seus anos de formação em Wittenberg; suas viagens para a Rússia; os anos de trabalho acadêmico com o naturalista Messerschmidt em São Petersburgo; as expedições de trabalho pela Sibéria e sua participação no mapeamento do extremo leste da Rússia, na península de Kamchatka e no Alaska, sob o comando de Vitus Bering. O clima da região é terrível, as dificuldades enfrentadas pelos exploradores enormes. Após a morte de Bering Steller e uns poucos sobreviventes permanecem por meses isolados numa ilha próxima a península antes de conseguirem retornar ao continente. Os dois conjuntos de cantos se espelham. Num é a religião, o sagrado, as coisas divinas que inspiram Grünewald. Noutro é a ciência, a curiosidade científica, o rigor metodológico e a vontade de aprender mais que estimula um Steller profano, que mesmo próximo da morte (jovem, aos 37 anos) zomba da religião ao dizer que somente a natureza, misteriosa e bela, seria responsável por seu destino). O terceiro conjunto de cantos é intitulado "La noche escura hace una incursíon". Sebald faz uma curta autobiografia: conta a história de seus antepassados (que segue até o bombardeio e destruição de Dresden, em 1943); explora o fato de Saturno e a melancolia definirem o dia de seu nascimento; tem a lembrança de um navio chinês no porto de Hamburgo; fala do passado industrial da Manchester; fala dos temas que aguçam sua curiosidade acadêmica; nos leva a Pinacoteca de Munique, onde tenta entender o significado de um quadro: "A batalha de Alexandre em Isso", de Albrecht Altdorfer. Nestes últimos sete cantos achei tudo um bocado enigmático, difícil de associar ou decifrar. Talvez eu entenda melhor numa outra tentativa. Sebald utiliza o subtítulo "poema rudimentario" para identificar seu trabalho. Suas reflexões sobre o impacto da Religião, Natureza e História sobre o homem são realmente poderosas. 
[início: 10/02/2015 - 20/04/2015]
"Del natural: poema rudimentario", W.G. Sebald, tradução de Miguel Sáenz, Barcelona: editorial Anagrama (colección Panorama de narrativas, #591), 1a. edição (2004), 14x22 cm., 109 págs., ISBN: 978-84-339-7052-6 [edição original: Nacht der Natur (Ein Elementargedicht) (Nördlingen: Greno Verlagsgesellschaft m.b.H.) 1988]

domingo, 28 de setembro de 2014

sin contar

Esse belo livro estava em preparação quando Sebald morreu em dezembro de 2001. Trata-se de uma colaboração entre ele e um amigo de infância, Jan Peter Tripp, que é artista plástico. São 33 poemas curtos de Sebald e 33 gravuras monotemáticas de Tripp. O resultado é muito bom. Segundo nos conta Andrea Köhler num posfácio incluído no livro o acordado entre Sebald e Tripp era estabelecer um diálogo sem que necessariamente as imagens ilustrassem os poemas nem que os poemas explicassem as gravuras (são litografias, não sei precisar suas dimensões originais, mas o efeito no livro já é poderoso o suficiente para hipnotizar o leitor). Eles discutiram o projeto por vários anos. As litografias são sempre um recorte encaixado dos olhos de pessoas para os quais os poemas são dedicados (um elenco eclético de escritores e pintores - vivos e mortos, e de amigos de Sebald e Tripp, pessoas que ambos admiravam, que compartilhavam um olhar curioso sobre a vida). Os poemas (antes micropoemas) são compactos, provocam pelo inusitado às vezes, ou pela originalidade da proposição. O livro incluí também um poema/elegia assinado por Hans Magnus Enzensberger, em homenagem a Sebald. Dois outros livros parecem aparentados a esse: "Miramientos", de Javier Marías e "Autorretrato de otro", de Cees Nooteboom e Max Neumann. Encontrei um trabalho de André Caramuru Aubert publicado no jornal Rascunho (de Curitiba) onde ele apresenta vários poemas de Sebald em português. Talvez um leitor curioso possa encontrar ali algo para aguçar seus dias. Antes de terminar um desvio rápido porém necessário: Jan Peter Tripp não acredita que seus trabalhos possam ser entendidos digitalmente, pela internet, e se recusa a divulgá-los nesse meio (afirma ser um Neanderthal). Há um site onde ele apresenta em poucos minutos seu ponto de vista. É um discurso realmente estimulante sobre as conexões entre vida e arte, tecnologia e movimento, privacidade e expressão plástica, silêncio e desaceleração. Vale a pena enfrentar aqueles poderosos olhos de Tripp a nos confrontar pelo monitor, e pensar!
[início: 11/07/2014 - fim: 27/09/2014]
"Sin contar: 33 textos y 33 grabados", W.G. Sebald (textos) e Jan Peter Tripp (grabados), tradução de Maria Teresa Ruiz Camacho e Katja Wirth, Madrid: Nórdica Libros, 1a. edição (2007), capa-dura 19,5x26 cm., 86 págs., ISBN: 978-84-9355-0-5 [edição original: Unerzählt (München: Carl Hanser Verlag München Wien) 2003]

domingo, 7 de setembro de 2014

campo santo

Ler Sebald sempre é um exercício gratificante. Ele alcança oferecer temas à atenção do leitor, compilar informações e produzir conexões entre assuntos diversos que dificilmente conseguiríamos encontrar ou fazer sozinhos. Dele já li vários livros. Este "Campo Santo" é um livro póstumo, editado por Sven Mayer, um jornalista especializado em sua obra. Nele estão reunidos textos de ficção (cinco, bem curtos, que ocupam apenas um quinto do volume) e ensaios relativamente longos que haviam sido preparados para jornais ou revistas acadêmicas e nunca haviam sido compilados em livro (são quatorze textos, o mais antigo de 1996 e o mais recente de 2000). Os textos de ficção pertencem a um projeto antigo que Sebald nunca chegou a concretizar: escrever um livro sobre a Córsega (que talvez explorasse como a Europa imaginada pelo corso mais famoso, Napoleão, poderia ser explicada pela história, tradições e geografia daquele lugar). São textos inspirados, que lembram, claro, o ritmo que encontramos em "Austerlitz" e em "Os anéis de Saturno". Sebald nos leva até o cemitério de Ajaccio (a capital da Córsega) e nos explica que ali apenas estrangeiros eram enterrados, pois cada cidadão sempre preferia dormir para sempre nas terras de sua propriedade, como forma de manter mesmo de dentro delas o domínio de cada família. Os ensaios são bastante variados, mas tratam sobretudo de literatura. Os textos sobre Vladimir Nabokov, Franz Kafka, Günter Grass e Peter Handke são muito bons. Sebald também escreve elegias: à gastronomia (e a pesca em alto mar), a um pintor (Jan Peter Tripp), a um escritor aventureiro (Bruce Chatwin), um poeta (Ernst Herbeck). A destruição das cidades alemãs durante a segunda grande guerra, o luto perene pelas mortes e as abordagens literárias de aproximação a estes temas também aparecem em três textos longos (um dedicado a obra de Peter Weiss; outro a obra de Jean Anéry e um último, de literatura comparada, onde se discute os trabalhos de Hermann Kasack, Hans Nossack e Alexander Kluge). Os três últimos textos são curtos e talvez os mais seminais - e mais próximos a seu estilo puramente ficcional: "Moments musicaux" fala de sua educação musical, sua paixão por óperas e a decisão curiosa de não atender a um concerto (Nabucco, de Verdi) por conta de uma fobia repentina - o medo da chuva; "Un intento de restitución" fala de suas memórias de juventude, principalmente de imagens das cidades alemãs que ele não conhecia (e que estavam totalmente destruídas, apesar das imagens louvarem nelas mil maravilhas); o último texto é um curto discurso de agradecimento pelo ingresso na Academia Alemã de Língua e Poesia (que ele associa como uma espécie de legitimação de sua cidadania alemã - já que ele havia saído da Alemanha ainda jovem, estudado na Suiça, e morava há muitos anos na Inglaterra, onde lecionava). Não é exatamente o melhor livro para começar a conhecer a obra de Sebald, mas certamente fará a alegria daqueles que já se renderam às maravilhas de sua prosa. Devemos agradecer sim ao Sven Mayer por ter preparado essa bela edição. Danke schön, Herr Mayer! 
[início: 23/07/2014 - fim: 01/09/2014]
"Campo Santo", W.G. Sebald, edição de Sven Mayer, tradução de Miguel Sáenz, Barcelona: Editorial Anagrama, 1a. edição (2007), brochura 13,5x20,5 cm., 250 págs., ISBN: 978-85-339-7377-1 [edição original: Campo Santo (München: Carl Hanser Verlag) 2003]

sábado, 3 de maio de 2014

o caminhante solitário

Em "O caminhante solitário" W.G. Sebald conta seis histórias, seis biografias. Como usualmente em seus livros suas deambulações dão-se sobretudo pelo espaço ou geografia, fisicamente, já que ele percorre os caminhos já experimentados pelos autores sobre os quais fala. Mas no caso desse livro em particular são antes as viagens por sua memória afetiva (através da lembrança daqueles que o influenciaram desde a juventude, que o acompanharam desde o início de suas jornadas de estudos e prazeres) que o leitor irá acompanhar. As digressões de Sebald são ricas em associações  e informações. Seus biografados são cinco escritores e um pintor: Johann Peter Hebel, um cronista alemão da revolução francesa e ascensão alemã do início do século XIX (um conservador progressista, algo místico, que editava almanaques); Jean-Jacques Rousseau, o grande filósofo iluminista (que na época descrita por Sebald se encontrava ferozmente perseguido por governos e igreja, exilado em uma ilha no lago de Biel/Bienne); Edward Mörike, um poeta romântico alemão que foi muito popular em sua época (os primeiros três quartos do século XIX); Gottfried Keller, um poeta e escritor suiço (de língua alemã) que foi muito influenciado pela doutrina de Rousseau por um retorno do homem a natureza e cujas obras são politicamente engajadas; Robert Walser, um outro escritor suiço cujas obras influenciaram a geração imediatamente posterior a sua (aquela de Stefan Zweig, Franz Kafka, Walter Bejamin, Hermann Heese e Robert Musil); Jan Peter Tripp, um artista plástico alemão, amigo de infância de Sebald e ainda ativo profissionalmente. Como nos demais livros de Sebald que já li há várias reproduções de fotografias e obras de arte distribuídas pelo texto. Sebald ressalta nesses curtos ensaios a introspecção, solidão, isolamento e/ou exílio que seus biografados experimentaram, como se tentasse entender através deles algo sobre a loucura ou a depressão que se abate nos homens. O nome do livro é inspirado em um de seus personagens, Jean-Jacques Rosseau, que publicou seu "Les Rêveries du promeneur solitaire" em 1778. Os devaneios solitários de Sebald propiciam um contraste entre eventos revolucionários do início do século XIX e do mundo contemporâneo em experimentamos desde a queda do muro de Berlin. Não se trata de reflexões típicas de sociólogos ou economistas, claro, mas sim de um escritor que consegue localizar em textos de ficção já antigos aquilo que se parece com respostas a nossas dúvidas e reclamações contemporâneas. Assim como para os escritores do século XIX as ilusões do contrato social iluminista já eram óbvias, basta consultar os jornais diários para reconhecermos que o progresso e o liberalismo não estão em nossa ordem do dia. Também hoje o impulso democrático parece ser incapaz de nos poupar de gente saudosa do fascismo e outras doutrinas totalitárias (principalmente nesse país podre e doente que é o Brasil). 
[início: 25/04/2014 - 29/04/2014]
"O caminhante solitário: Sobre Gottfried Keller, Johann Peter Keller, Robert Walser e outros", W.G. Sebald, tradução de Telma Costa, Lisboa: Editorial Teorema, 1a. edição (2009), brochura 15,5x23,5 cm., 163 págs., ISBN: 978-972-695-886-4 [edição original: Logis in einem Landhaus: Autorenporträts über Gottfried Keller, Johann Peter Hebel, Robert Walser und andere (Munich: Carl Hanser Verlag GmbH) 1998]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

vertigem

Winfried Georg Maximiliam Sebald, ou apenas W.G. Sebald, como ele assinava seus livros, tinha 46 anos e uma consistente carreira acadêmica quando publicou "Vertigem", seu primeiro texto de ficção, em 1990. Também foi poeta, ensaista e tradutor, mas foram seus livros de ficção que garantiram a ele reconhecimento e admiração. Em um período curto, pouco mais de dez anos, publicou cinco livros que são muito parecidos entre si, formando um conjunto bastante homogêneo, que talvez devesse ser lido como elementos de um único projeto literário, de uma única proposta estética. Suas longas descrições de lugares, pessoas (e das sensações que ele experimenta) parecem sempre fugir de algo objetivo, afastando-se de um final possível. Sua narrativa acumula digressões que ora aguçam a curiosidade do leitor, mas ora o entendiam. Entretanto Sebald, em geral, sabe equilibrar o que poderíamos chamar apenas de enumeração das coisas de seu interesse (a fixação de memórias pessoais e coletivas, o contraste entre o choque do novo e encantamento com aquilo que o hábito - fiel camareiro, dizia o Prout - nos oferece reiteradamente). Ele traça correspondências entre acontecimentos de sua vida (ou da vida do sujeito que narra a história, há uma superposição curiosa aqui) que parecem muito distante entre si, tanto espacialmente quanto temporalmente, mas que parecem encontrar alguma ordem na forma organizada por ele. Acho que é justamente à Proust que Sebald deve algo, afinal de contas. No "Em busca do tempo perdido" há uma história grandiosa que o leitor acompanha até descobrir no último volume o resultado das metamorfoses, das sucessivas encarnações dos personagens de Proust. Nos cinco livros de Sebald o que encontramos são reflexões e digressões sobre as experiências de vida do autor, que vive parte do horror da segunda grande guerra mundial, emigra ainda jovem à Inglaterra, alcança uma formação e uma atividade profissional sólida, mas que precisa prescrutar seu passado para entender do quê realmente é feito. Isso se repete em todos os livros dele que li (mesmo aqueles onde isso é subentendido, velado). "Vertigem" é dividido em quatro seções, que implicam em viagens de descobrimento e volta para reflexão. Primeiro ele fala de Henri Beyle (sem ajudar o leitor lembrando-o que é de Stendhal que se fala). Descreve as viagens de Stendhal pelos domínios de Napoleão e suas relações amorosas (que lembram as bizarrices de um Casanova). Na segunda seção é o narrador quem percorre um caminho parecido com o de Beyle/Stendhal, saindo de Viena, passando por Innsbruck e depois flanando pelo norte italiano, por Veneza, Verona, Pádua e Riva. O narrador de Sebald conversa com estranhos, anota impressões, experimenta coisas. Ele sempre dá um jeito de encontrar algúem que tem tanto apreço pela memória e por contar histórias como ele (claro, isso é artificial, ficcional, não há como se repetir tantas vezes no mundo real, apesar da realidade sempre ser mais surpreendente que o mundo da ficção). Na terceira seção Sebald faz um desvio e fala dos tempos de Franz Kafka em um sanatório de Riva del Guarda, no norte italiano. Através das cartas amorosas (confusamente amorosas) de Kafka dirigidas a Felice Bauer (e nesta parte Sebald deve muito ao que Elias Canetti fala do amor e do amor epistolar) Sebald desenvolve a sua teoria do amor. Na parte final Sebald (talvez fortalecido por suas errâncias italianas) parte em busca de um outro tipo de amor, o amor por uma cidade que foi a sua na Alemanha, na infância e adolescência, antes da emigração quase forçada à Inglaterra. Ali, praticamente incógnito, como um Ulysses que retorna a Ítaca mas não tem pretendentes para abater (se é que os fantasmas pessoais de uma pessoa não possam ser representados pelos pretendentes - é uma coisa para se pensar), o narrador resgata algo de seu passado, fala de suas surpresas, de suas decepções. Mas a volta inevitável à Inglaterra é feita com um novo olhar, pois cada experiência que acumulamos nos metamorfoseia um tanto e, mesmo quase-estaticamente, como na termodinâmica, voltamos diferentes de qualquer viagem (ou de qualquer vilegiatura, como Proust já nos ensinou no "Os prazeres e os dias"). Se o narrador estava incomodado e aborrecido com algo ao iniciar sua jornada ("uma fase particularmente difícil de minha vida", ele diz) ao final há a rotina e o hábito para consolá-lo das eventuais agruras que o acompanharam e que ele ainda traz de volta. Em "Vertigem" assim como nos demais livros de Sebald, há muitas imagens distribuídas no texto. Nos volumes iniciais de sua obra de ficção (Vertigem, Os emigrantes) ainda encontramos associações explícitas entre as imagens e o texto, mas nos volumes finais (Os anéis de Saturno, Guerra aérea e literatura, Austerlitz) essa associação é menos objetiva, como se ele experimentasse afirmar seu estilo. Não acredito que um outro sujeito possa usar os mesmos recursos narrativos de Sebald, imitá-lo, emulá-lo, sem parecer anacrônico e besta (já li coisas assim na seara de vários  "Jovens Escritores de Literatura Brasileira Contemporânea" - definição boa desse fenômeno inventada por don Hugo Crema - mas o efeito é risível). Afinal parece que seus temas e o tratamento que ele dá a eles é algo que não emigra bem para às mãos de um outro autor. De qualquer forma a experiência de ler esses contos e romances de Sebald foi proveitosa (um ponto para don Fernando Landgraf pela dica). O duque de Vértigo (título literário-nobiliárquico concedido por Javier Marías a Sebald em 2000) tem mesmo genuíno valor. [início 23/10/2011 - fim 25/10/2011] 
"Vertigem: Sensações", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm, 199 págs. ISBN: 978-85-359-1334-7 [edição original: Schwindel: Gefühle, (Eichborn Verlag) Frankfurt/Deutschland, 1990]

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

os emigrantes

Por comodismo vou classificar esse livro como de contos, mas ele é algo indefinível, um híbrido, um misto de relatos inventados, biografias e memórias. Vou deixar os comentários sobre a forma e o estilo dos livros de Sebald para depois, quando fizer o relato do último dos livros dele que li (que por acaso é o primeiro publicado por ele, Vertigem). "Os emigrantes" é de 1992. São quatro relatos breves, quase-biografias de sujeitos que emigraram, pessoas que experimentaram o desapego de suas histórias, de suas famílias, de suas origens. Mas esses retratados não são exatamente reais - apesar de certamente serem decalcados de pessoas reais, aparentados ou bons amigos do autor. Digo isso apenas na medida em que alguém pode ser amigo de alguém, inclusive porque o conceito de amizade de Sebald é algo mais complexo do que transparece desses relatos. Os quatro personagens (Henry Selwyn, Paul Bereyter, Ambros Adelwarth, Max Ferber) representam uma coletividade, uma legião formada por todos que experimentaram a violência, a perda e o desespero derivados das guerras que assombram os homens. Sebald fala do desapego e do desespero, mas também da idéia da morte, do suicídio, como forma - válida - de se entender o mundo (e como forma de abandoná-lo, como já nos ensinou o Vila-Matas). A origem dos personagens é variada. Selwyn é lituano, emigra para a Inglaterra no final do século XIX, exerce a medicina com relativo sucesso, mas termina seus dias despauperado, cuidando de plantas e cavalos em uma propriedade rural. Já Bereyter é um professor alemão da escola primária, de mãe alemã e pai meio judeu. A se acreditar no relato, Sebald foi seu aluno e Bereyter um excelente educador, disciplinado formador de jovens. A segunda grande guerra força Bereyter a servir no exército alemão e viajar por toda a zona de ocupação. Assim como no caso de Selwyn, no final da vida Bereyter percebe-se esgotado, sem possibilidades, sem alternativas. A idéia de suicídio é inevitável. O terceiro retratado é Ambros Adelwarth, que pode ser um tio-avô do narrador (mas as vezes ele grafa Ambrose e não Ambros, o que me faz pensar que existe um Adelwarth histórico e um ficcional - ou que houve um erro de revisão na produção do livro, o que seria engraçado afinal de contas). Esse Ambros emigra para os Estados Unidos e vive como mordomo de um rico rapaz, herdeiro de banqueiros judeus de Nova York. Esse rapaz é viciado em jogos e cassinos, acaba enlouquecendo e sendo internado em uma clínica, onde morre. Ambros continua servindo os pais desse rapaz até aposentar-se e internar-se voluntariamente também ele em uma clínica para doentes mentais, onde padece de sofrimentos terríveis nas mãos de médicos algo inescrupulosos. O último personagem é um pintor, Max Ferber, cujos pais morreram em um campo de concentração. Assim como Sebald esse sujeito emigrou da Alemanha para a Inglaterra, radicando-se na cinza, industriosa e poluída Manchester. As descrições de Sebald são poderosas. O impacto da história recolhida no diário da mãe de Ferber, às vésperas de seu internamento nos campos de concentração, é terrível. Diferentemente dos livros posteriores de Sebald nesse há um diálogo explícito entre as imagens do livro e o texto. Há idéias inventivas nele, como o comentário sobre a inveja que pretensamente os alemães tinham (e talvez ainda têm) dos nomes judeus, o uso reiterado de passaportes e vistos ou a imagem das três jovens parcas entrevista em um quadro pintado por Ferber. Uma coisa que se repete nas histórias e me chamou a atenção é o estranhamento que o narrador de Sebald sempre experimenta com atendentes nos hotéis em que se hospeda, como se ele emulasse a timidez de um emigrante que é humilhado sistematicamente ao se apresentar nos balcões de check-in. Sebald sempre encontra interlocutores (que junto com ele são os narradores das biografias de seus personagens) tão detalhistas e meticulosos como ele. Sebald, também um emigrante, alguém que se confunde com seus personagens, também poderia ter suas andanças pela Europa descritas por algum autor que se apropiasse de sua história. Esses narradores auxiliares acabam lembrando o leitor do artificialismo de sua técnica, mas isso pode também ser proposital. É coisa para se pensar. Vou deixar isso para a resenha do Vertigem, que em breve incluirei aqui. [início 14/10/2011 - fim 24/10/2011] 
"Os emigrantes", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 287 págs. ISBN: 978-85-359-1462-7 [edição original: Die Ausgewanderten: Vier lange Erzählungen, (Carl Hanser Verlag) München/Deutschland, 1992]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

austerlitz

Foi Fernando Landgraf quem apresentou-me "Austerlitz". Ele, mais corajoso que eu, chegou quase ao final do livro e reencetou a leitura, tamanho era seu encantamento. Depois ele escreveu aos amigos recomendando-o, e eu, curioso como sempre, resolvi conhecer Sebald afinal. Se é para fazer comparações espúrias acho que "Os anéis de Saturno" é mais poderoso, talvez por ser mais racional, mais ancorado na tentativa humana de classificar as cousas da vida, mas isso é, claro, totalmente irrelevante, apenas uma impressão e ok, eu sei que essa tentativa é vã e tola. Em "Austerlitz" o narrador de Sebald, como sempre enigmático, amorfo e ambíguo, encontra, já no final dos anos 1960, um sujeito chamado Austerlitz em uma grande estação de trens de Antuérpia. Ambos partilham de curiosidade intelectual com aspectos arquitetônicos e históricos do lugar. A afinidade é sutil, mas imediata e definitiva. Após essa primeira vez Austerlitz e o narrador voltarão a se encontrar somente após quase três décadas. A partir desse reencontro eles manterão contato frequente, algumas vezes por acaso, noutras por conta da vontade explícita de um dos dois. O longo monólogo de Austerlitz, que é a história que está sendo narrada, segue como um mantra pelo romance. Os encontros tem um formato curioso, como se o narrador fosse um psicólogo ou analista que ouve seu paciente sem julgá-lo, em reiteradas sessões clínicas. Austerlitz ora confessa coisas, ora pratica uma espécie de auto-análise, exercitando sua memória, narrando sua vida e suas obsessões. Na verdade Austerlitz passa por uma metamorfose na narrativa. No início do livro ele é calado, objetivo e professoral. Mas nos encontros posteriores com o narrador passa a praticar uma quase-verborragia, um misto de memorialista de si mesmo, de detetive de sua biografia. A influência de Proust e a idéia de memória involuntária sobre os homens é perene nesse livro. Mas Sebald não parece tão seguro como Proust em afirmar que a memória voluntária não tem valor. Sebald se distingue nas descrições dos hábitos e procedimentos que homens e mulheres praticam na vida cotidiana, nas suas relações mundanas. Ele apresenta lentamente a evolução e transformação de seu personagem, sem sobressaltos. Os colapsos que pontualmente afetam Austerlitz (e que no fundo o fazem recuperar seu passado enterrado) são como as epifanias proustianas (o guardanapo engomado, o martelar nas rodas do trem, o calçamento irregular das pedras de Veneza, o sabor da madeleine embebida no chá de tília, a visão oblíqua das agulhas das torres dos campanários de Martinville). Mas se no caso de Proust o que emerge é um entedimento pleno de como opera a vida, no que há de belo e sublime nela, mas também no que há de grotesco e anacrônico, Sebald faz com que seu personagem saia à tona carregando o fardo das misérias de seu tempo, tornando-o um arauto das atrocidades da segunda grande guerra, dos procedimentos utilizados para o encarceramento e a morte de milhões de indivíduos. Se é que me lembro bem Fernando chamou de "camadas de carma" o que se vê na arquitetura da estação central de trens de Antuérpia. Talvez sejam de fato essas camadas (e não os aspectos técnicos) os reais atratores do olhar de Austerlitz e do narrador. E, da mesma forma, não é conhecimento dos detalhes de como operou a máquina de guerra nazista que melhor explica o destino de cada um dos muitos que foram afetados por ela. Como bem observa Austerlitz ao descrever a moderna biblioteca nacional francesa (uma construção bizarra que praticamente impede o contato entre livros e leitores), existe uma arquitetura na destruição. Entendo o Fernando e seu desejo de continar a leitura por mais tempo, "Austerlitz" é mesmo um livro impactante, mas o velho Guina vai serguir por outros caminhos. [início 04/10/2011 - fim 08/10/2011] 
"Austerlitz", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm, 287 págs. ISBN: 978-85-359-1201-2 [edição original:  Austerlitz (Carl Hanser Verlag, München/Deutschland), 2001]

domingo, 2 de outubro de 2011

os anéis de saturno

Estimulado por don Fernando Landgraf e terminado o bom livro de ensaios "Guerra aérea e literatura" resolvi experimentar um dos romances de Sebald que tinha à mão. Escolhi começar por "Os anéis de Saturno", que tem o subtítulo "uma peregrinação inglesa", publicado em 1995. É um livro curioso, que enfeixa um conjunto grande de histórias, boa parte bizarras, irrelevantes, desconexas. São como anotações depositadas em uma caixa e esquecidas, notas de reflexão sobre temas variados, que Sebald rearranja literariamente e apresenta através de sutis paralelos e ligações. O que transparece ao final, como parte da tessitura do livro, perene e absoluta, são a selvageria, cobiça e vocação para a destuição que acompanham todos os atos humanos. Sebald usa procedimentos analíticos das ciências naturais para ordenar e classificar o que reuniu. Claro, ele não tem a pretensão de abarcar todas as ações humanas, seu livro funciona com um catálogo do que ele vê na parte mais oriental da Inglaterra (East Anglia, os condados de Norfolk e Suffolk), durante as longas caminhadas que faz pela região. Sebald não tem nada de simbolista, claro, mas há em "Os anéis de Saturno" muito do decadentismo que encontramos no "Às avessas", de Huysmans. É como se Sebald atualizasse, um pouco mais de um século depois, a terrível visão descrita por Huysmans. O homo sapiens sapiens pouco evoluiu, continua o mesmo animal condenado à decadência e destruição. O narrador de Sebald (que pode ser ele mesmo, ou um alter ego, ou um personagem, nada é trivial em um romance) convalece em um hospital da região. Ao visitar praias frias e desertas, hotéis e pousadas decadentes, castelos e mansões destruídos, envolvidos por vegetação, corrompidos por matéria orgânica, assim como ao conversar com as pessoas que encontra nesses lugares, ele lentamente constrói um mosaico de reflexões e digressões. Sebald inclui dezenas de fotografias em seu livro. Elas ilustram o que se lê, mas não há referência explìcita a elas no texto. Como há muito no livro daquilo que encontramos mais frequentemente na construção acadêmica de artigos, a fragmentação do texto pelas figuras até se justifica, mas eu acho que Javier Marías usa esse artificío com mais eficiência. Sobre Sebald don Hugo Crema escreveu: "tenho recalcitrâncias com Sebald, me soa o tipo de contemporâneo (tipo Roth e Auster) que autores de 20 anos lêem". Boa colocação a dele. Um sujeito que lê autores deste tipo, displicentemente, pode ser levado a usar das mesmas hibridizações, intertextualidades e fragmentações (e pior, de considerar-se um escritor genial e inovador, ao tentar emulá-los). Mas acredito que é a cultura enciclopédica de um autor como Sebald que garante algum valor a suas reflexões e ao resultado final. A ver. [início 23/09/2011 - fim 26/09/2011] 
"Os anéis de Saturno", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 292 págs. ISBN: 978-85-359-1723-9 [edição original:  Die Ringe des Saturn. Eine englishe Walfahrt (Frankfurt am Main: Eichborn Verlag), 1995]

sábado, 1 de outubro de 2011

guerra aérea e literatura

Foi ao ler don Javier Marías que soube pela primeira vez de W.G. Sebald. Em um de seus artigos de jornal ("El amargo valor de algunos muertos", incluído no Harán de mí un criminal) ele falava da morte de "Max" Sebald em um acidente automobilístico; da amizade entre eles - que era apenas epistolar afinal de contas; de algumas de suas afinidades; e do fato de Sebald ter o título de duque de Vértigo, do imaginário reino de Redonda de Marías (sim, Javier Marías é rei - Xavier I, mas esta é uma história longa demais para ser contada aqui e pode ser encontrada em pelo menos dois livros dele: Negra espalda del tiempo e El monarca del tiempo). Já mais recentemente don Fernando Landgraf perguntou-me se eu conhecia Sebald, pois estava maravilhado com as descrições arquitetônicas do "Austerlitz". Motivado por ele decidi começar a ler com alguma disciplina os livros de Sebald. "Guerra aérea e literatura" é uma espécie de exegese às avessas, pois ao invés de interpretar um texto literário, Sebald fala da ausência, na literatuta alemã, de reflexões ou mesmo meras descrições do impacto gerado pelos bombardeios massivos sobre o território alemão durante a segunda grande guerra, na cultura e literatura do pós guerra. Milhares de pessoas morreram em função desses bombardeios e milhões de pessoas passaram a vagar enlouquecidas pelo território alemão. O que se encontra no livro são discussões sobre as maneiras como memórias individuais, coletivas e culturais são afetadas por experiências que extrapolam o limite do suportável, pelo horror vivenciado que nunca é superado de verdade, pelo trauma espiritual terrível, inimaginável, inconcebível. Apesar das milhares de cidades alemãs totalmente destruídas terem sido reconstruídas com esmero, pouco do horror da destruição total da paisagem, memória e passado dos indivíduos foi elaborado literariamente (se é que pode ser elaborado literariamente), nem afetou o auto entendimento contemporâneo da cultura e sociedade alemãs. Originalmente os dois primeiros capítulos do livro foram apresentados na forma de conferências acadêmicas. Não me parece exatamente um trabalho canônico de historiografia, mas uma enunciação de impressões sobre a destruição, bem como a exposição dos relatos compilados que tratam da destruição. Segundo ele os relatos que encontrou são demasiado místicos, retóricos (no sentido de que haveria uma justificativa mística para a destruição, uma espécie de punição divina) ou demasiado estilizados (estilizados com expressionismo), artifícios que retiram algo da força dos argumentos. O cinismo e a lógica das guerras são descritas muito objetivamente. Gostei da descrição de "Bomber/Butcher Harris", o comandante inglês responsável pelos bombardeios, e também de um argumento utilizado na época que poderia ser colocado na boca de qualquer um dos senhores da guerra de nosso tempo (Obama, Netanyahu, Sarkozy, Ahmadinejad, Putin, Jiabao): Depois que tamanho esforço de guerra foi empreendido, tamanho montante de inteligência, capital e força de trabalho acumulados na forma de aviões e bombas, eles precisavam ser utilizados. Não haveria sentido em desviar um ataque caso uma grande bandeira branca fosse agitada pelos alemães, após tal emprego de mão de obra. São sempre só negócios, afinal de contas. No terceiro capítulo do livro ele reflete sobre as reações desencadeadas pelas conferências. Ele não chega exatamente a uma conclusão, mas provoca o leitor a pensar sobre o assunto. O livro se completa com um "estudo de caso", um ensaio sobre Alfred Andersch, um sujeito nascido em 1914, que permaneceu na Alemanha durante a guerra, e que tinha a pretensão de tornar-se o maior escritor alemão de seu tempo. Andersch faz uma interpretação dos acontecimentos da guerra, notadamente aqueles relacionados com a guerra aérea, útil aos argumentos de Sebald. O texto de Sebald fica no limite da crueldade. Andersch é um escritor tão sofrível e artificial que apenas a exposição explícita de suas idéias e projetos literários faz o leitor lamentar-se da existência do sujeito. A dupla moral (tanto na vida pessoal, quanto na produção literária) de Andersch é questionada duramente por Sebald. E ele generaliza, alertando os leitores: "Quando um autor moralmente comprometido reivindica a neutralidade valorativa do campo estético, seus leitores deveriam tomar algum cuidado". Como não gostar de um escritor tão objetivo e seminal? Uma nota final: A Penguin inglesa acrescentou à esses dois textos (Air war and literature e Between the devil and the deep blue sea: On Alfred Andersch) dois outros (Against the irreversible: On Jean Améry e The Remorse of the heart: On memory and cruelty in the works of Peter Weiss), intitulando o livro de "On the natural history of destruction". Elias Canetti já nos ensinou que não existe nada mais humano que nossa afinidade com a destruição e a morte. [início 21/09/2011 - fim 22/09/2011] 
"Guerra aérea e literatura: Com um ensaio sobre Alfred Andersch", W.G. Sebald, tradução de Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 131 págs. ISBN: 978-85-359-1884-7 [edição original: Luftkrieg und Literatur: Mit einem Essay zu Alfred Andersch (Fischer Verlag) Frankfurt (2002)]